Em todas as entrevistas concedidas, às mais diversas autoridades, ligadas ou não ao setor de transportes, as opiniões sempre levaram ao consenso sobre o caos urbano instaurado pelos constantes engarrafamentos. Esse quadro ainda persistirá por muito tempo, se não houver uma solução imediata, afirmam os especialistas do setor que foram entrevistados até o momento. Para abrilhantar a série “Perspectivas Metroferroviárias – O Transporte e as Cidades”, com um teor a mais de conhecimento, a CBTU convidou o engenheiro civil, Eduardo Vasconcelos, um profundo conhecedor no assunto de transporte de massa, mesmo quando entra na complexa relação do transporte com o desenvolvimento econômico.
Eduardo Vasconcelos aborda ainda a dura realidade política do país “Pela tradição do Brasil, nenhum político pode falar contra o transporte público, pega mal. Então ele fala bem, mas na hora de você distribuir os recursos, as forças verdadeiras que vêm lhe pressionar, não são mais aquelas que apoiaram essa idéia genérica do transporte público. São as forças reais da classe média que usa o automóvel, dos empresários… Enquanto a força que vem daqueles que usam transporte público é pequena ainda, por causa da fragilidade da democracia.”
Militando no setor desde a década de 70, o doutor em Políticas Públicas pela USP – Universidade de São Paulo e pós-doutorado em Planejamento de Transportes na Cornell University, Eduardo Vasconcelos, que é consultor em transporte público e assessor da Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP, ressalta e inclusive faz um“mea culpa” , como engenheiro, ao conceito antigo que grande parte dos engenheiros e que as empresas tinham, somente que se preocupar em construir, sem considerar a estética, a beleza da obra, ou mesmo o conforto. Nunca pensando na questão urbanística. “Temos que mudar, temos que entender o transporte público, como uma coisa bonita, uma coisa atraente, uma coisa que recompõe o espaço urbano (…)”, visualiza o assessor.
Para Eduardo Vasconcellos, as pessoas quando tiverem acesso a um VLT, têm que ter a sensação de se sentirem bem num modo de transporte que alia a máquina ao meio urbano, sem agressão. “Você tem que aproveitar a oportunidade para recompor urbanisticamente a cidade e aumentar a qualidade de vida e a estética. Nós engenheiros temos que aprender que tem que ser dessa forma. Não é só botar para rodar, isso não tem mais sentido”, garante.
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Todos os conceitos e argumentos do engenheiro Eduardo Vasconcellos, durante entrevista concedida na própria ANTP, você acompanha, na íntegra, logo a seguir.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Qual a sua visão sobre o transporte urbano nas cidades brasileiras?
Bom, o transporte urbano nas cidades brasileiras está passando por uma fase semelhante a que ocorreu em outros países e que continua ocorrendo, caracterizada pelo aumento do uso do transporte individual em detrimento ao transporte coletivo. Esse é um fenômeno internacional com muita incidência no Brasil.
Nesse tipo de modelo, o resultado em geral é muito ruim, porque gera externalidades negativas como poluição, acidentes no trânsito, congestionamento e o rompimento das relações sociais que transformam a sociedade num ambiente muito mais agressivo e muito menos adequado para a população. A conjuntura atual é muito preocupante, porque apesar de ser um problema solucionável não está no horizonte político de nenhuma autoridade relevante no Brasil.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: Percebe-se, então, que o caos está instalado. Como, quem e quando poderá ser tomada alguma atitude?
A atitude, eu creio, que virá por parte da sociedade, uma vez que a correlação de forças, atualmente, continua muito desigual, o que é característico de um país com a democracia muito recente, além de muito frágil e com baixíssimo grau de educação da população e em geral com ausência total de cidadania.
Então é uma relação de forças que favorece os processos macroeconômicos de acumulação de capital, priorizando os interesses das elites e das classes médias, relegando para um segundo plano os interesses da maioria da população, cuja mobilidade se caracteriza pelas viagens a pé e pela utilização do transporte público.
Portanto, não será de dentro do sistema e nem por parte dessa correlação de forças que algo relevante acontecerá no curto prazo. Um fato relevante poderá ocorrer, em um outro sentido, acentuando drasticamente a crise de tal forma que as próprias elites tomarão alguma providência.
Essa crise pode ser de fundo econômico como, por exemplo, a redução do processo de acumulação de capital ou pode ser também de cunho internacional. A crise ambiental pode forçar a uma alteração desse processo no país, mesmo que a elite não tenha interesse nesta mudança. Resumindo, são dois os motivos: a crise ambiental e a queda da rentabilidade do capital.
Esses dois fatos poderão modificar o sistema de mobilidade, no sentido de reduzir o uso do transporte individual e aumentar a utilização do transporte coletivo. A mudança política gerada no interior da sociedade vai demorar muito, porque a maioria da população brasileira é totalmente leiga em relação ao assunto.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: E o fato da população conseguir a realização do sonho da compra do carro zero com a facilidade de financiamento em apenas 90 meses?
Essa facilidade está sem dúvida ajudando muito. Se você for competente o suficiente, você trabalha, ganha dinheiro e compra um carro. As pessoas não querem saber de transporte público, quem pode fugir, foge. O governo recentemente ainda deu mais uma mãozinha importando motocicletas do exterior a um preço baratíssimo, liberando crédito. Tudo que não deveria ter feito.
É muito difícil você vislumbrar uma situação de mudança na classe média que é um ator muito importante no capitalismo. É um processo complexo de desenvolvimento econômico em que você cria uma classe média em função de um modelo de concentração de renda e você começa a mercantilizar todas as relações. Tudo tem que ser pago de alguma forma e tudo tende a se transformar cada vez mais em privado, individualizado, num sentido um pouco mais psicológico, egoísta.
Então, nós vivemos no Brasil nos últimos 40 anos a formação dessa grande classe média que não existia. Essa classe média se formou num processo autoritário/político, num processo de concentração de renda, que foi trocando a escola pública pela escola particular, a saúde pública pela saúde particular, o lazer público pelo lazer particular em clubes fechados, a segurança pública pela segurança particular, e o transporte público pelo transporte individual. É um processo de mercantilização, é um processo muito profundo. Junto com isso vem propaganda, vem a ideologia.
CBTU – A Cidade nos Trilhos: E quando se chega à qualidade de serviço prestado?
À qualidade e também à acessibilidade. Esquecemos do seguinte: quando a classe média se forma num ambiente privatizante, a rede de relações que ela desenvolve ao longo do dia torna-se muito mais complexa. É só você analisar, por exemplo, um casal de classe média com dois filhos e uma empregada doméstica, o tipo de deslocamento que todo mundo precisa fazer todos os dias, é um tipo de deslocamento que só uma rede de transporte público muito ampla e boa consegue atender e nós não temos isso. Então, para a classe média fazer o que ela necessita, precisa de uma ajuda tecnológica do transporte que se chama automóvel. Não tem alternativa, quer dizer, a classe média não compra mais automóvel por símbolo de status, isso para mim é coisa do passado, o principal motivo é porque ela percebe que o automóvel é o que chamamos em sociologia de instrumento de reprodução social. A classe média não vai lhe falar isso se você perguntar, mas ela já fez essa conta na cabeça, já sacou que para levar o filho na escola de inglês, a mulher ir trabalh
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