Vale e sindicatos divergem por demissões

O difícil momento pelo qual passa o mercado de minério de ferro acendeu a preocupação entre sindicatos de trabalhadores sobre demissões na Vale. No Brasil, a mineradora vem enfrentando mobilizações sindicais contra demissões de empregados. O movimento se estende às operações da companhia em Minas Gerais, Espírito Santo, Pará e Maranhão. A Vale disse que não há demissão em massa e que a redução de pessoal faz parte de movimento natural de troca de funcionários, o chamado “turn over”, que está dentro dos padrões históricos da empresa.

A Vale fechou 2014 com 76.531 empregados diretos no Brasil e no exterior, 1.276 pessoas a menos em relação aos 77.807 contratados de 2013. Em 2012, eram 79.411 funcionários diretos. Essa base de comparação exclui, dos anos de 2012 e de 2013, empregados que pertenciam a empresas vendidas pela Vale, como a Valor da Logística Integrada (VLI), entre outras. Só com criação da VLI, deixaram a base funcional da Vale 5.442 empregados em 2013.

Segundo a empresa, historicamente a Vale registra troca de 5% por ano em seu quadro de funcionários. Na indústria de mineração no Brasil, o “turn over” é maior, da ordem de 15%. Estão incluídas nesse conceito pessoas que deixam a empresa porque foram demitidas, se aposentaram ou pediram para sair e podem ser substituídas, em parte, por novos funcionários recrutados no mercado.

No atual cenário da mineração, o que está acontecendo é que cerca de um terço das vagas dos empregados da Vale incluídos no “turn over” de 5% não está sendo reposta. Em 2014, considerando-se o contingente total de mão de obra direto na Vale, de 76.531 trabalhadores, 3,8 mil funcionários foram trocados. E destes cerca de um terço, ou mais de 1,2 mil funcionários, tiveram as vagas encerradas. A empresa tem aproveitado o “turn over” para melhorar a produtividade no ambiente adverso.

A queda nos preços do minério de ferro levou a Vale a ter fortes perdas de receita no seu principal negócio, o de minerais ferrosos. Essa situação levou a companhia a aprofundar a redução de custos. Quando a atual administração da Vale assumiu a empresa, em 2011, o preço da commodity era de US$ 191 por tonelada. Hoje o preço ronda os US$ 50 por tonelada, queda de quase 75%. Analistas e especialistas em recrutamento de pessoal dizem que uma queda dessa magnitude termina, em algum momento, atingindo o corpo funcional, com demissões.

“A gente não sabe onde as demissões vão parar, tememos que a crise se aprofunde”, diz Marcos dos Santos Oliveira, diretor de comunicação do Metabase de Itabira, berço da Vale, no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais. Segundo o sindicato, houve 100 demissões de empregados diretos da Vale neste ano na região. Oliveira disse que foi criado o movimento “Reage Itabira”, reunindo sindicatos e organizações da sociedade civil, que tem feito mobilizações periódicas.

Os sindicatos, nas bases operacionais da Vale no Sudeste e no Norte do país, temem que as demissões aumentem caso os preços do minério de ferro não se recuperem. “A Vale deveria compensar os empregados pela sua contribuição para a lucratividade da empresa nos anos passados com a garantia da empregabilidade neste momento difícil”, disse Lúcio Azevedo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias nos Estados do Maranhão, Pará e Tocantins (Stefem).

Segundo ele, desde janeiro até começo do mês houve 203 demissões de empregados da Vale na área de influência do Stefem. “Ontem [quarta-feira] a Vale oficializou 135 novas demissões”, afirmou. O sindicato bloqueou a entrada de funcionários da Vale na portaria da ferrovia, em São Luís, às 6h30 de notem. Hoje está prevista nova manifestação na entrada do portão do porto da Vale, na capital maranhense. Em Parauapebas (PA), onde estão concentradas as minas de ferro, o Metabase de Carajás contabiliza 110 demissões este ano. “A Vale demite mais do que contrata”, disse Raimundo Amorim, do Metabase de Carajás. Esta semana houve protesto de empregados nas minas de Carajás em uma pauta que inclui pedidos para o fim das demissões e manutenção dos diretos do acordo coletivo. Os sindicatos dizem que poderão fazer manifestação conjunta em frente à sede da Vale, no centro do Rio, em 29 de abril, data que coincide com a reunião do novo conselho de administração da empresa.

No ambiente difícil de mercado, a Vale também vem ampliando políticas na área de recursos humanos que reconhecem os melhores funcionários. A empresa implementou o programa “Carreira e Sucessão” em que os funcionários são avaliados de acordo com a competência e o desempenho. A nova diretora-executiva de metais básicos, Jennifer Maki, e o novo diretor-executivo de ferrosos, Peter Poppinga, galgaram postos, no ano passado, graças aos seus desempenhos dentro dessa matriz de avaliação. Mas há um universo de cerca de 5% dos funcionários cuja performance deixou a desejar em 2014. Eles tornaram-se suscetíveis, como resultado do desempenho, a serem desligados da empresa em algum momento. Até 2013 o programa de avaliação envolvia 18 mil pessoas, incluindo gestores e especialistas. A partir de 2014, 100% dos empregados no Brasil passaram a ser avaliados no programa.

Agora a Vale está tentando recrutar, internamente, 100 funcionários dispostos a trabalhar no S11D, o maior projeto de minério de ferro de sua história, em Canaã dos Carajás (PA). Se não for possível preencher todas as vagas, a empresa pode buscar profissionais no mercado. Esse é um exemplo de como a Vale está estimulando a migração de empregados de grandes centros, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, para as áreas operacionais em Minas Gerais e no Pará, por exemplo.

O problema é quem nem sempre o funcionário está disposto a deixar uma capital, onde tem vida estabelecida, para viver em um município do interior. A negativa de se mudar pode levar a pessoa a ter de deixar a empresa, uma vez que também há gente disposta a “migrar” dos grandes centros. Ainda na política de redução de custos que tem marcado a atual administração, a mineradora cortou o número de escritórios que mantinha no Rio. A empresa tinha escritórios em seis prédios comerciais na cidade e hoje tem apenas em dois.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*