Declarações tendem a deteriorar relações, dizem analistas

As mais recentes ofensivas do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e do ministro da Educação, Abraham Weintraub, contra a China têm potencial de estender as rusgas diplomáticas entre o país asiático e o Brasil devido ao novo coronavírus.

Os especialistas divergem sobre as chances de o atrito respingar nas exportações agrícolas brasileiras e nos aportes chineses em projetos de infraestrutura no curto e médio prazos. Mas este é um cenário que ganha força, principalmente porque a disseminação da doença imprime fraqueza à economia mundial e, portanto, deve reduzir os fluxos financeiro  e de comércio.

Eduardo e Weintraub usaram uma “live” no fim de semana para retomar temas populares ao bolsonarismo: a alegada culpa da China na crise mundial de saúde e uma suposta demora do governo asiático em comunicar as autoridades sanitárias do planeta sobre a gravidade do vírus.

O posicionamento representa um “tiro no pé incompreensível”, opina Marcos Azambuja, diplomata de carreira e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). O que chama atenção especial, diz, é o fato de a China, além de importante parceiro comercial do Brasil, ser hoje fornecedor de conhecimento e produtos para o combate ao novo coronavírus.

“Estamos em um caminho inexplicável de ofender a China e aos chineses, num momento em que o país adquire uma importância crescente para o mundo e para nós, sobretudo no fornecimento de equipamentos de saúde de emergência”, afirma.

Segundo ele, é improvável que, no curto prazo, isso se reflita em queda das exportações agrícolas do Brasil. “Não vejo ainda um preço sendo pago, mas isso muda de um momento para o outro. Por ora, a racionalidade chinesa impede que eles adotem uma decisão mais brusca”, diz.

Mas o sinal que fica, alerta Azambuja, é de cautela frente à dimensão que a insistência neste conflito pode tomar. “Meu medo é o efeito cumulativo da ofensa. O Brasil tem atirado com grande perfeição em seu próprio pé”, afirma, destacando que a relação bilateral entre os dois países nunca demonstrou impasses. “Onde havia uma estrada fluida e limpa agora há um campo um pouco minado por causa das tolices ditas por nós”, diz.

O professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Matias Spektor diz que o atrito existe porque o governo chinês e toda sua diplomacia têm tentado rechaçar as críticas sobre a disseminação do doença e, ao mesmo tempo, o bolsonarismo buscar diminuir a gravidade da situação.

“É natural que essas duas estratégias, que são opostas, terminem gerando choques e fricção, afirma. “Mesmo na melhor das situações, a relação comercial entre Brasil e China enfrentaria um enorme desafio por causa da pandemia; agora, com estratégias políticas opostas, é uma combinação absolutamente explosiva”, afirma Spektor.

Com o novo coronavírus se espalhando pelo país, a parceria de longa data com a China poderia servir para que os técnicos de saúde no Brasil buscassem apoio para replicar medidas de contenção da doença. “O Brasil deveria buscar com a sua relação trazer missões chinesas para nos ensinar o que fazer”, diz Azambuja.

O diplomata também critica o alinhamento aos Estados Unidos como justificativa à postura belicosa com a China. “Os EUA têm uma grande rivalidade com a China porque o país está, de fato, fazendo uma série de movimentos que sugerem uma aspiração à condição de superpotência mundial. Para o Brasil, [seguir nesse caminho] é apenas uma grande burrice, não estamos nessa liga [de países desenvolvidos]”, diz.

Embora tudo aponte para um afastamento gradativo da China, técnicos do governo brasileiro devem tentar reverter a impressão negativa, diz Guilherme Casarões, professor da FGV. “O Brasil não está em condições de dobrar a aposta e provavelmente trabalhará por reaproximação silenciosa. Ainda há muitos dentro do governo que entendem a importância da China para o avanço dos interesses brasileiros”, afirma.

Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/04/07/declaracoes-tendem-a-deteriorar-relacoes-dizem-analistas.ghtml

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