SÃO PAULO – As expectativas de aumento expressivo da área
de plantio de soja na nova safra, que começa a ser semeada em setembro no país,
estão em risco. A razão é que o tabelamento dos fretes — resultado da
paralisação dos caminhoneiros em maio — está atrasando as entregas de
fertilizantes, insumo fundamental para o plantio.
O impasse acerca da tabela, que foi
aprovada semana passada na Câmara e no Senado, fez o frete entre porto e
indústria e entre as empresas e as propriedades produtoras subir. Além disso, a
indefinição fez com que matéria-prima importada, que é transformada em adubo,
ficasse paralisada nos portos — situação que já começa a se normalizar.
Analistas estimam que a área plantada na
safra 2018/19 poderia crescer entre 1 milhão e 1,8 milhão de hectares no país,
impulsionada, sobretudo, pela expectativa de aumento das exportações para a
China em decorrência da guerra comercial com os EUA, que elevou os prêmios sobre
a soja brasileira nos portos. O atraso nas entregas de adubos nas principais
regiões produtoras de grãos no país, porém, pode reduzir o potencial de
expansão da área de soja, admitem analistas.
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Diante desse cenário, consultorias como
a Safras & Mercado já reduziram a projeção para aumento da área em 2018/19.
Na última sexta-feira, a Safras divulgou que espera incremento de 2,3% na área,
para 36,004 milhões de hectares. “Não fossem as incertezas geradas pelo frete,
veríamos um aumento maior. A gente trabalhava antes com alta de 5%”, disse Luiz
Fernando Roque, analista da consultoria. Um aumento de 5% significaria uma
expansão ao redor de 1,8 milhão de hectares.
Analistas concordam que o “mercado se
regulará”, mas a dúvida é se isso ocorrerá a tempo de permitir que a safra de
soja seja semeada no período ideal. “O tempo está ficando muito curto para as
entregas [de fertilizantes]. Já estamos quase em meados de julho”, disse
Marcelo Mello, consultor da INTL FCStone.
Segundo ele, em anos “normais”, o pico
de entregas de insumos para as misturadoras estaria ocorrendo agora. No
entanto, o fluxo entre o porto de Paranaguá — principal entrada de
fertilizantes no país — e Mato Grosso — principal Estado produtor de soja —
está ao redor de 10% do normal para o período. “Mesmo dentro do Paraná, as
entregas estão em 50% do ritmo normal”, afirmou.
De abril — antes da paralisação dos
caminhoneiros — até hoje, o frete rodoviário para os fertilizantes do porto até
as regiões onde estão instaladas as principais misturadoras do país subiu, em
média, cerca de 20%. Segundo cálculos do Grupo de Extensão em Logística
Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-Log), o
frete rodoviário do porto Paranaguá a Sorriso (MT) passou de R$ 147,50 em abril
para R$ 173,80 por tonelada atualmente. Para o Alto do Araguaia (MT), o frete
foi de R$ 118,33 para R$ 145,80. Também de Paranaguá até Rio Verde (GO), saiu
de R$ 121 para R$ 143,21.
“Os armazéns nos portos estão lotados e
mesmo os estoques das misturadoras estão bastante cheios”, disse Mello. A
situação, avalia, pode fazer com que as misturadoras desistam de fazer as
importações para completar a demanda da safra. “Fica a dúvida se chegará a
tempo. Então, podem desistir de importar”, acrescentou.
A entrega da misturadora para o cliente
final também foi afetada. No começo do mês passado, a americana Mosaic, uma das
maiores empresas de fertilizantes do mundo, enviou comunicado a clientes
propondo alternativas para minimizar a alta de custos após o estabelecimento de
valores mínimos para os fretes.
Uma das propostas era a alteração da
modalidade de entrega contratada — de CIF, cujo frete é de responsabilidade da
empresa vendedora, para FOB, de responsabilidade da compradora. A Fertilizantes
Tocantins foi um dos clientes da Mosaic afetados pela medida. “O nosso frete
aumentou mais de 40%, de Araxá e Uberaba, em Minas, para Sinop, em Mato
Grosso”, disse José Eduardo Motta, presidente da empresa. Segundo ele, agora a
Tocantins terá de fazer a mesma negociação com seus clientes.
Pode haver outro entrave ao aumento da
área de soja na magnitude esperada hoje. Como boa parte dos produtores recorre
ao barter — troca de insumos por soja — para tocar o plantio, as incertezas
atuais atrapalham. “A falta de previsibilidade do frete pode trazer
dificuldades adicionais para se precificar a soja. Se eu tenho dificuldade de
precificar a próxima safra, eu vou ter uma dificuldade grande de realizar a
operação de troca”, afirmou Guilherme Bellotti, analista do Itaú BBA.
De acordo com dados do Instituto
Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), 52% do financiamento do plantio
de soja da safra 2017/18 do Estado foi realizado por meio de barter.
Apesar do quadro atual de atraso nas
entregas de fertilizantes, Victor Ikeda, analista do Rabobank, avalia que ainda
é cedo para estimar o impacto no plantio da soja. O banco holandês estima que
área da leguminosa deve crescer entre 1 milhão e 1,5 milhão de hectares no novo
ciclo.
Embora o frete mais elevado signifique
alta dos custos, a consultoria Céleres projeta margem de 33,8% para o produtor
de soja em Rondonópolis (MT) em 2018/19, ainda acima dos 31,6% do ciclo
passado.
Boa parte dessa margem está relacionada
à alta do prêmio sobre a soja brasileira no porto de Paranaguá. O prêmio do
produto para entrega em agosto estava em US$ 2,50 por bushel ontem. No começo
de junho, estava em US$ 0,50.
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