A Ferrovia do Vale Silício

A despeito da recente crise econômica, a economia da Califórnia ainda é extraordinariamente forte. Se o estado fosse um país independente, ele estaria entre as 10 maiores economias do mundo, à frente da Itália e França. Em termos de dimensões, ele seria o 59º e, com uma população aproximando-se de 40 milhões, ele seria o 35º com relação ao número de habitantes. O estado tem algumas das maiores cidades do mundo, universidades de nível internacional e, é claro, o Vale do Silício, lar de muitas das maiores e mais famosas corporações de alta tecnologia dos EUA. Uma coisa que ele não tem é um sistema de transporte público que países de dimensões similares certamente já possuem.


As viagens de carro são a regra para o deslocamento entre as cidades (que são vastas de acordo com os padrões europeus), apesar de os trens de subúrbio já existirem em muitas cidades, operados por diferentes empresas. Na área do Vale do Silício, os serviços de trens de subúrbio movidos a diesel são operados pela Caltrain. Para o deslocamento da área de Los Angeles no sul do estado até o Vale do Silício no centro, a maioria das pessoas prefere o transporte aéreo.


Entretanto, as viagens aéreas estão sob pressão. Os incidentes recentes de terrorismo têm forçado as companhias aéreas americanas e as operadoras de aeroportos a reforçarem as medidas de segurança, aumentando de forma considerável o tempo gasto no procedimento de check-in. Agora é comum que os passageiros em vôos domésticos passem mais tempo no aeroporto do que voando. Normalmente, os aeroportos se localizam a alguma distância fora das cidades que eles servem, de modo que os viajantes gastam mais uma vez um tempo no deslocamento para o aeroporto e até seu destino final.


Uma moderna ferrovia de alta velocidade (HSR) ligando San Diego, no sul, a San Francisco e Sacramento, no norte, é a resposta óbvia, e o governo estadual vem incentivando a idéia desde a metade dos anos 90. A California High-Speed Rail Authority foi estabelecida em 1996 para examinar as alternativas possíveis e promover a criação dessa linha.


O trabalho inicial de convencimento do público e obtenção de apoio das empresas, e a decisão sobre a rota aproximada foram bancados por recursos estaduais e municipais, porém, em janeiro desse ano, o Presidente Barack Obama concedeu uma verba de estímulo ao projeto no montante de $2,25 bilhões, que deverá garantir sua continuidade.


Trilhos no caminho


“Uma ferrovia moderna de alta velocidade ligando San Diego, no sul, a San Francisco e Sacramento, no norte, é a resposta óbvia.” O termo ‘Vale do Silício’ é utilizado com frequência para indicar todo o setor de alta tecnologia nos EUA, porém, nesse caso a geografia é importante. O vale em questão se localiza na extremidade sul da baía de San Francisco, estendendo-se até a região sul da cidade de San Jose, e aproximadamente a meio caminho das praias da baía. O ramo de San Francisco da HSR passará por San Jose, Palo Alto, e servirá o aeroporto de San Francisco.


Espera-se que o lado leste da baía seja servido por outro projeto, o da Linha Férrea do Corredor de Altamont, que se estenderá a partir da HSR em San Jose e passará através de vários centros importantes do Vale do Silício antes de derivar para o norte e encontrar o ramo oeste (Sacramento) da HSR em Stockton.


As empresas do Vale do Silício são vitais para a economia da Califórnia e juntas têm um poder político considerável. Em 1977, David Packard, cofundador da Hewlett-Packard, fundou o Grupo de Liderança do Vale do Silício (SVLG). Atualmente, ele agrega mais de 200 empresas-membros. Coletivamente, seus membros empregam mais de 250.000 pessoas no Vale, um quarto de toda a força de trabalho do setor privado na região. Essas empresas geram mais de $1 trilhão em valor de negócios, o que representa aproximadamente oito vezes o orçamento de todo o estado da Califórnia e uma contribuição significativa para os tesouros dos governos estadual e federal, juntamente com elevados impostos prediais e territoriais pagos aos governos municipais.


O SVLG vem oferecendo há muito tempo um apoio financeiro ao HSR, no mínimo porque um crescimento generalizado nas atividades econômicas da área significa mais gente com dinheiro para gastar em equipamentos de alta tecnologia. A autoridade de transporte ferroviário acredita que os projetos do HSR proporcionarão 130.000 postos de trabalho no início da construção e, aproximadamente, 600.000 postos de trabalho mediante construção a longo prazo, além de 450.000 empregos permanentes. Combinadas às novas oportunidades de desenvolvimento em torno das estações para escritórios, residências e comunidades da vizinhança, estas atividades econômicas foram recebidas como as boas-novas para todos os vendedores de produtos eletrônicos.


Qualquer sistema de transporte moderno depende em grande escala das tecnologias de informação, o que mais uma vez traz boas notícias às empresas membros do SVLG. As vendas de bilhetes, os sistemas de informações nas estações, informações a bordo dos trens, sistemas de controle e back office trabalham todos na dependência de terminais e telas de computadores. A maioria desses componentes de hardware é fabricada atualmente na Ásia, porém, os postos de trabalho em projeto, desenvolvimento de software, marketing e vendas continuam no Vale.


“Os tempos de percurso do HSR serão muito competitivos com as viagens de avião, especialmente se considerarmos o tempo despendido para passar pelos procedimentos de segurança nos aeroportos. Bena Chang, associado sênior de Transportes e Habitação no SVLG, explica a importância do projeto HSR para as viagens a serviço na região: “Os tempos de percurso do HSR serão muito competitivos com as viagens de avião, especialmente se considerarmos o tempo despendido para passar pelos procedimentos de segurança nos aeroportos e o fato de que a maioria de nossos aeroportos localiza-se fora do centro da cidade. O HSR permite uma conexão rápida e ecológica entre os centros das cidades, em duas horas e quarenta minutos de San Francisco a Los Angeles.”


Chang também aponta vantagens aos trabalhadores durante o trajeto para o serviço, pois o esquema do HSR utilizará parte do corredor do Caltrain na península de San Francisco, trazendo melhorias em termos de eletrificação e via férrea que deverão proporcionar um serviço de transporte mais rápido e confiável entre casa e trabalho.


Estrangeiras e locais


No momento, ainda não está muito claro como, e em qual extensão, as empresas do Vale do Silício estarão diretamente envolvidas nos projetos do HSR. A porta-voz da California High-Speed Rail Authority, Kris Deutschman, afirma que ainda há um longo caminho a percorrer para a concessão de novos contratos, e ainda não se decidiu quais tipos de contratos serão oferecidos.


As opções são: um único contrato de ‘Projeto, Construção, Operação’, no qual uma empresa (ou mais provavelmente um consórcio de empresas especializadas) projeta e constrói o sistema e, em seguida, recebe a permissão para operá-lo durante um prazo fixo; ou uma série de contratos individuais para o projeto da via, das estações, dos sistemas de alimentação elétrica e controle, além de contratos adicionais para os trabalhos de engenharia, obras de construção e assim por diante. Finalmente, haveria um contrato para operação da linha.


Deutschman comenta que uma decisão como essa não será tomada até que todas as avaliações de impacto ambiental estejam concluídas e uma rota definitiva esteja traçada. Ela afirma que nenhuma empresa se interessaria em assumir um importante projeto como esse nos EUA antes de todas as questões ambientais serem resolvidas, pois este é um investimento de muito risco.


Porém, mesmo nesse estágio precoce, está muito claro que os EUA não têm a experiência para construir linhas de alta velocidade. Desse modo, as concorrentes provavelme

Fonte: Railway Technology

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