Cléber de Oliveira
Ao passar pela estação, ali ao lado da rodoviária, na cidade branca, meu pensamento viaja e me leva a um tempo um pouco distante, mas bem perto das minhas lembranças da infância, da adolescência e da fase adulta, quando entrava no trem em Corumbá e viaja pelo Pantanal até chegar a Campo Grande.
Os vagões bem limpos, as cabines com aqueles cobertores tipo bicicleta e a companhia dos amigos, das minhas irmãs, e dos meus pais. Lembranças de um tempo que não volta mais. Não vou aqui ser saudosista, apenas ao me referir ás viagens no trem da Noroeste, quero registrar minha tristeza pela falta de comprometimento do povo com sua própria história, e ai me incluo, sobretudo da falta de vontade política dos governantes em colocar o trem nos trilhos e resgatar um pouco da memória do estado.
O trem descarrilou, saiu dos trilhos e desceu o barranco da desmemoriada sociedade, que deixou acabar um patrimônio, como se fosse uma folha de papel queimada pelo fogo. Dos tempos em que os estudantes chegavam a Campo Grande, ávidos por entrar no trem para chegar logo a Corumbá, muito tempo se passou e talvez nem todos se lembrem daquela época, mas a memória de um povo, todos sabem, é o seu maior legado e é isso que acabou quando as locomotivas foram desativadas e deixaram de puxar os vagões pelos trilhos que cortavam o Pantanal.
As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.
Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.
Os vagões foram empurrados para fora dos trilhos, porque faltou manutenção, e se essa foi a causa, foi porque faltou comprometimento, responsabilidade e respeito à coisa pública, trazendo na esteira do pouco caso, a depredação de uma pioneira história. Além disso, acreditava-se, que pelo sistema rodoviário o estado entraria definitivamente na modernidade e os governos, pressionados pela esperteza dos empresários, ou movidos por outros interesses foram investindo em estradas, pois é certo que delas até hoje, sai o que não se tirava nos trilhos.
Assim, foi-se esvaindo a história e a memória, e Mato Grosso antes de ser dividido, ficou com as carcaças, que hoje encostadas nas antigas estações, servem de espelho para a falta de respeito. Ao estado irmão, tanto fazia que tivesse trem nos trilhos, e Mato Grosso do Sul, mal direcionado, não conseguir resgatar seu símbolo desbravador, para perpetuar sua rica história de desenvolvimento.
Hoje, jazem vagões apodrecidos em diversas estações fantasmas, que andaram cambaleando na tímida tentativa política de fazer andar o trem com o pomposo nome de “Trem do Pantanal”, que patina na mesma falta de planejamento e de comprometimento, da mesma história. A cidadania deixou de ser importante, a memória, vai ficando num canto, esquecida, desvalorizada, dando lugar ao progresso que não admite passado.
Quando alguém que nasceu no pós-trem perguntar se um dia existiu cortando o vento pantaneiro uma locomotiva a puxar vagões pelos trilhos, podemos dizer que foi só um sonho, um lampejo de memória de um estado que não preserva suas raízes e vai deixando de lado seu patrimônio cultural e histórico, porque simplesmente não há espaço para saudosismo, para lembranças eternas, afinal, temos que andar pra frente, de ônibus, de carro e de avião, isso se para nós corumbaenses, os aviões de verdade voltarem a cruzar nosso céu, porque também anda difícil de acreditar que isso seja realidade. No futuro alguém pode perguntar se existiu entre nós, trem e avião, e nós poderemos responder, foi só um sonho, um lampejo de memória.
Seja o primeiro a comentar