Uma tempestade perfeita atingiu o
minério de ferro. O dólar mais forte, a tensão nos mercados pelas medidas
protecionistas dos Estados Unidos, a marca recorde de estoques em portos
chineses, a percepção de que novas obras na China não estão andando, o fim de
restrições ambientais à siderurgia no gigante asiático e a perspectiva de
aumento de produção pelas quatro maiores mineradoras derrubaram os preços da
commodity em março.
Até agora no mês foram apenas quatro
dias positivos para o insumo no mercado físico chinês, contra onze no vermelho.
A cotação recua 14,5% em março, uma variação negativa que não era vista desde
setembro, quando o minério caiu 21,4% e interrompeu uma série de altas que
quase levaram o valor para acima de US$ 80 por tonelada. Desta vez, algo
semelhante ocorreu. O minério bateu US$ 79,39 por tonelada no dia 1º e, desde
então, vivencia sucessivas quedas.
Ontem, a commodity com pureza média de
62% terminou o dia cotada em US$ 67,25 a tonelada no porto chinês de Qingdao,
segundo a “Metal Bulletin”. No ano, as perdas são de 7,4%.
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Os motivos para a perda de força podem
ser muitos, mas há bastante tempo os analistas alertavam para a
insustentabilidade dos preços. Para eles, em um mercado transoceânico
claramente com excesso de oferta, o insumo estava muito caro. Faltava um
gatilho para que a correção para baixo começasse e ele foi Donald Trump,
presidente dos EUA.
“As conversas em geral sobre
tarifas de importação americana não pegam nem um pouco bem com os mercados e
ainda há muita tensão e incerteza quanto ao que mais pode acontecer”,
comenta Edward Meir, da consultoria de commodities FCStone. Mesmo considerando
apenas a sobretaxa ao aço e ao alumínio, a situação já parece confusa,
acrescenta o analista, dada a burocracia para que empresas e países consigam
isenção.
Essa preocupação dos investidores fez
com que corressem para garantir proteção financeira, com exposição ao dólar – a
moeda mais forte do mundo. O US Dollar Index, por exemplo, índice ponderado que
mede a divisa frente a outras seis, avançou 2% desde que, em 16 de fevereiro, o
Departamento de Comércio recomendou que Trump acionasse a seção 232 para barrar
importações de aço e alumínio nos EUA. Frente ao real, subiu 2,2%.
Commodities negociadas em dólar costumam
sofrer pressão de baixa quando a moeda americana se valoriza. Um dólar mais
forte significa que o produto também ficaria mais caro, motivo pelo qual há uma
correção.
Ironicamente, a taxa cambial ajuda a
beneficiar a maior produtora do minério no mundo, a Vale. Como a moeda funcional
de seu balanço é o real, os ganhos a serem embolsados pela venda da commodity
foram menos impactados – a desvalorização em março é 1,2 ponto percentual menos
intensa, de 13,3%. Além disso, a cotação média em divisa americana de US$
75,41, queda de 11,9% em comparação anual, cai menos, 9,1%, na brasileira.
Levantamento do Valor com 13 instituições financeiras mostra previsão de
cotação média de US$ 63,10 em 2018.
Mas além do aspecto financeiro, o
minério também sofreu com seus próprios fundamentos econômicos. Na semana
passada, os estoques do insumo em portos chineses atingiu os 160 milhões de
toneladas, uma marca histórica. O alemão Commerzbank ressalta que os volumes
deixam o mercado transoceânico “mais que em servido”, também ajudando
a derrubar a cotação nos últimos dias.
Os compradores correram para armazenar o
máximo possível da matéria-prima antes de as restrições ambientais que cortaram
capacidade siderúrgica na China vencessem, na semana passada. Ávidos pelo
minério e, especialmente, um de melhor qualidade – o que beneficiou os produtos
com pureza de 62% e 65% -, ajudaram a impulsionar os preços.
Norbert Rücker, analista do Julius Baer,
escreveu que o aumento de estoques – tanto de minério quanto de aço – traz
sobreoferta para o volume necessário na temporada mais agitada da construção no
país. Ela é reforçada pela evolução do Brasil e Austrália na extração do
minério. “Seguimos cautelosos”, disse.
– Fonte: http://www.valor.com.br/empresas/5401069/minerio-de-ferro-tem-queda-de-145-em-marco
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