Técnicos do Metrô prepararam um relatório no qual desqualificam as conclusões do laudo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) – que custou R$ 6,55 milhões, pagos pela companhia – sobre a cratera da linha 4-amarela, que deixou sete mortos em janeiro de 2007.
O documento diz que o trabalho do IPT tem “inconsistências”, “afirmações errôneas” e “imputa falsas premissas”, estando “distante da realidade”. O texto, ao qual a Folha teve acesso, busca resumir as análises do grupo de trabalho 138/08, instituído pelo presidente em exercício do Metrô, José Jorge Fagalli, em 6 de junho.
Ele chega a questionar a capacidade do instituto – diz que o IPT “desconhece procedimentos” e não tem experiência para buscar “obter dados sobre o andamento dos serviços, aspectos contratuais ou forma de atuação no dia-a-dia do gerenciamento de uma obra”.
A importância do IPT, contratado para investigar as causas do acidente, sempre foi exaltada pelo governo José Serra (PSDB). Em janeiro de 2007, em nota, o Metrô dizia que, além da “ilibada reputação”, o instituto tinha “total independência e credibilidade”.
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No mesmo mês, o secretário dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, questionado sobre a confiança nos contratos da linha 4 firmados pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB), disse: “Vou estar seguro depois do laudo do IPT”. Ontem, em nota, o Metrô informou que o grupo de trabalho ainda “não encerrou” os estudos e que o relatório não reflete sua opinião nem a posição institucional da companhia.
A Folha apurou que a direção do Metrô decidiu avaliar o relatório como uma minuta e que quer mudá-lo. O seu teor reflete uma disputa interna desde a divulgação do laudo do IPT, que motivou discussões ásperas entre membros do alto escalão nas últimas semanas.
A investigação do instituto apontou 11 fatores contribuintes para a tragédia, a maioria por falhas do Consórcio Via Amarela – como a não-colocação de tirantes para a sustentação do túnel, mesmo depois de sinais de alerta do colapso.
O IPT também responsabilizou a fiscalização deficiente do Metrô. Essa é a principal razão da crise interna. No governo Serra, há setores que criticam os trabalhos na gestão Alckmin e defendem punições. Outros não vêem sustentação técnica para isso, temem direcionamento e se dizem pressionados até por razões políticas.
O relatório que ataca o trabalho do IPT está mais perto do que pensa o segundo grupo. O texto diz que, no laudo, não há evidência de responsabilidade “direta ou indireta” de qualquer funcionário do Metrô.
Ele afirma, por exemplo, que, “ao contrário” das conclusões do IPT, o Metrô preparou um plano para a fiscalização da obra e inclusive o apresentou num congresso em 2003.
Diz que o instituto “desprezou no seu relatório” a atuação das equipes de fiscalização. Afirma que a velocidade de escavação da obra estava aquém do liberado no projeto -para contrapor a tese de aceleração.
O texto diz que o IPT comete “um erro gravíssimo” em relação ao grupo de gerenciamento ambiental – que teria a função de monitorar projetos ambientais, e não a situação do solo.
Metrô diz que grupo ainda não concluiu estudos e que texto não é sua opinião
O Metrô afirma que o relatório obtido pela Folha não corresponde à conclusão do trabalho do grupo que analisa o laudo do IPT sobre as causas da cratera da linha 4-amarela. Em nota, a estatal diz que, “neste momento, informações acerca deste assunto são opiniões pessoais, mesmo quando expressas por escrito, não sendo a posição oficial do Metrô”.
Na nota, o Metrô diz que “confia na lisura e competência do trabalho de investigação desenvolvido pelo IPT, que é um conceituado órgão de pesquisas em tecnologia”. Questionado, o Metrô não respondeu sobre a possibilidade de interferência da direção da estatal no relatório. A Folha apurou que membros do alto escalão estiveram reunidos para discutir alterações no texto.
O IPT disse, por meio de sua assessoria de imprensa, desconhecer a existência do relatório e que, por isso, não faria comentários. O Consórcio Via Amarela informou que não se manifestaria, por ser um assunto interno do Metrô.
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