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Tarifa de Trump sobre o aço faz países retaliarem a China

Valor Econômico – As políticas comerciais de Donald Trump estão desferindo um duro golpe nas siderúrgicas de todo o mundo, e provocando reações de países como México, Brasil e Canadá. Mas os Estados Unidos não são o único alvo de retaliação.

Embora os três países estejam buscando negociar com o governo Trump a redução das tarifas de até 50% impostas em junho sobre o aço importado para os EUA, eles também estão focados em impulsionar a demanda local para compensar a queda nas exportações.

Isso significa bloquear a crescente onda de oferta de aço chinês barato, que ameaça expulsar os produtores locais de seus mercados domésticos. O México anunciou neste mês um plano para aumentar as tarifas sobre produtos da China, inclusive o aço, em até 50%.

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O Canadá também implementou medidas protecionistas e, no Brasil, os produtores de aço estão pedindo ao governo que imponha mais barreiras comerciais ao fornecimento estrangeiro. Juntos, os três países foram responsáveis por 38% das importações americanas da liga metálica em junho e cerca de metade no ano passado.

“Precisamos de medidas de defesa comercial rápidas e eficazes”, disse Marco Polo de Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil, em uma conferência no mês passado, acrescentando que o aço chinês agora representa 65% das importações brasileiras do produto. “O grande desafio é reconquistar o terço do mercado que perdemos para as importações predatórias”.

A China abriu uma investigação sobre barreiras comerciais e de investimento em relação às medidas anunciadas pelo México na semana passada, de acordo com comunicado do Ministério de Comércio. A investigação deve ser concluída em seis meses, embora possa ser prorrogada por outros três meses.

As medidas para suspender as importações do aço chinês podem ajudar a fortalecer a posição dos três países nas negociações com os EUA. As tarifas impostas por Trump aos parceiros regionais surgem em um momento em que seu governo trava uma guerra comercial mais ampla contra a segunda maior economia do mundo. O objetivo é, em parte, conter o fluxo de produtos chineses baratos para todo o mundo. O aço chinês representou mais da metade do mercado global de aço no ano passado, de acordo com dados da World Steel Association.

Mas a guinada para um maior protecionismo nas Américas – uma reversão de décadas de globalização e relações fronteiriças estreitas na região – pode não ser suficiente para convencer Trump a ceder. Embora alguns países tenham conseguido reduções e isenções tarifárias, o presidente dos EUA considera a taxação do aço como fundamental para a segurança nacional e impulsionar a produção doméstica.

Na avaliação de Trump, suas políticas estão fortalecendo a indústria siderúrgica dos EUA, ao mesmo tempo em que prejudicam os produtores no exterior, remodelando as cadeias de suprimento à medida que as empresas se esforçam para evitar as pesadas taxas sobre insumos e exportações.

O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) não quis comentar as medidas.

Desde que Trump anunciou as tarifas sobre o aço, os volumes enviados por Canadá e Brasil despencaram. As importações dos EUA desses países caíram 45% e 27%, respectivamente, em julho, na comparação com o ano anterior, segundo dados do Escritório do Censo dos EUA. O México ainda não sentiu o impacto total das taxas devido aos estoques, com o envio de aço para os EUA aumentando 50% em julho.

Ainda assim, os prejuízos no México, Canadá e Brasil já são generalizados.

A Algoma Steel Group, que opera uma grande usina em Ontário, no Canadá, informou à Bloomberg que está suspendendo os embarques de aço para os EUA. A operadora ferroviária Canadian Pacific Kansas City também foi forçada a interromper o transporte fronteiriço do produto, responsável por 41% de sua receita em metais e minerais. E a Gerdau cancelou planos de investir cerca de US$ 600 milhões em uma nova usina siderúrgica no México.

Embora alguns importadores de aço dos EUA estejam recorrendo aos estoques para amenizar o impacto da redução da oferta ou estejam protegidos por contratos assinados antes da entrada em vigor das tarifas, o próximo ano pode ser mais difícil, pois os produtos armazenados estão se esgotando e o aço estrangeiro está ficando muito caro.

No primeiro trimestre do ano, quase US$ 750 milhões em projetos foram cancelados pelas sete maiores empresas siderúrgicas do México, e pelo menos 4.000 empregos diretos foram perdidos, disse uma fonte com conhecimento do assunto que pediu anonimato. A demanda por aço no México caiu 8,1% nesse período, mostram dados da Câmara Nacional da Indústria Siderúrgica (Canacero).

A Canacero saudou os esforços do governo mexicano para conter a entrada do aço chinês com tarifas mais altas. “É essencial ter medidas que defendam a produção mexicana, promovam a competitividade e protejam o emprego”, disse a entidade em comunicado divulgado após o anúncio.

Embora a tarifa nominal sobre o aço seja de 50%, os países têm, na verdade, uma taxa efetiva mais baixa. Para o ferro e o aço em junho, ela foi inferior a 30% para o Canadá, México e Brasil, de acordo com dados compilados pela Bloomberg usando isenções negociadas. O México e o Canadá estão relativamente protegidos graças a uma isenção para metais que são “fundidos e derramados” nos EUA, assim como por outras isenções sobre o conteúdo não metálico desses produtos.

Os EUA continuam sendo um importador líquido de aço e precisarão continuar comprando aço estrangeiro, a menos que a indústria nacional se expanda em grande escala. O destino final das tarifas de Trump, porém, permanece incerto depois que a Suprema Corte concordou em julgar a legalidade das tarifas em novembro.

Mas, no curto prazo, medidas protecionistas voltadas para a China estão se proliferando, à medida que as siderúrgicas nas Américas sofrem com as tarifas de Trump.

Além dos aumentos nas tarifas do México sobre o aço chinês, o governo do país está investigando usinas siderúrgicas “fantasmas”, operações que existem apenas no papel na Ásia e servem como cobertura para importações estrangeiras, já que os proprietários buscam evitar tarifas ou sanções.

O governo de Claudia Sheinbaum já interrompeu as importações de mais de 1.000 dessas usinas siderúrgicas “falsas”, das quais 40% estavam ligadas à China, 10% à Índia e 6% ao Irã, segundo Luis Rosendo Gutiérrez Romano, vice-diretor para Comércio do Ministério da Economia do México.

O Canadá impôs tarifas de 25% sobre o aço chinês e, em julho, reforçou suas cotas tarifárias para limitar ainda mais as importações de países terceiros que não estejam na região. O governo de Mark Carney também adicionou uma sobretaxa de 25% sobre produtos siderúrgicos de qualquer país, exceto os EUA, que contenham aço fundido e moldado na China.

As empresas contratadas pelo governo canadense também serão obrigadas a adquirir aço de produtores nacionais, à medida que o país aumenta gastos com defesa, infraestrutura e habitação. Ainda assim, muitas siderúrgicas do país terão de se voltar para novas áreas de fabricação – o Canadá não é um produtor de vigas, por exemplo, mas tem capacidade excessiva em bobinas de aço usadas em diversos produtos, como automóveis.

A ministra da Indústria do Canadá, Melanie Joly, afirmou que o governo ofereceu apoio financeiro, como uma iniciativa de US$ 730 milhões, para ajudar as siderúrgicas com projetos de investimentos, e avalia outras medidas. Ela também destacou o acordo entre a sueca Swebor Stal Svenska e a fabricante canadense de veículos blindados Roshel para produzir aço em grau balístico em uma nova instalação.

Em um discurso no fim de julho, Zhao Minge, presidente da Associação Chinesa de Ferro e Aço, apertou sobre possíveis medidas protecionistas por parte de países inundados com o aço chinês. Ele afirmou que a exportação em grande escala de “produtos siderúrgicos de baixo valor agregado” não está em linha com as políticas comerciais do país.

“Se os principais importadores de aço dos EUA perceberem que suas remessas para os EUA estão bloqueadas, então, para equilibrar a oferta e a demanda doméstica de aço, eles reduzirão as importações da China”, disse ele.

Barry Zekelman, bilionário CEO da Zekelman Industries, afirmou em entrevista que as siderúrgicas canadenses não sobreviverão a menos que haja uma mudança nas políticas comerciais dos EUA. Sua empresa, fabricante de tubos de aço com sede em Chicago, possui uma fábrica em Ontário e detém uma participação na Algoma.

“As empresas não podem sobreviver com os impostos que estão pagando”, disse ele. “Elas vão à falência se isso continuar”.

Fonte: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/27/tarifa-de-trump-sobre-o-aco-faz-paises-retaliarem-a-china.ghtml

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