O Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo concluiu ontem o laudo oficial sobre o acidente na futura Estação Pinheiros da Companhia do Metropolitano (Metrô). O jornal O Estado de S. Paulo apurou que 80% do documento vai referendar as conclusões do relatório entregue em junho pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que apontava erros na execução da obra e falhas no processo de fiscalização. Os outros 20% devem contemplar aspectos técnicos abordados nos dois laudos – apresentados em março e julho deste ano – pelo Consórcio Via Amarela, além de observações e comentários dos próprios peritos do IC.
Antes de ser anexado ao inquérito policial que apura as causas da tragédia, o laudo produzido pelo Núcleo de Engenharia do IC será levado à cúpula da Segurança Pública de São Paulo – o que deve ocorrer entre hoje e amanhã. Com o laudo oficial em mãos, a Polícia Civil e o Ministério Público Estadual terão condições de apontar eventuais responsáveis pelo acidente que deixou sete mortos em janeiro de 2007. Devem ser denunciados à Justiça (acusados formalmente) tanto funcionários do consórcio quanto do Metrô. Ainda não há prazo para que o inquérito seja finalizado. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Consórcio transferiu técnicos da cratera
O principal desafio da comissão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) durante a apuração das causas do acidente na Estação Pinheiros da Linha 4 – Amarela do Metrô foi conseguir ouvir os principais envolvidos na obra, pois o Consórcio Via Amarela transferiu algumas dessas pessoas para outros locais, logo após o desabamento. Outra dificuldade foi confirmar a veracidade de alguns depoimentos. Em entrevista ao Estado e à revista eletrônica e-ABMS, da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), o engenheiro André Assis, integrante da comissão, revelou bastidores da investigação do acidente que matou sete pessoas em janeiro de 2007, contou que o projeto original não foi seguido pelo construtor, Consórcio Via Amarela, que o plano de emergência para evacuação da obra não estava bem treinado e não foi executado à risca, que o Metrô não fiscalizou os trabalhos como deveria e que o contrato utilizado, turn-key, não é adequado para esse tipo de obra subterrânea de infra-estrutura por causa de riscos geológicos. Leia os principais trechos da entrevista:
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Consultores – “Houve reação negativa à presença de estrangeiros na Comissão. O Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) chegou a exigir que eles tivessem diploma reconhecido e registrado no Brasil. Por causa dessas restrições, os consultores internacionais tiveram de trabalhar em seus países, com a documentação que a Comissão lhes enviava. ”
Dificuldades – “O Consórcio transferiu rapidamente, para outras obras, as pessoas que estavam, de algum modo, envolvidas com a Estação Pinheiros. Não acho que isso seja errado. A transferência de pessoal foi uma estratégia do consórcio para dificultar as investigações. Falar com as outras pessoas foi muito complicado. Ou elas não compareciam ou o conteúdo dos depoimentos era questionável. Pela lei, as pessoas podem omitir informações ou não falar a verdade para não gerar provas contra si.”
Traçado da Linha 4 – “Quem decide o local de um túnel urbano não é a geologia, é a demanda. A linha do metrô tem de passar onde há demanda por transporte público. Não adianta construir uma estação 500 metros antes ou 500 metros depois do local de concentração da demanda. Não temos que discutir se a linha está no melhor lugar ou não. Fica para a engenharia a responsabilidade de encontrar a solução técnica mais adequada.”
Erros do Metrô – “O Metrô teve três falhas contratuais fortes. Uma delas foi essa, o atraso no pagamento de indenizações e na conseqüente liberação de terrenos que seriam utilizados como canteiros de obras. A outra foi alterar o contrato logo de início, com a inclusão de uma nova estação que não estava prevista no projeto licitado.”
Fiscalização falha – “O Metrô ficou sempre numa posição muito hesitante. Diante dessa nova modalidade contratual (turn-key), a companhia não sabia se de fato podia controlar a obra. Ou se, caso o fizesse, iria interferir na responsabilidade do empreendedor. Essa hesitação quanto ao papel que deveria exercer deixou a equipe do Metrô meio perdida. Conversando com as diversas pessoas da companhia envolvidas com a obra, não foi possível identificar muito bem o papel de cada uma dentro das responsabilidades contratuais.”
Desvios de projeto – “Quando os técnicos detectaram rachaduras no túnel, era preciso interromper a obra. Os instrumentos mostraram que alguma coisa diferente estava acontecendo. O projeto não foi seguido à risca. Era preciso executar as escavações com certo cuidado, com certo distanciamento das paredes dos túneis. Isso não aconteceu.”
Plano de emergência falho – “O que chamou muito a atenção nesse acidente, desde o início, foi que as vítimas foram, todas, transeuntes. Mesmo o operário que morreu estava dentro de uma área de onde seus companheiros já haviam sido evacuados. Os outros todos estavam passando numa rua depois que sinais de alerta já tinham sido dados. Mesmo assim, o tráfego da rua não foi fechado. Alguma coisa falhou na parte de gestão da obra no que se refere às ações de emergência.”
Via Amarela diz que ajudou as investigações
O Consórcio Via Amarela, responsável pela construção da Linha 4 do Metrô, informou por meio de nota enviada pela sua Assessoria de Imprensa que “não mediu esforços em colaborar com processo investigatório e que se empenhou de todas as maneiras possíveis e em todos os estágios das investigações para o esclarecimento dos fatos”. Com relação ao relatório do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), do qual participou o professor Andre Assis, a nota diz que “as contestações do consórcio resultaram em um documento de mais de 300 páginas e um vídeo com mais de 20 minutos, já entregues às autoridades e à imprensa, que comprovam vários e graves equívocos produzidos pelo IPT.”
O Metrô informou que não vai comentar opiniões de terceiros a respeito do inquérito que está sendo conduzido pelo Ministério Público Estadual, sobre o acidente ocorrido na obra da Estação Pinheiros, embora o IPT tenha sido contratado pelo próprio governo do Estado para fazer o laudo sobre as causas do acidente.
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