O Globo – Os melhores termômetros do impacto positivo da infraestrutura costumam ser a saúde e o bolso da população. A expansão da rede de água e esgoto reduz a incidência de doenças e diminui a poluição ambiental. O asfaltamento ou a ampliação de estradas incentiva o contato entre consumidores e produtores ou prestadores de serviços. Também elimina desperdícios e prejuízo na movimentação de mercadorias. Nas cidades, sistemas de transportes mais eficientes diminuem o tempo de deslocamento, aliviam o cansaço dos usuários e aumentam a produtividade no trabalho. Na internet, o aumento do alcance e da velocidade também estimulam a produtividade. Não há indústria ou comércio competitivo sem energia confiável e barata. Embora comumente associada a cimento, asfalto e aço, a infraestrutura está intimamente ligada ao bem-estar da população.
Por isso são frustrantes os dados sobre investimento do Brasil no setor. O país fechou 2024 tendo destinado apenas 2,27% do PIB (ou R$ 266,8 bilhões) à infraestrutura, bem menos que o necessário. Para complicar, nem todo o dinheiro foi para projetos novos. Seis em dez reais foram aplicados para atualizar estradas, linhas de transmissão ou portos envelhecidos. Neste ano, a situação deverá piorar. Pelas projeções da consultoria Inter.B, os investimentos em infraestrutura cairão a 2,19% do PIB. Mantido o nível atual, nenhum segmento conseguirá suprir as necessidades nem em dez nem em 20 anos. Tal perspectiva é alarmante. Para se modernizar, o Brasil precisaria mais que dobrar esse percentual por um período de duas décadas.
Alcançar esse objetivo exige maior segurança jurídica para os contratos de empresas privadas, agências reguladoras mais fortes, melhor governança dos investimentos públicos e mais eficiência no planejamento de médio e longo prazo. Com tanto por fazer, ajudaria também não estragar o que vinha dando certo. Por muito tempo, o setor elétrico foi conhecido por planejamento rigoroso, regulação acima da média e operação técnica. Nas últimas duas décadas, houve deterioração acelerada. Grupos de interesse influentes obtiveram sucesso na aprovação de medidas nocivas à sociedade. O populismo tarifário e políticas equivocadas de preço foram corroendo o sistema. Sucateada, a agência reguladora pouco fez.
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Também há, é verdade, exemplos positivos a seguir. O setor de telecomunicações continua com desafios, mas tem sido exemplar na adoção de novas tecnologias, planejamento e regulação. Outro destaque é o saneamento. Com o novo marco regulatório para o setor, a expectativa da Inter.B é que os investimentos privados alcancem R$ 31,2 bilhões entre janeiro e dezembro deste ano, quase o quádruplo de 2022. Será a primeira vez que o setor privado terá investido mais que o público. A mudança representa a chance de o país sair da armadilha do baixo investimento, em que empresas públicas mal geridas e sem capital condenavam milhões a serviços básicos precários. Outros setores deveriam se inspirar nesses modelos positivos.
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