O representante comercial Wellington Roberto Martins e sua mulher, Clarice, resolveram passar o fim de semana no Espírito Santo. Poderiam pegar um vôo rápido de São Paulo para Vitória. Mas preferiram gastar um dia e meio para chegar ao litoral capixaba só para viver a experiência inédita de fazer uma viagem de trem no Brasil.
O casal embarcou em Congonhas e foi a Belo Horizonte. Após pernoitar na capital mineira, partiu numa viagem de 13 horas até Vitória, no trem da Estrada de Ferro Vitória-Minas – único trem de passageiros do país que liga dois Estados em operação regular, com freqüência diária. São 664 quilômetros de trilhos, velocidade média de 51 quilômetros por hora.
A Estrada de Ferro é operada pela Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), que a utiliza para levar minério de ferro das jazidas, em Minas Gerais, para o porto, no Espírito Santo. De acordo com a companhia, na alta temporada (período de férias escolares), a ocupação chega a 100%. Na baixa, a ocupação média é de 75% dos assentos, um fluxo de 3 mil passageiros por dia. Para quem viaja na Vitória-Minas, é difícil acreditar nas estatísticas. Passageiros como Wellington e Clarice, interessados nas belezas naturais entre as 30 estações por onde passa o comboio, são mais que raridade.
Dos quatro vagões executivos, apenas o número um tinha ocupação perto de 75% no dia 2 de agosto, quando a reportagem fez a viagem de Belo Horizonte até Vitória. No vagão dois, a ocupação não passava de 25%. O três era ocupado por apenas cinco passageiros. E o vagão quatro nem chegou a ser aberto. Boa parte dos passageiros eram funcionários da própria Vale, que ganham passes gratuitos para utilizar o serviço. Nos 12 vagões da classe econômica, o quadro era parecido. Mesmo no trecho de maior movimento, na região metropolitana de Belo Horizonte, poucos vagões tinham muitos passageiros.
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A tarifa de Belo Horizonte a Vitória custa R$ 60 na classe executiva e R$ 39 na econômica. A passagem mais barata de ônibus custa R$ 67,73, mas a viagem dura quatro horas a menos.
Mesmo nos vagões executivos, falta conforto no trem. As poltronas antigas comprovam que a prioridade da linha não é o transporte de passageiros, enquanto o serviço de bordo, explorado por uma concessionária, deixa muito a desejar. Uma visita ao vagão-restaurante não lembra em nada a atmosfera charmosa retratada em filmes estrangeiros.
A Vale do Rio Doce não revelou a receita com o transporte de passageiros. Questionada, informou apenas que é suficiente para pagar os custos do serviço, como a contratação de funcionários. O que não significa dizer que o transporte de passageiros é auto-sustentável. Nos custos do serviço, a Vale não inclui despesas pesadas como a manutenção da malha ferroviária. Se não fosse pelo transporte de carga – finalidade que interessa à Vale – o transporte de passageiros seria completamente inviável.
“A viagem tem menos glamour do que eu imaginava”, concluiu o representante comercial de São Paulo. Até as paisagens o decepcionaram, ficou desolado com a poluição no Rio Doce. “Não é um passeio que eu recomendaria aos amigos”. Wellington Martins, que resolveu se aventurar no trem depois de ler uma nostálgica reportagem sobre o transporte ferroviário, esperava um “gosto de coisa antiga” que não encontrou na viagem.
Antiga, a Estrada de Ferro Vitória-Minas de fato é. Está em operação desde 1903, ligando Itabira – onde está grande parte da produção de minério da Vale – e Vitória. Só em 1992, o trecho foi ampliado até a capital. Mas faltam apelos históricos que justifiquem a viagem como roteiro turístico. “Estou é acabada”, resumiu Clarice. Ao contrário do marido, ela não tinha expectativas positivas e compreendeu quando a filha Alana, de 17 anos, se recusou a acompanhar os pais na viagem de trem. “Já imaginava que seria muito diferente dos trens que se vê na Europa.”
Apesar da falta de conforto e da velocidade baixa na Estrada de Ferro Vi
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