Valor Econômico – A megafusão de US$ 85 bilhões proposta entre as empresas ferroviárias Union Pacific e Norfolk Southern alimentaria a inflação e tornaria os preços ainda menos acessíveis nos Estados Unidos, alertou a chefe da operadora rival BNSF.
Os defensores da operação argumentam que criar uma empresa ferroviária transcontinental reduziria custos ao acabar com a necessidade de que a carga ou os trens sejam passados de uma operadora a outra em centros de conexão muito congestionados.
No entanto, Katie Farmer, executiva-chefe (CEO) da BNSF, que pertence à Berkshire Hathaway e é a outra grande operadora no Oeste dos Estados Unidos ao lado da Union Pacific, disse ao Financial Times que a fusão das empresas reduziria as opções das empresas que querem transportar cargas através da América do Norte e elevaria os preços.
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“Transportamos carvão que gera eletricidade. Transportamos petróleo e derivados, transportamos bens de consumo e produtos agrícolas”, disse a executiva.
“Com o que eu acho que os consumidores deveriam estar preocupados é com o impacto sobre a inflação e a acessibilidade dos preços decorrente da concentração desse tipo de poder de mercado em uma única ferrovia”, acrescentou. “Vamos eliminar opções na cadeia de suprimentos e os custos vão aumentar, o que acabaria criando um imenso problema de acessibilidade econômica para os consumidores.”
A fusão entre a Union Pacific e a Norfolk Southern criaria a primeira operadora capaz de transportar mercadorias da Costa do Pacífico até a Costa do Atlântico usando apenas seus próprios trilhos.
As empresas argumentam que a criação de uma ferrovia transcontinental administrada por uma única operadora reduziria atritos e atrasos associados às transferências em pontos de intercâmbio congestionados, o que encorajaria o transporte de mais cargas por trem, em vez de caminhão, e traria uma economia estimada em US$ 3,5 bilhões por ano para os clientes que enviam as remessas.
O CEO da Union Pacific, Jim Vena, disse ao Financial Times em entrevista realizada no Global IV, que um terminal ferroviário da empresa nos arredores de Chicago, que, em vez de reduzir as opções dos clientes, a fusão criaria uma nova alternativa de transporte transcontinental sem interrupções.
“Os Estados Unidos da América são um dos poucos lugares do mundo onde uma ferrovia não vai de uma ponta à outra do país”, disse Vena, argumentando que a eliminação dos atrasos nos pontos de intercâmbio geraria redução de custos.
Ele comparou o transporte ferroviário de cargas pelos EUA a usar voos de conexão operados por duas empresas aéreas diferentes, cada uma com seus próprios horários e prioridades, algo que eleva o número de conexões perdidas e atrasos.
No entanto, Farmer, da BNSF, disse que a Union Pacific tem histórico de exagerar nas promessas de crescimento antes de fusões.
“Quando o volume que está sendo prometido agora não se materializar, de que forma eles vão pagar uma fusão de US$ 85 bilhões que inclui um prêmio de US$ 15 bilhões?”, questionou. “A história nos conta que eles vão seguir em frente e elevar as tarifas.”
A fusão está sendo analisada pelo Conselho de Transporte de Superfície (STB, na sigla em inglês), agência federal dos EUA supervisionada por um comitê composto por um democrata e três republicanos, incluindo seu presidente, Patrick Fuchs.
A BNSF tem arregimentado oposição à fusão entre sindicatos e representantes da indústria, da agricultura e de firmas do setor de logística. Eles se sentiram encorajados quando o STB, que avalia uma versão revisada da proposta apresentada pela Union Pacific e Norfolk Southern, suspendeu temporariamente o processo em maio, para poder coletar mais dados.
Classificando a fusão como algo “inteiramente impulsionado por interesses de Wall Street”, Farmer destacou que, pelas regras do STB, os proponentes da operação precisam demonstrar claramente que haverá uma melhora da concorrência no mercado, e não apenas sua preservação.
No entanto, o analista Brandon Oglenski, especializado no setor de transportes, disse que é possível sustentar esse argumento. Ele afirmou que a maioria dos clientes ferroviários regionais já é atendida, na prática, por apenas uma operadora. Dessa forma, os clientes que enviam cargas por todo o país poderiam se beneficiar da criação de uma ferrovia que teria incentivos para aperfeiçoar uma rede nacional, e não apenas regional.
A troca de farpas sobre a fusão se dá no momento em que o mercado ferroviário americano começa lentamente a sair de uma prolongada “recessão de cargas”, desencadeada por um excesso de capacidade que data desde a pandemia de covid-19.
Farmer disse que as operadoras ferroviárias se beneficiaram da forte alta dos preços do diesel provocada pela guerra contra o Irã, o que, segundo ela, está levando pequenas transportadoras rodoviárias à quebra, reduzindo o excesso de oferta no transporte rodoviário e tornando o ferroviário mais competitivo.
“Se continuarmos vendo preços altos dos combustíveis por um período prolongado, nossa preocupação é saber se isso começará a afetar a demanda dos consumidores”, acrescentou. “Caso afete, isso certamente terá impacto sobre o setor ferroviário.”
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