O Globo – Enquanto avalia recuar no modelo de concessão do metrô de São Paulo para a iniciativa privada, o governo do estado tem destravado obras e ampliado a rede metroviária. Apesar do avanço na extensão do serviço — 11,7 quilômetros foram entregues até o momento pela gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) —, a malha da maior cidade do país segue distante do patamar de outras metrópoles pelo mundo.
Amanhã, 18 anos após o projeto ser anunciado pelo então governador Geraldo Alckmin, será inaugurado um trecho de uma nova linha do metrô, a 6 ou laranja, conhecida como a “linha das universidades” por passar por diversas instituições de ensino superior. A previsão inicial era que as primeiras estações saíssem do papel em 2011, mas, entre denúncias na Operação Lava-Jato contra empresas envolvidas na iniciativa e a paralisação das obras durante anos, só agora o primeiro trecho será inaugurado. A exemplo de outras obras de mobilidade no estado, a linha enfrentou um histórico de rescisões contratuais e escândalos de corrupção.
O GLOBO visitou o trecho que será inaugurado e o pátio de manobras, na semana passada, e nem todas as paradas estavam concluídas. Algumas, como a João Paulo I e a Freguesia do Ó, não estavam com piso e iluminação prontos, nem a sinalização devida, e os dutos de ar ainda precisavam ser instalados. Também havia sujeira nas plataformas. O presidente da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), André Isper, garante que tudo estará pronto para a abertura e que elas somente serão liberadas após uma vistoria constatar que estão cumpridas as condições de operabilidade e segurança.
As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.
Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.
— Tem acabamento (para fazer). Nessa próxima semana eles devem trabalhar, mas a estação só é liberada com análise do nosso certificador e pela própria Artesp. Não há liberação de estação sem ela estar em condições de operação. A Artesp não fez a inspeção final ainda — afirmou.
Antecipação da entrega
A linha funcionará inicialmente em operação assistida, com horário reduzido e sem cobrança de tarifa. Neste primeiro momento, serão entregues apenas seis estações, a começar pela João Paulo I, na região da Freguesia do Ó, que terá também outra estação com o nome do bairro. O trecho chegará até Perdizes, na Zona Oeste. O ramal completo, com 15 paradas, só tem previsão de ficar pronto no próximo ano, quando deve atender cerca de 600 mil pessoas por dia e conectar a Brasilândia, no extremo Noroeste da cidade, a São Joaquim, no Centro.
A entrega do primeiro trecho estava prevista para outubro, mas a gestão Tarcísio de Freitas acertou com a Acciona, responsável pela obra, de adiantá-la para esta semana. Com isso, o governador poderá participar da inauguração antes de 4 de julho, prazo máximo definido pela Justiça Eleitoral para que políticos que vão disputar eleições façam eventos do tipo. Outras duas paradas (Brasilândia e Itaberaba) serão inauguradas em outubro. O restante ficará para o ano que vem.
O motivo do atraso foi um “evento geotécnico”, segundo Lúcio Matteucci, diretor da Acciona. Este evento e a consequente mudança nos prazos gerou um aditivo contratual de R$ 3,69 bilhões autorizado pela Artesp em reequilíbrio econômico-financeiro, que se somam aos cerca de R$ 19 bilhões do contrato da obra.
— Foram diferenças encontradas durante a escavação geológica do tipo de solo que acabaram gerando serviços adicionais que não estavam previstos. Essa é a linha mais profunda da cidade. É muito difícil, num estudo prévio, poder captar toda a variabilidade desse tipo de solo. Isso gera um impacto de prazo, e ele tem que ser reajustado — explicou.
A Linha 6 também foi marcada por paralisações devido a descobertas arqueológicas e levantou debates sobre a preservação de bairros historicamente ligados à população negra, já que foi descoberto um sítio arqueológico na estação 14 Bis, com achados que remetem ao Quilombo Saracura.
As obras tiveram de ser interrompidas por diversas vezes entre 2023 e 2025 após determinação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Moradores do bairro se organizaram em prol da mudança de nome da estação (adicionando o termo Saracura, o que foi feito pelo governo e pela concessionária) e de incluir elementos da história do local e da cultura negra na futura estação. Por causa disso, hoje o governo não promete que essa parada, que fica na Bela Vista, será entregue no ano que vem.
Concessões em xeque
A Laranja será a primeira linha do metrô feita totalmente em parceria público-privada (PPP): foi construída pela Acciona e será operada pela Linha Uni, concessionária da empresa. Defensor da concessão de linhas para a iniciativa privada desde o início do mandato, Tarcísio, no entanto, sinalizou ontem que desistiu de privatizar os ramais que hoje operam sob o guarda-chuva da empresa pública Metrô de São Paulo, que tem o governo do estado como controlador.
O governador afirmou que não pretende mais conceder as quatro linhas hoje operadas pelo Metrô (Azul, Verde, Vermelha e Prata) à iniciativa privada e que deseja ampliar a participação da empresa pública na gestão do modal.
Tarcísio disse que negocia para que a Linha 17, que teve uma estação inaugurada ontem e que, pelo contrato, passará a ser gerida pela ViaMobilidade em outubro, seja operada pelo poder público em definitivo. Um contrato firmado em 2018 fixou que a empresa administraria o ramal, mas o governador afirma que seria possível fazer a mudança usando outras quatro linhas que a ViaMobilidade opera. O poder público faria um reequilíbrio econômico-financeiro em outros ramais, com o Estado aplicando os recursos devidos em investimentos nesses outros ramais.
— A capacidade que a gente tem que ter é de mudar de opinião. A gente não concede algo por conceder. Não é aquele negócio de “preciso necessariamente ter a iniciativa privada operando”. A realidade é que o Metrô está operando muito bem e, hoje, a minha tendência é que continue operando essas linhas. Na verdade, o que eu estou pensando é a expansão das linhas operadas pelo Metrô hoje — disse Tarcísio.
O governador citou como justificativa a concentração das concessões em poucos grupos econômicos. Atualmente, duas empresas dominam a maior parte das linhas: a Motiva, por meio da ViaMobilidade e da ViaQuatro, e o Grupo Comporte, com a Trivia Trens e a TIC Trens.
Considerando as entregas das linhas 6 e 17 (Ouro) na gestão Tarcísio, o mapa dos trilhos de São Paulo passará a ter 116 quilômetros de metrô e 393 quilômetros ao todo, se consideradas as linhas de trem. Tarcísio tem exaltado, em seus discursos, que a quantidade de quilômetros em obras é muito maior, citando a extensão da Linha 2 (Verde) e 15 (Prata), mas que não serão entregues até o fim deste mandato.
Apesar disso, a rede de São Paulo fica atrás das de cidades chinesas e da América Latina. Pequim e Xangai têm sistemas de metrô que superam 800 km de extensão, enquanto Londres soma 408 km e Nova York tem quase 400 km Na América Latina, o de Santiago é o maior, com 149 km em operação. Já a rede da Cidade do México tem 226 km. Buenos Aires, por outro lado, tem apenas 56 quilômetros, enquanto Bogotá está construindo sua primeira linha, que deve começar a operar a partir de 2027 .
Seja o primeiro a comentar