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Doutor Bodini: a ferrovia em pessoa

20/07/2017

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Walter Bodini na capa da Revista Ferroviária de novembro de 1993

Por Guilherme Quintella*

Acho que parte dos que estiverem lendo este texto não terão ainda ouvido falar nele. Poucos o conheceram. Lógico, para minha sorte, não me incluo nestes dois grupos.

Já tinha ouvido falar muito dele antes de conhecê-lo, e depois quando tive o privilégio de conviver mais intensamente com ele, passei a respeitá-lo e admira-lo. Aprendi muito com ele e serei eternamente grato pelo tempo e paciência que ele teve comigo.

Dr. Bodini era um ferroviário de verdade. Tinha uma visão holística da ferrovia. Uma visão de Rede. A entendia como um sistema de alta capacidade, capaz de transportar com eficiência tanto carga como passageiros. Era rápido na associação ferroviária da causa e efeito. Entusiasta da eletrificação da malha paulista, defendia a agilidade de trens rápidos e curtos, de baixo custo para atender a demanda do mercado do Estado de São Paulo.

Engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, foi na antiga Estrada de Ferro Sorocabana que começou a sua saga ferroviária. Foi Presidente da FEPASA - Ferrovias Paulista S.A. (estatal paulista que operava a malha ferroviária paulista) por duas vezes, Presidente da CBTU, Diretor da Rede Ferroviaria Federal, Secretário de Energia do Estado de São Paulo e Secretário de Finanças do Município de São Paulo, entre outros coisas.

Ele era um grande homem, nem tanto no seu porte físico, mas especialmente na sua conduta. Enérgico tomador de decisões, não postergava uma decisão. Não acabava uma discussão enquanto não a concluísse.

Dr. Bodini foi um crítico qualificado do modelo de privatização das ferrovias. Na época, dizia que ao contrário do que ocorreria em outros setores, a privatização da ferrovia, e em especial da Fepasa, seria uma marcha ré no transporte sobre trilhos. Já previa, que o modelo proposto causaria abandono de trechos e reduziria a participação da ferrovia na matriz de transportes do Estado. Tinha lá suas razões.

Quando presidiu a Fepasa pela última vez de 1991 a 1993, a malha paulista transportava anualmente 25 milhões de toneladas de carga originadas no Estado de São Paulo, (sem os grãos da Ferronorte que não existia na época), ou seja 2,5 vezes a mais do que a mesma malha transporta hoje. A participação da ferrovia na matriz de transportes do Estado era de quase 10%, contra hoje 4%. Além da carga, a Fepasa transportava quase 10 milhões de passageiros por ano. A malha operacional do Estado de São Paulo era 5000 km. Hoje não devemos ter nem a metade disso.

Recentemente estive reunido com ele em três longas reuniões. Ele estava muito lúcido e queria conhecer com detalhe os projetos da Ferrogrão e do TIC (Trens Intercidades). Na primeira reunião tratamos da Ferrogrão, na segunda reunião apresentamos o TIC e na terceira reunião, no seu escritório, no bairro do Butantã em São Paulo, ele trouxe os seus comentários e suas valorosas contribuições aos dois projetos.

Nesta terceira reunião, ele me acompanhou até o meu carro na rua e quando eu estava partindo, ele me perguntou:

                - Você já tem nome para está ferrovia de passageiros entre Americana e São Paulo?

                - Se viermos a ganhar a licitação, estou pensando em sugerir FEPASA (marca que atualmente pertence a EDLP), se o Senhor me autorizar, claro, mas vamos chama-la carinhosamente de A Paulista, respondi rindo.

Ele segurou no meu braço, e com a sua firmeza de sempre, falou:

                - Então vai dar certo!!

Dr. Bodini era o cara! Deixa uma linda família, um grande legado e muita saudade!

 

*Guilherme Quintella é diretor da Estação da Luz Participações (EDLP)



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