Uma hora em marcha lenta para atravessar a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, um trajeto que tem a extensão de apenas 3,2 quilômetros. Foi esse o tempo que Tânia Belfaro, uma das 40 mil motoristas que passam diariamente pela via, gastou para ir da Rua Francisco Otaviano à Avenida Princesa Isabel na manhã do último dia 29. No caminho, nenhum acidente, obra ou interdição que explicasse o congestionamento.
O engarrafamento que Tânia enfrentou por volta das 10h não foi causado por um fenômeno atípico. Apesar de o bairro ser o mais bem servido pelo Metrô na cidade — são três estações — , o trânsito na Avenida Nossa Senhora de Copacabana se converteu em um dos mais problemáticos da Zona Sul. Excesso de ônibus e de táxis, sem contar com vans e Kombis, e quase um sinal a cada cem metros são parcelas de uma soma que resulta no caos. E que parece estar longe do fim. A única cartada do prefeito Cesar Maia que poderia trazer melhorias para a via — a licitação da linhas de ônibus, acompanhada da redução da frota — foi inviabilizada por uma liminar judicial.
Em apenas dez minutos, 67 ônibus na pista
Ônibus demais para passageiros de menos. Equipes do GLOBO-Zona Sul contaram que, na última quarta-feira, por volta das 11h, 67 ônibus passaram pela esquina da avenida com a Rua Sá Ferreira durante o intervalo de dez minutos. Todos relativamente vazios. Para o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, a falta de ordem do transporte viário é a causa principal dos congestionamentos: — Tem que reduzir e reorganizar as linhas. Há vários ônibus que fazem trajetos semelhantes.
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Hoje, segundo a Secretaria municipal de Transportes, em torno de 7,5 mil ônibus circulam no Rio de Janeiro. Destes, 1.007 (cerca de 14,4%) têm a Avenida Nossa Senhora de Copacabana como itinerário. — Esta quantidade de ônibus é desnecessária. E, para piorar, não há comunicação entre os transportes modais. Há três estações do Metrô em Copacabana e os engarrafamentos só se agravam. Não há mais hora do rush na avenida; é congestionamento o dia todo — reclama Magalhães Como se não bastasse o problema do sistema de transporte, a via ainda é campeã em irregularidades de trânsito no bairro. Segundo dados da Guarda Municipal, de janeiro a julho deste ano foram registradas 2.843 multas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sendo 1.102 por estacionamento em local e horários proibidos, 357 por avanço de sinal e 227 por uso de celular ao volante. Em seguida aparecem a Avenida Atlântica, com 2.319 multas, e a Rua Barata Ribeiro, com 1.105 infrações no mesmo período.
As estatísticas também mostram que a cada cinco multas registradas no bairro, uma acontece na avenida. Para o engenheiro de transportes Fernando MacDowell, os números são um reflexo do caos que o trânsito gera na região. — Como não há planejamento no tráfego nem no sistema de transportes, as pessoas são levadas a cometer infrações — diz ele. Para amenizar a situação, uma equipe formada por oito fiscais atua diariamente, das 6h30m às 18h, em oito cruzamentos da avenida: Siqueira Campos, Figueire do Magalhães, Constante Ramos, Prado Júnior, Bolívar, Miguel Lemos, Santa Clara e Princesa Isabel. Depois desse horário, as ações se concentram na Rua Barata Ribeiro, onde o fluxo de veículos Centro-Zona Sul aumenta.
— O problema do trânsito em Copacabana é histórico. Há excesso de linhas de ônibus, que se acumulam nos pontos e quase sempre passam vazios. É preciso diminuir os intervalos dos trens do Metrô e reformular o sistema rodoviário, com base em estudos complexos de viabilidade — afirma MacDowell.
Estudos que, segundo o especialista, não foram feitos para o lançamento do edital de licitação de 93 das 420 linhas de ônibus do Rio, anunciado pela prefeitura e inviabilizado recentemente pela Justiça. O prefeito Cesar Maia defende a licitação como foi feita: — É uma solução e vamos continuar defendendo nossa decisão de licitar. Também reduzimos os caminhões e, embora alguns tenham conseguido liminares, vamos continuar agindo. Especialmente atuando no controle de carga e descarga nos horários de fluxo.
Avenida sempre foi símbolo de ocupação e movimento
Reconhecida pelo decreto municipal 6.488, de 26 de junho de 1939, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana sempre foi símbolo de grande movimento e densidade populacional. No fim do século XIX, quando o traçado do bairro começou a ser definido pelos grupos imobiliários, a via ganhou linhas de bonde e teve a ocupação incentivada pelo prefeito Pereira Passos, que liberou a construção de casas e edifícios para evitar o surgimento de cortiços e moradias rudimentares. Ainda nessa época, a avenida recebeu rede de esgoto e de coleta de águas pluviais. O resultado dos investimentos veio à tona em 1906, quando um recenseamento realizado por Passos já apontava para a existência de 133 prédios no local, ocupados por 1.107 moradores.
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