33ª Edição · Prêmio Revista Ferroviária
Vote no Prêmio RF 2026!
Faça parte do Colégio Eleitoral
Clique e Cadastre-se
revistaferroviaria.com.br

O Globo entrevista José Alquéres, da Light

Uma empresa distribuidora de energia que fala sobre economizar energia? Nada é mais contundente como prova de que a sustentabilidade não é uma mera expressão. José Luiz Alquéres, presidente da Light, explica com clareza que seu negócio hoje não é vender energia, mas o uso racional dela. Até porque, se não for usado corretamente, seu principal produto de negócio vai faltar, garante ele, tirando da memória números assustadores para provar que o consumo de energia no Brasil, mesmo menor do que em outros países, tem ultrapassado qualquer barreira racional: quando começou a trabalhar, há 45 anos, o Brasil tinha cinco mil MW instalados. Hoje, tem cem mil MW. Uma das soluções viáveis a curto prazo, acredita Alquéres, é o uso de veículos elétricos não só para uso pessoal como para transporte urbano.


O GLOBO: Embora não faça parte do escopo da Light, a empresa tem interesse em se preparar para o mercado dos veículos movidos a eletricidade. Por quê?


JOSÉ LUIZ ALQUÉRES: A Light tem esse histórico. Ela chegou aqui no Brasil a partir da tração elétrica, pegando as concessões de transporte urbano, substituindo o bonde puxado por burro, pelo bonde elétrico. Depois ela teve também participação nos ônibus, nos telefones, uma série de outras atividades econômicas ligadas à eletricidade. E precisou construir usinas hidrelétricas para suprir essa demanda toda. Foi o grande momento do transporte elétrico suburbano, nos bons tempos em que a Central do Brasil chegou a transportar 1 milhão e 200 mil passageiros nas suas linhas. Hoje, a Central transporta 400 mil pessoas por dia e o metrô 600 mil: repare que esses dois números somados ainda não atingem o número da antiga Central.


O GLOBO: O transporte urbano hoje tem outra estrutura. Qual a diferença?

As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.

Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.

Assinar agora

ALQUÉRES: Toda a rede de transporte passou a ser encarada com uma rede multimodal, em que os diferentes tipos de transporte contribuem para se integrar. Linhas de van transportam passageiros para as estações de metrô e, com isso, grandes fluxos de trânsito são assegurados. Por outro lado, as pessoas não moram só numa cidade. Hoje em dia, os deslocamentos interurbanos são importantes. As pessoas podem morar em Nova Iguaçu e trabalhar no Rio, mas levam duas horas e meia no transporte, um absurdo!


O GLOBO: É para resolver este tipo de problema que entram os veículos elétricos?


ALQUÉRES: Se tiver um veículo com uma via destacada sobre trilhos — seja um metrô, seja um transporte elétrico de superfície, ou sejam mesmo as novas soluções de veículos leves sobre trilho — este deslocamento pode levar muito pouco tempo. O transporte elétrico é um imperativo para trazer e levar pessoas dos grandes centros. E dentro dos grandes centros é possível também ter o bonde moderno, que é o que chamam de Veículo Leve sobre Trilhos, e o veículo leve que não precisa de trilhos, mas que tem aqueles fios no alto. Ou ainda os ônibus híbridos, com um motor tradicional e uma bateria — é uma coisa que dá uma enorme contribuição para a melhoria da qualidade de vida.


O GLOBO: Isso contribui também para a sustentabilidade do planeta, segundo os especialistas…


ALQUÉRES: Se você levar em conta que 40% do consumo global de energia são gastos pelo setor de transporte, uma orientação neste sentido é algo de grande interesse ambiental, sem dúvida. Além do fato de que todas as tecnologias já são dominadas ou são passíveis de serem dominadas. Em 5 ou 6 anos vamos estar vivendo uma profunda alteração na matriz de utilização de combustíveis para efeito de transporte.


O GLOBO: Mas os ônibus elétricos são mais caros, a população vai sentir…


ALQUÉRES: É claro que é mais caro, mas hoje a população tem que escolher. Ela paga um preço enorme em congestionamentos, doenças respiratórias, irritação, perda de tempo. Com os veículos elétricos as viagens levarão menos tempo, haverá menor pressão sobre os serviços médicos. É a mesma coisa que perguntar: vacina gasta mais dinheiro? É, se não vacinar você não gasta o dinheiro da vacina, mas há o risco das doenças. O ônibus elétrico é mais caro, mas não é para competir com o outro.


O GLOBO: Houve uma época em que o Rio tinha ônibus elétricos e houve competição…


ALQUÉRES: É, porque tinha que botar a rede na rua, e este serviço teve que ser público porque senão seria muita invasão. Então ficou o ônibus público competindo com os privados. O elétrico andava mais devagar porque o outro não o deixava andar. Tem que ter corredores seletivos.


O GLOBO: Como a Light entra em tudo isso?


ALQUÉRES: O que a Light gostaria é que o Rio de Janeiro fosse o primeiro “Estado Verde” no que diz respeito à utilização de transportes. Então, nós estamos estudando aqui dentro da empresa localizações para parques onde carros a bateria possam ficar na cidade para serem carregados. Estamos estudando também a criação de motonetas. E criamos na Associação Comercial uma espécie de grupo de trabalho que estuda a adoção desses ônibus elétricos. E estudamos ainda criar experimentalmente um veículo elétrico de interesse turístico até, que sairia da Praça XV e viesse até a Central pela Rua Marechal Floriano. Neste percurso existem cerca de 20 grandes atrações turísticas, e esse veículo contaria também para transportar as cerca de 150 mil pessoas por dia que andam da Central à Praça XV.


O GLOBO: Pelo que se vê, o senhor realmente pensou em tudo. Então, o que falta para concretizar este projeto?


ALQUÉRES: Precisamos do Estado e do Município na articulação dos seus sistemas de transportes, porque nós estamos dando o apoio técnico. Tanto o secretário municipal como o estadual de transportes são favoráveis. É que o assunto é muito complexo mesmo, mexe com concessões de ônibus, com mudanças urbanísticas.


O GLOBO: Parece que a questão maior seria com a concessão dos ônibus, não?


ALQUÉRES: Nós nos proporíamos a pensar até mesmo em ter uma concessão para a Light, mas este não é o problema. O problema realmente é ter um plano de transporte que contemple isso. Nós tivemos uma informação de que o urbanista Jaime Lerner (que já foi duas vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná) estaria estudando algo no gênero. Ainda não tivemos contato com ele, gostaríamos até de trabalhar o tema, porque acho que o Rio tem todas as condições e necessidade de ter um sistema de transporte que eleja os veículos elétricos.


O GLOBO: Esta é uma forma de se criar uma cidade sustentável?


JOSÉ LUIZ ALQUÉRES: É isso mesmo o que importa, é nisso que pensamos e é nisso que todos precisam pensar: em criar uma cidade sustentável. O principal impacto sobre o meio ambiente decorre da utilização de energia, é ela que provoca emissões que podem comprometer o meio ambiente. E a exploração dos energéticos — carvão, petróleo, floresta são os que têm mais impacto. Sendo assim, a cidade sustentável é a cidade que administra bem a sua questão de energia. E cerca de 50% do total de energia do mundo são gastos nas edificações. Olhe em volta (estávamos no escritório central da Light, no Rio), veja aqui a quantidade de lâmpadas (todas econômicas), mais o ar condicionado, mais o elevador e multiplica isso. No mundo, metade da energia vai para conforto e iluminação dentro de edifícios de uso residencial, comercial ou industrial. E eu estou excluindo os processos industriais, porque não estou falando da energia da máquina de papel. Eu falo da energia do prédio que abriga a fábrica. Como já falei no início, 25% a 30% da energia vão para o transporte. Se 50% vão para as edificações… trabalhando nesses dois vetores, nós vamos resolver grande parte do impacto sobre o meio ambiente numa cidade.


O GLOBO: Como resolver a questão das edificações?


ALQUÉRES: Aí o campo é muito grande, e a Light vem atuando em programas de eficiência energética. Não é preciso que as pessoas abram mão do conforto, mas é possível ter maior resp

Fonte: O Globo

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*