Consulta por crédito do BNDES perde ritmo, e Mercadante culpa ‘ruído político’

Folha de S. Paulo – O desenvolvimento sustentável do Brasil tem o potencial de desencadear um efeito cascata positivo para toda a América Latina, sobretudo se forem levados adiante os planos de infraestrutura para a integração regional. A opinião é de Jin Liqun, presidente do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB, na sigla em inglês).

Jin, que esteve no país em março e deve voltar no fim do ano, não escondeu seu entusiasmo pelo Brasil ao receber Geraldo Alckmin na sede do banco, na recente visita do vice-presidente a Pequim.

Na ocasião, foram assinados acordos com o AIIB para a concessão de R$ 6,3 bilhões em créditos para infraestrutura no Brasil — RS$ 5 bilhões destinados à recuperação do Rio Grande do Sul. O AIIB já tem três projetos aprovados para o Brasil, num total de R$ 1,8 bilhão. Mas Jin vê um horizonte bem mais amplo, com possibilidade de financiamentos do banco no país de até U$ 10 bilhões entre cinco e dez anos.

Criado por iniciativa do governo chinês, o AIIB está em seu oitavo ano de operações e conta com 109 países membros. Em entrevista ao GLOBO na sede do banco, Jin disse que a cooperação com o Brasil “é crucial”, e criticou a campanha do Ocidente para se descolar da China: “Reduzir o risco leva ao próprio risco que se quer evitar”, afirmou o economista chinês, que está à frente do banco desde sua inauguração.

Qual a importância para o banco de ter mais projetos no Brasil?

Embora nossa sede seja na Ásia, o conceito do banco é sempre ter um olhar além da região. Os elos da Ásia com o mundo, e em particular com a América Latina, são cruciais, porque ambas as regiões têm economias vibrantes e com futuro promissor.

Quando estive com o presidente Lula, em março, ele falou sobre os planos de investir na conectividade com os países vizinhos, até o Pacífico. Melhorar a conectividade de costa a costa, com uma ferrovia até o Pacífico, pode reduzir o custo do transporte, sobretudo quando há um gargalo no canal do Panamá, cuja capacidade caiu de forma substancial.

A visão do presidente Lula é desenvolver a conectividade regional por meio de projetos de infraestrutura. É uma ótima ideia. Nosso desejo de fazer algo pelo Brasil e por seus vizinhos tem um motivo simples: queremos prover bens e serviços públicos enquanto enfrentamos as mudanças climáticas, que são um perigo claro e presente à sociedade.

Em segundo lugar, acreditamos que o desenvolvimento do Brasil passa por diversificar sua economia. Afastar-se da dependência excessiva de matérias-primas como minério de ferro, que é importante, mas é preciso aumentar o valor agregado dos recursos naturais.

Diversificar a economia, fortalecer a capacidade industrial, incluindo o desenvolvimento de marcas como matérias-primas da região amazônica. É possível continuar produzindo na agricultura e no setor de proteína (animal), enquanto se investe em valor agregado na Amazônia e em bens industriais.

Antes falava-se de “descolamento” entre o Ocidente e a China. O termo usado agora é “de-risking” (redução de risco). Como vê isso?

Sou um economista, creio que ninguém consegue resistir às forças básicas da economia. Seres humanos são regidos por teorias e práticas econômicas elementares.

“Descolamento” leva a desastres: menor crescimento, menos empregos e queda na renda. Fala-se muito em descolamento, mas o comércio (da China) com os EUA está crescendo, com a Europa também. Essa é a realidade, e é preciso viver com ela.

Eu acredito que a força econômica é o principal motor para empurrar as pessoas na mesma direção. Reduzir o risco leva ao próprio risco que se quer evitar. A cadeia de produção global não será realmente global se alguns dos grandes países ficarem de fora. Pode-se reduzir o escopo geográfico da cadeia de produção. Mas essa cadeia será menos produtiva, menos lucrativa e menos eficiente.

Desde que a ordem econômica global foi criada no pós-guerra, nós vemos um crescimento exponencial do comércio e investimento, uma melhora significativa no nível de vida das pessoas. A atual ordem econômica global não é perfeita, então o que se deve fazer é reformá-la para que possa funcionar melhor.

Como o AIIB pode ajudar no projeto de integração da América Latina?

Acho que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) lançado pelo governo brasileiro pode ajudar muito nesse sentido. Nós damos muita importância à cooperação entre o AIIB e o Brasil, mas não quero exagerar o papel que qualquer banco multilateral pode ter nisso.

Cabe aos governos soberanos promover o desenvolvimento social por meio da mobilização de seu povo. Essa é a solução fundamental para qualquer economia e nada pode substituí-la. Os agentes externos, sejam privados ou bancos multilaterais, só podem ter um papel complementar.

Vou dar um exemplo: fui para o Banco Mundial em 1980, justamente quando a China se abria. Comparados ao que hoje a China tem em investimentos, os empréstimos que o país tomou de instituições financeiras são muito limitados. O desenvolvimento se deu graças ao programa de abertura e reforma promovido pelo governo, com apoio da população.

A experiência chinesa indica que todo país deve confiar em seu próprio esforço e buscar cooperação com o resto do mundo. É essa a razão fundamental do crescimento da China. O milagre chinês pode ser repetido em qualquer país em desenvolvimento que fizer o mesmo.

Qual a perspectiva de financiamento do AIIB no Brasil? O senhor falou em US$ 10 bilhões durante a visita do vice-presidente Alckmin ao banco.

As possibilidades (de projetos) estão crescendo. Eu me referi a uma cifra indicativa. Por exemplo, US$ 1 bilhão já está sendo preparado como empréstimo de emergência ao Brasil para lidar com as enchentes. Acho que para o Brasil, US$ 10 bilhões é uma cifra básica pelos próximos cinco, dez anos, dependendo de quão sólido será o programa de empréstimo. Nós respondemos às necessidades dos membros.

Quando damos suporte a um membro, olhamos tanto para as necessidades do país como para o impacto positivo para a região. Por isso eu ressaltei quando estive no Brasil que o desenvolvimento do país, seu avanço na diversificação e na industrialização, será bom para o Brasil e também para o resto da região. A cooperação entre o AIIB e o Brasil é crucial. Não só para o Brasil, mas para toda a região.

Oito anos após o AIIB entrar em operação, como compara a visão original, que levou o governo chinês a criá-lo, com o que o banco é hoje?

O banco foi pensado para promover desenvolvimento por meio de infraestrutura e outros setores produtivos, como uma instituição multilateral para o século 21. É inclusivo, aberto a qualquer membro do Banco Mundial e do Banco Asiático de Desenvolvimento.

Este banco é construído com base na experiência dos bancos multilaterais existentes, com a visão de incorporar os esforços de reforma de todas essas instituições. Oito anos depois, você vê todos os bancos multilaterais trabalhando como um sistema. E todos eles estão falando em reforma.

Todos acreditam que, a menos que melhorem a forma como gerenciam suas instituições e sua capacidade de mobilizar capital, será muito difícil desempenhar seu papel histórico. Em retrospecto, acreditamos que nossa visão estava correta e que o espírito de equipe do AIIB está produzindo resultados tangíveis.

Há um ano, o diretor de comunicação do AIIB pediu demissão fazendo críticas à instituição e afirmando que ela é dominada pelo Partido Comunista da China. Como o episódio afetou o banco?

Fomos muito francos e abertos. Imediatamente formamos uma força-tarefa e convidamos consultores externos independentes. Investigamos o caso e não houve indícios de que as acusações tinham fundamento. Primeiro, a reação do mercado de capitais foi positiva. Esse é o indicador mais forte.

Se o mercado perdesse a confiança neste banco, não haveria jeito de trabalhar com ele. Há grandes instituições financeiras que trabalham conosco, dos Estados Unidos e da Europa. Todos conhecem sua estrutura de governança. Sou o único chinês na equipe de gestão, o órgão que toma decisões.

Se este banco fosse dominado pelo Partido Comunista da China, eu lhe pergunto: como isso poderia funcionar? É um tapa na cara de todos os que participam do processo decisório. Um completo absurdo.

Fonte: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2024/06/19/ordem-economica-nao-e-perfeita-entao-devemos-reforma-la-diz-presidente-do-banco-asiatico-de-infraestrutura.ghtml

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*