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Sintomas do La Niña tiram produção de grãos do eixo

14/02/2018 - Valor Econômico

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Para todos os efeitos, “oficialmente” não há La Niña. Mas as variações climáticas associadas ao fenômeno estão no radar dos produtores agrícolas de diversos países desde o fim do ano passado e prometem provocar novas surpresas nos próximos meses.

Em regiões dos Estados Unidos e da Argentina, por exemplo, a interferência tem sido negativa para as lavouras de grãos e sustentado os preços na bolsa de Chicago. No Centro-Oeste brasileiro, em contrapartida, tudo indica que o reflexo mais marcante será uma safra de soja maior que a prevista inicialmente – talvez um novo recorde histórico seja batido.

Para que o La Niña se torne “oficial”, é preciso que durante três meses consecutivos as temperaturas nas águas superficiais do oceano Pacífico equatorial fiquem abaixo da média, o que ainda não aconteceu. Mas poderá acontecer, o que por si só surpreende especialistas, sobretudo depois do intenso El Niño observado na temporada 2015/16.

Ocorre que o oceano estava fornecendo calor e, mais rapidamente do que o normal, essa transferência de calor foi interrompida e logo houve um resfriamento, o que começou a desencadear as mudanças que preocupam ou animam os agricultores.

Segundo Ricardo de Camargo, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), é difícil prever qual será a dimensão dos efeitos do La Niña, dadas as mudanças constantes no sistema atmosférico.

“É como se estivéssemos tentando entender um sistema que está evoluindo para prever o próximo passo, mas o ‘próximo passo’ tem sido sempre uma novidade”.

Como têm sido marcantes nos EUA, no Brasil e na Argentina, três grandes produtores de milho, trigo e soja, as surpresas têm elevado a volatilidade desses grãos na bolsa de Chicago. Nada capaz de provocar valorizações expressivas, mas o suficiente para evitar quedas bruscas em tempos de estoques globais relativamente elevados.

Conforme Ricardo de Camargo, se as condições de La Niña no Hemisfério Sul se mantiverem até o outono, que terá início em 20 de março, “sintomas” como a falta de chuva no extremo sul do Brasil e no norte da Argentina tendem, sim, a se agravar.

Marco Antônio do Santos, agrometeorologista da Rural Clima, não acredita que isso vá acontecer. Mas joga o foco em outro aspecto associado a mudanças recentes no regime de chuvas: ainda que regulares, as precipitações têm sido insuficientes para abastecer a contento os reservatórios sobretudo no Norte e no Nordeste do Brasil.

Patrícia Madeira, meteorologista da Climatempo, diz que as precipitações deverão se manter elevadas no Nordeste pelo menos até março, mas também não acredita que o volume será suficiente para reverter o quadro de escassez.

Oscar Cordeiro, diretor de regulação da Agência Nacional de Águas (ANA), concorda que, mesmo que haja uma boa quantidade de chuvas, em muitos casos ainda haverá reservas mais baixas que o habitual. “Para boa parte dos reservatórios, não é suficiente somente um período de chuvas muito forte. É preciso, na verdade, uma sequência de bons anos para eles voltarem a encher”. Assim, não há perspectiva de que as atuais medidas de restrição de uso da água no Nordeste sejam revertidas.

Atualmente, os agricultores próximos da bacia do São Francisco estão impedidos de praticar irrigação às quartas-feiras, e a vazão dos reservatórios segue reduzida. Em Sobradinho (BA), ela já foi reduzida a 550 metros cúbicos por segundo ante 1.300 antes da crise hídrica. “Estamos esperando para, justamente, avaliar o comportamento dos reservatórios nos próximos meses e decidir se alteraremos ou não essas restrições”, afirma Cordeiro. 



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