*Adamo Bazani
Lembra da época em que nossas mães achavam que uma pomadinha muito famosa no mercado era a solução para tudo? Frieira, dor de cabeça, depressão, machucado depois de uma pancada– “Pega a pomadinha, meu filho!”.
Com os transportes coletivos, os discursos de candidatos e pré-candidatos eram parecidos. Quer melhorar a mobilidade? Metrô, metrô, metrô, metrô, metrô e somente metrô. Os ônibus e as melhorias nos trens suburbanos? Ganhavam uma linha só. Não davam tanto ibope.
Realmente, “metrô, metrô e metrô” é solução para os problemas de trânsito e transporte em São Paulo ou em outros grandes e médios centros urbanos. Mas ele é somente parte dessa solução. A demanda por transportes é tão reprimida, e cresce a cada dia, que é ingenuidade ou simplificação do problema pensar que, sozinhos, o metrô, o ônibus, o trem, o VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos), o monotrilho ou o teletransporte atenderiam às necessidades de transportes.
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É óbvio? Aparentemente sim! Mas parece que somente agora as autoridades de transportes se deram contam disso. A expansão do metrô é algo de que São Paulo precisa. Mas expandir metrô sem oferecer um serviço que o complete ou que alivie sua lotação parece não ser o mais razoável.
E aí, os críticos de plantão usam palavras-chaves, como as pomadinhas de nossas mães, que acham que explicam tudo. Uma delas é a tal da “sobreposição”. É uma palavra bonita de ser repetida. Dá impressão de que a pessoa que fala entende do assunto.
Realmente, a sobreposição é algo que deve ser evitado, pois concentra custos e oferta de transportes em um só lugar, sendo que outras áreas ficam carentes. Mas oferecer ônibus e metrô ao mesmo tempo em determinadas rotas de São Paulo e cidades vizinhas não é sobreposição, é necessidade.
Agora, o novo presidente do Metrô, Peter Walker, num ato de lucidez, mostra que o metrô não dispensa a necessidade de corredores de ônibus e deixa implícito que somente ônibus também não atendem a tudo. A ideia da criação de corredores expressos de ônibus ligando estações da CPTM e do Metrô com maior demanda vai no sentido do que a mobilidade precisa: diversos tipos de transportes se complementando e não um disputando contra o outro.
Os ônibus serviriam parte da demanda do metrô, evitariam trajetos negativos– nos quais os passageiros precisam ir até um ponto para fazer baldeação e voltar boa parte do destino em outra linha– e agilizariam os deslocamentos, que hoje fazem o cidadão perder parte de suas vidas dentro de carros, vagões ou ônibus.
Os estudos já mostram outro fator positivo: vão se unir CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos –, Metrô, SPTrans (que gerencia os ônibus municipais) e EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (que cuida dos ônibus intermunicipais). Mais vezes esses órgãos deveriam sentar juntos para coordenar os esforços. Os ônibus não fariam paradas e seguiriam de uma estação a outra diretamente.
Algumas ideias de corredores de ônibus são:
– Estação Vila Matilde à Sé: a linha 3 – vermelha – do Metrô é a mais lotada. O total é de quase 1,5 milhão de passageiros;
– Estação da CPTM Santo Amaro, na zona Sul de São Paulo, à Estação Pinheiros, zona oeste, para aliviar a demanda da Linha 9 Esmeralda.
– Cidade de Caieiras à Lapa, na zona oeste de São Paulo: o objetivo é diminuir o excesso de lotação na linha 7 Rubi.
Os estudos atendem a um pedido da Secretaria de Transportes Metropolitanos e devem ser apresentados ao Conselho Diretor de Transportes. SPTrans e Metrô já estudam as alternativas aos pontos mais críticos da linha 3. Peter Walker admitiu que uma parte dos problemas operacionais no metrô ocorre por causa da alta demanda, acima muitas vezes do que o modal deveria atender.
O fato de o metrô contar com o reforço de ônibus e linhas expressas como alternativas não significa demonstrar fraqueza ou que o sistema não funciona ou é insuficiente. Outros críticos de plantão bradam dizendo que o metrô está apelando para o ônibus porque não consegue atender aos seus passageiros. Ônibus não é apelar!
O que para muitos pode ser uma fraqueza, na verdade é um gesto lúcido que demonstra que o metrô sozinho não resolve todos os problemas de mobilidade. È uma das raras vezes em que o presidente da companhia de um modal não fica ferrenhamente defendendo seu meio de transporte e olha para outras opções. É uma lição aprendida a duras penas esta de que os corredores de ônibus não podem ser colocados em segundo plano, como ocorre nos discursos políticos.
A única coisa que a população espera é que os corredores e os ônibus tenham de fato uma qualidade e uma eficiência que realmente convençam as pessoas a tê-los como alternativas ao metrô.
O único fato negativo em relação a isso é que a cidade de São Paulo, ao invés de discutir formas de convencer os motoristas de carro a deixarem seus veículos particulares em casa, tem pensado em como alocar a demanda de um transporte público para outro. Sinal de que ainda há muito a fazer no setor de mobilidade. E não é somente um BRT, somente um metrô, somente um VLT, somente um monotrilho que serão as soluções.
*Adamo Bazani é jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes
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