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Falta de mão de obra qualificada deve afetar logística e transporte

Valor Econômico – O Brasil precisa qualificar cerca de 14 milhões de profissionais até 2027 para atender à demanda da indústria. O número contempla a necessidade de formação de 2,2 milhões de novos profissionais e de requalificação de 11,8 milhões de trabalhadores que já estão no mercado. Do total estimado, a área de logística e transporte é a que concentra o maior déficit de mão de obra qualificada: deve exigir 474,6 mil currículos para novas vagas – acima do setor de construção (364 mil) e de operação industrial (181 mil).

Os dados são do Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria (ONI), da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O estudo utiliza dados do mercado de trabalho formal, como a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), em 87 setores de atividade, combinados com projeções macroeconômicas e entrevistas com 1.899 companhias.

“Os números refletem tanto a necessidade de formação de novos profissionais quanto a atualização de quem está trabalhando”, analisa Rafael Sousa, gerente do ONI. “A logística passa por uma transformação acelerada, com o maior uso de tecnologias digitais e automação, fatores que tornam a qualificação ainda mais relevante.”

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Para Sousa, o avanço do setor para um modelo de produção mais tecnológico, ou o que o mercado costuma chamar de “logística 5.0”, com a automação de armazéns e o uso de inteligência artificial (IA) no planejamento de rotas, requer um perfil de profissional mais sofisticado. “Além das funções operacionais, cresce a procura por talentos com capacidade analítica, domínio de ferramentas digitais e visão sistêmica da cadeia logística”, assegura.

Para mudar o quadro de escassez de pessoal, a orientação do estudioso é juntar forças na oferta de qualificação. “É primordial a colaboração estreita entre governo, sindicatos, empresas e instituições de ensino”, diz Sousa. “Uma das possibilidades é que as organizações utilizem mais os programas de aprendizagem técnico-profissional, como os do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que forma candidatos com competências alinhadas às demandas do setor.”

Na visão de Pedro Moreira, presidente da Associação Brasileira de Logística (Abralog), que reúne 160 empresas, o desafio não se limita à mão de obra escassa e falta de qualificação. “Há entraves como modelos de gestão pouco atrativos e falta de clareza nos planos de carreira dos funcionários”, aponta. “Isso reduz a atratividade do setor e dificulta a retenção de talentos.”

Moreira lembra que o segmento opera 24 horas por dia e a carência de pessoal não reflui. “Em 2026, estimamos um crescimento de 4% a 7% na demanda por currículos, ante 2025, com uma maior procura por perfis técnicos, analíticos e digitais, o que pode intensificar a tarefa de preencher as posições.”

Na VLI, companhia de soluções logísticas com 8,3 mil funcionários, havia 324 vagas abertas em março deste ano. “Para empresas que atuam na integração de serviços logísticos por meio de ferrovias, portos e terminais intermodais, é um desafio encontrar profissionais tecnicamente qualificados”, afirma Rute Melo Araújo, diretora-executiva de gente, serviços e sustentabilidade da VLI.

Muitas das posições essenciais não têm uma formação acadêmica formal ou largamente disponível no mercado, como maquinista de trem, especialista em operação ferroviária ou gestor de rotinas portuárias, pontua Araújo. “São competências que construímos dentro da empresa, com treinamento e experiência prática”, diz ela, acrescentando que postos não gerenciais podem levar de 30 a 90 dias para serem ocupados.

Em 2025, a VLI contratou 1,2 mil profissionais, sendo 70% para funções operacionais. Em 2026, as admissões serão impulsionadas pela expansão dos negócios e a reposição decorrente do turnover (rotatividade de empregados). Somente a nova missão da companhia como agente transportador de cargas na Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), concessão da mineradora Vale junto ao governo federal, deve demandar a criação de 125 posições, adianta a executiva.

Segundo Fernando Poziomczyk, sócio da Wide Executive Search, de recrutamento para posições de alta e média gestão, o entrave de capturar e reter profissionais de logística no topo do organograma também não é pequeno e o salário pode funcionar como um atrativo.

“Em cargos seniores, é comum que as companhias ofereçam uma remuneração composta de pagamento fixo mensal mais incentivos de curto e longo prazo, como forma de retenção”, detalha Poziomczyk. Segundo ele, dependendo do porte do empregador e do momento do mercado, os honorários para uma posição gerencial costumam girar entre R$ 20 mil e R$ 26 mil, enquanto cargos de diretoria podem valer de R$ 45 mil a R$ 70 mil.

Caio Rodrigues, gerente da Robert Half, de recrutamento de executivos, chama a atenção para a importância das competências comportamentais entre as lideranças do setor. “A capacidade de engajar equipes é uma característica muito valorizada nesse mercado”, destaca. “A logística envolve operações complexas e times numerosos, distribuídos geograficamente, o que exige gestores capazes de mobilizar pessoas.”

Fonte: https://valor.globo.com/publicacoes/especiais/revista-logistica/noticia/2026/04/10/falta-de-mao-de-obra-qualificada-deve-afetar-logistica-e-transporte.ghtml

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