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Investimento em infraestrutura desacelera quando é mais necessário

Valor Econômico – Depois de terem surpreendido positivamente em 2024, os investimentos em infraestrutura devem desacelerar neste ano. Juros altos, desaquecimento da economia, insegurança jurídica com a possibilidade de tributação das debêntures incentivadas e problemas de gerenciamento do Novo PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, desestimulam os negócios. A Inter.B Consultoria Internacional de Negócios estima que os investimentos em infraestrutura vão aumentar neste ano pouco mais de 4%, menos da metade dos 9,6% registrados em 2024, quando atingiram R$ 266,8 bilhões. Eles poderão chegar perto de R$ 278 bilhões.

Um dos setores mais dinâmicos da infraestrutura e o que lidera em investimentos, com mais de R$ 100 bilhões aplicados anualmente desde 2022, a energia elétrica deve tirar o pé do acelerador. No ano passado, investiu R$ 112,8 bilhões e deve ficar pouco acima neste ano, em R$ 113,2 bilhões. O setor vem passando por elevado estresse. As fontes de energia renovável eólica e solar, que se desenvolveram para enfrentar o problema da redução da geração de energia hidroelétrica em momentos de escassez hídrica, inclusive por meio do estímulo à proliferação de painéis fotovoltaicos nos tetos das casas, acabou causando o paradoxo do excesso de energia durante o dia e risco de apagão à noite, que pode levar ao acionamento das sempre mais caras térmicas (Valor, 22/9).

O descompasso já quase provocou blecautes nacionais em abril e em agosto de 2025. Para evitar o risco, o Operador Nacional do Sistema (ONS) obriga o desligamento temporário de parques solares e eólicos — o chamado “curtailment” —, causando perdas financeiras às usinas. Mais que um problema técnico de controle da operação, serão necessárias mudanças de política pública e de incentivos econômicos. Enquanto isso não ocorre, os investimentos são desestimulados.

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A área de transportes, que fica em segundo lugar, deve apresentar maior dinamismo, com crescimento de 6% nos investimentos em infraestrutura, de R$ 84,6 bilhões para R$ 90 bilhões, metade dos quais em rodovias. Um dos destaques na área foi o recentemente leiloado Túnel Santos-Guarujá, o primeiro imerso da América Latina, cuja construção ficará a cargo da construtora portuguesa Mota-Engil, que tem a chinesa CCCC como acionista. O empreendimento exigirá investimentos de R$ 6,8 bilhões, divididos entre o governo federal e o estadual.

Em terceiro lugar vem o setor de saneamento, que deve investir R$ 46 bilhões neste ano, 12% acima dos R$ 41,1 bilhões de 2024, segundo a Inter.B, percentual superior aos registrados pelos demais segmentos. Influenciado pelo Novo Marco Legal do Saneamento Básico, o setor dobrou o volume de investimentos nos últimos dois anos. Apesar disso, ainda não atingiu o patamar necessário para a universalização do serviço previsto no marco.

Os investimentos em infraestrutura vêm sendo garantidos pelo setor privado, que contribuiu com 2,4 vezes mais do que o volume de recursos canalizados pela área pública, relação que sobe neste ano para 2,6 vezes. Um bom exemplo das limitações da atuação do setor público na infraestrutura é o PAC.

Lançado há dois anos com a promessa de investir R$ 1,3 trilhão até 2026 em infraestrutura em sentido amplo, incluindo de estradas a escolas e hospitais, o novo PAC é a principal vitrine do governo Lula nessa área. Mas nem todos os recursos comprometidos foram liberados, o que indica volume significativo de obras que podem atrasar. Entre 2023 e 2025, o governo de Lula reservou R$ 111 bilhões para o programa, dos quais pagou R$ 94,3 bilhões. Mas R$ 16,7 bilhões restantes não foram desembolsados por não haver comprovação de que o empreendimento foi concluído.

Esses projetos empacados são equipamentos públicos importantes para as pessoas, como hospitais, policlínicas, postos de saúde, escolas e creches, a maioria deles sugerida por prefeitos e governadores no chamado PAC Seleções. Por isso, preocupam o governo do ponto de vista político.

Além disso, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou problemas críticos de falta de transparência na seleção de projetos do PAC, na atuação da Casa Civil, no acompanhamento das obras e de clareza das informações divulgadas no site do Novo PAC, e pediu que as falhas sejam sanadas. Apesar de o PAC ser um programa que existiu em outros governos do PT, as informações exigidas pelo TCU são básicas. O TCU pede, de projetos financiados por investimentos privados, os valores totais, cronogramas, percentuais de execução, etapas concluídas e previsão de término, esclarecimento das fontes de financiamento, indicadores de desempenho para se avaliar o progresso das obras e cumprimento de prazos e do orçamento.

A desaceleração do investimento ocorre quando se precisaria de mais avanços. Segundo Claudio Frischtak, sócio da Inter.B, para atender as mudanças climáticas, que vão pôr em xeque as redes de saneamento e de energia, por exemplo, e a modernização das instalações existentes, o investimento necessário é de 4,65% do PIB durante as próximas duas décadas, o dobro dos 2,19% previstos para este ano.

Fonte: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/investimento-em-infraestrutura-desacelera-quando-e-mais-necessario.ghtml

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