A Vale deverá se transformar na empresa de mineração que vai
gerar mais valor para seus acionistas entre as grandes mineradoras mundiais. A
avaliação é do presidente da companhia, Fabio Schvartsman, para quem o
desempenho estará ligado a quatro pilares: melhoria da governança, a partir da
migração para o Novo Mercado da B3, no dia 22 deste mês; ganhos de performance,
estratégia clara e bem definida e maior cuidado com questões de
sustentabilidade. Na presidência da Vale desde maio, o executivo esteve na
China, o principal cliente da empresa, e demonstra otimismo a curto prazo com a
demanda chinesa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida
por Schvartsman ao Valor.
Valor: Este mês faz sete meses que o senhor assumiu a Vale.
Que diagnóstico faz da companhia?
Fabio Schvartsman: Logo que assumi tive excelente impressão
da companhia, mas era uma impressão superficial. O quadro é melhor do que eu
poderia esperar. Esta companhia tem potencial de ser a empresa de mineração que
gerará mais valor aos seus acionistas em todo o mundo. De todas as de mineração
no mundo, acredito que nos próximos anos não haverá outra produzindo mais valor
para seus acionistas do que a Vale.
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Valor: O que lhe dá essa certeza?
Schvartsman: É uma combinação de fatores. O primeiro deles
se relaciona com a governança. Em 22 de dezembro, a Vale vai entrar no Novo
Mercado [da B3]. Será uma data importantíssima para ela. A empresa enfrentou
uma tarefa dificílima, que foi se adaptar às exigências do Novo Mercado e
promover uma conversão voluntária de ações que precisava contar com uma adesão
muito grande de acionistas para que desse certo. Precisou dar um passo além com
a adesão final de todo mundo [100% dos acionistas] para que tivesse só uma
classe de ações, como é o caso neste momento, e tivesse pronta para assinar o
regulamento do Novo Mercado e tocar o sino na bolsa no dia 22. Após 20 anos da privatização, a Vale começa a
se tornar uma verdadeira corporação.
Valor: Quais serão os impactos dessa migração para a Vale,
seus acionistas e o mercado acionário?
Schvartsman: A Vale é a maior empresa privada com ações na
bolsa brasileira. É a estrangeira com maior liquidez na Bolsa de Nova York, com
negociação de 30 milhões de ações por dia, algo como US$ 300 milhões a US$ 400
milhões. A entrada de uma empresa dessa dimensão no Novo Mercado é um fato
marcante e espero que tenha boas consequências também para o Novo Mercado, que
as pessoas comecem a compreender a importância do Novo Mercado.
Valor: Haverá melhor avaliação da empresa e redução do
desconto que o mercado aplica em Vale em relação aos concorrentes?
Schvartsman: Quando comentei que a Vale tende a ser a
empresa de mineração mundial que vai gerar mais valor para seus acionistas,
parte desse valor virá da melhoria da governança que se traduz, em todos os
mercados, em melhor avaliação da companhia. É uma alavanca na direção de
produzir mais valor para os acionistas.
Valor: 2017 foi um ano de mudanças. Tem mais pela frente?
Schvartsman: Estamos trabalhando para ter o quadro de
principais-executivos da companhia completo na virada do ano. Vamos ter time
completo jogando junto desde o início de 2018. Vamos entrar janeiro com um time
pronto. E a escalação já está completa.
Valor: Fundos que apoiaram a migração para o Novo Mercado
disseram que a melhoria da governança acaba de começar. Concorda?
Schvartsman: A ida para o Novo Mercado corresponde ao fato
de que os acionistas controladores deixam de ser controladores e, futuramente,
deixarão de ter a maioria dos conselheiros. Por enquanto, vieram dois membros
independentes mas ao longo do tempo outros mais virão porque haverá uma
transição paulatina de membros indicados pelos antigos controladores para
membros indicados pelo mercado, independentes.
Valor: Os controladores da Vale vão vender parte de suas
ações em março do ano que vem?
Schvartsman: Não tenho direito de falar pelos outros, mas
posso dizer qual é minha opinião. Se eu fosse eles, não vendia não.
Valor: Por quê?
Schvartsman: Se a ação vai valorizar tanto quanto estou
dizendo, se vai criar mais valor para o acionista; se vender, vai perder essa
valorização. É um motivo muito forte para não vender. Se estão buscando retorno
sobre os investimentos, o natural é que paguem para ver.
Valor: Quais são as perspectivas para o minério de ferro em
2018?
Schvartsman: Eu não me importo com o preço do minério de
ferro, esteja onde estiver. Me importo que a Vale seja uma empresa previsível,
que dado um [determinado] nível de preços a Vale consiga derivar qual é o
desempenho que vai ter. É impossível tentar apostar em preço de commodity,
sempre dá errado. O importante é: dado o nível de preço tem que sair do outro
lado qual é o resultado que a Vale vai dar. Todo mundo tem que saber. Essa é a
Vale que a gente quer porque nem sempre foi assim. Havia uma mudança de preço e
era de se esperar que o resultado tivesse determinado comportamento e o
comportamento era diferente desse. Isso é muito danoso para a valorização da
companhia.
Valor: Vai trabalhar sobre o que pode controlar como os
custos?
Schvartsman: Custo e realização de preço. Tem o preço e a
realização de preço. A Vale tem o centro de controle de operações integradas
[em MG]. O centro permite que a Vale escolha o melhor mix de produtos para
colocar no mercado a cada momento. Maximiza o resultado. Significa que, dado um
preço Platts [de referência], a Vale vai ter um prêmio e nosso objetivo é
maximizar esse prêmio. É nossa obrigação, pois se nosso minério é de melhor
qualidade do que a média tem que ter um diferencial de preço. Não é possível
que a Vale tenha como resultado o preço médio. O preço, em si, não sei, mas o
prêmio que vai ter em relação ao mercado esse eu tenho que saber.
Valor: Mas qual é a sua percepção sobre a relação entre
oferta e demanda para o minério de ferro?
Schvartsman: Existe uma mudança no mercado de minério de
ferro, existe uma demanda cada vez maior para minério de qualidade mais alta.
Especialmente na China houve uma mudança no perfil de produção para
altos-fornos [de siderúrgicas] de grande capacidade que precisam do minério de
maior teor para ter produtividade e, adicionalmente, o minério de alta
qualidade emite menos poluentes, o que é importante para China, que trabalha
para reduzir os níveis de poluição. A Vale é, entre todas as empresas do mundo,
a melhor posicionada em minério de alta qualidade graças a Carajás e à rampa
[de crescimento da produção] do S11D [mina no Pará]. Então não só o mercado
está bom como cresce a procura por minério de alta qualidade, o que faz com que
o prêmio por esse produto esteja muito acima do que foi no passado. O minério
da Vale tem um prêmio de 15% [sobre o Platts] enquanto o minério de baixa
qualidade tem desconto de 30% a 40%.
Valor: Não esperam, portanto, grandes oscilações a curto
prazo?
Schvartsman: A China, ao invés de continuar investindo apenas no
crescimento de sua infraestrutura interna, que era o que puxava a demanda de
minério no passado, aposta no ‘One Belt and One Road’, projeto que consiste em
usar capital, engenharia e produtos chineses para construirinfraestrutura
ligando a China com outras regiões do mundo [via Ásia]. Usa aço chinês para
construir infraestrutura em outros países, o que faz com que a demanda dos
altos-fornos chineses permaneça alta.
Valor: Os sinais da China para 2018 são positivos?
Schvartsman: Tive o cuidado de ir à China e lá conversei com
todos os principais produtores de aço chineses. O que estou dizendo não é minha
opinião, mas o que eles dizem como veem o horizonte. Não sei a longuíssimo
prazo, mas o ano que vem com segurança esse é o cenário que está colocado.
Valor: Como avalia a situação no resto do mundo?
Schvartsman: Vivemos momento único no qual todas as grandes
economias do mundo crescem ao mesmo tempo. Faz muitos anos que não acontecia
situação dessas. Até o Japão cresce e digo isso porque a população japonesa
decresce. É uma situação de demanda firme em todo lugar. O expoente continua
sendo a China pelo tamanho e, visitando a China, se nota que os investimentos feitos
no país em tecnologia e escala de produção fazem com que não tenha para
ninguém. O produto da China é de qualidade melhor e de custo menor do que o
feito em qualquer outro lugar do mundo. O que tende a fazer com que essa
posição de mercado da China seja sustentável.
Valor: Quais são os riscos?
Schvartsman: Não estou dizendo que a economia ficará assim
para a frente. É o que estamos vivendo hoje. O grande fator de ruptura da
economia mundial é o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, o que traz
desequilíbrios em todos os mercados. E existem indicações que os Estados Unidos
vão acelerar a elevação de suas taxas de juros a partir do ano que vem. Se isso
acontecer, é de se esperar uma mudança desse cenário com alguns países se
beneficiando e outros sendo prejudicados. Se os Estados Unidos pagam mais
juros, o dinheiro vai para lá, o que acaba esvaziando a potência do resto.
Valor: Quando a Vale vai atingir produção de 400 milhões de
toneladas de minério de ferro por ano?
Schvartsman: Em 2019, devemos chegar a esse número. Nossa
capacidade de produção será maior que essa. Assim como nossa capacidade é maior
do que as 360 milhões de toneladas que vamos vender no ano [de 2017]. A Vale é
uma empresa focada em margem e não em volume. Se ganhar mais produzindo menos,
melhor. O que importa é qual é o número de produção que vai garantir o máximo
resultado..
Valor: Quando a Vale vai conseguir colocar minério na China
abaixo de US$ 30 por tonelada?
Schvartsman: É importante colocar em perspectiva o que estamos
fazendo. Falamos de governança que é uma das alavancas de criação de valor.
Outra alavanca tão importante quanto é performance, resultado. Eu falei de
previsibilidade. Tem que haver tanta consciência de custo na companhia que, em
qualquer cenário de preço, eu consiga definir o que é o resultado. Então todo o
trabalho de custo na empresa visa dotá-la das melhores práticas para que ela
seja competitiva e melhore a performance. Val para tudo que faz.
Valor: A crítica do mercado é que a geração de caixa da Vale
depende do preço do minério de ferro…
Schvartsman: Como estamos trazendo o custo lá pra baixo,
resistimos melhor às oscilações [de preços]. E estamos vendendo minério com
prêmio e reduzindo custos.
Valor: E nos metais básicos, um negócio problemático, o que
vai fazer? Vender ativos, se associar?
Schvartsman: Houve uma mudança positiva no níquel. Mas demos
uma freada para arrumação, reduzindo o nível de produção. A lógica das
mineradoras é escala. Estamos tomando decisão voltada à geração de caixa. Não
estou interessado em anunciar que vendi mais, quero produzir mais resultado. O
que vai acontecer é que nos próximos dois anos o negócios de metais básicos vai
gerar mais caixa do que gerou nos últimos anos e existe gradativa melhoria do
cenário de níquel. Os preços estão pouco melhores, o veículo elétrico está
começando a se tornar realidade. A visão de que terá papel importante nas
baterias para veículos elétricos está se consolidando. Há três meses a cotação
do níquel era de US$ 9,5 mil; hoje está na faixa US$ 11,5 mil. Se produzir 260
mil toneladas vezes dois mil dólares [adicionais por tonelada] dá US$ 520
milhões a mais. É uma mudança pequena mas ajuda muito: Começo a ficar otimista
nesta área.
Valor: A produção de níquel como insumo para baterias de
carros elétricos é uma oportunidade real?
Schvartsman: Espero que sim, mas depende do desenvolvimento
tecnológico. O níquel é o que tem melhor relação entre peso e capacidade de
armazenagem de energia, então é fundamental para veículos. A lógica é que vá se
usar muito níquel na bateria. Os indícios são positivos, mas o que temos que
fazer é tornar a área de níquel rentável independentemente disso.
Valor: De que forma?
Schvartsman: Mudando a maneira como gerimos os sites onde
operamos. Vamos transformar cada site em caixa positivo, o que é inédito na
Vale, pois sempre houve subsídio cruzado entre eles: o melhor subsidiando o
pior. Para mim, ou tem condições de andar com as próprias pernas ou não
queremos. Na Nova Caledônia, onde o problema é mais complicado – além de custo
elevado, precisamos investir em novo reservatório de rejeitos para continuar a
operação -, queremos trazer sócio com capital. O processo continua, está
andando.
Valor: Tem perspectiva de investir em novos negócios?
Schvartsman: Depois desses meses, concluí duas coisas. A
Vale é diversificada, considerando os negócios de metais básicos e carvão. O
problema é que não tem dado resultado. Entendo que minha obrigação é fazer
gerar resultados proporcionais a esses negócios como ocorre no minério de
ferro. Outra conclusão é que, antes de me arvorar comprador, tenho de mostrar
que preciso entregar resultado no que tenho. Vou comprar baseado em quê? Nossa
missão é recuperar os ativos existentes mostrando que somos capazes de entregar
valor em tudo que a Vale tem.
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