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Rio tem R$ 71,8 bilhões em contratos e recursos públicos sob investigação por corrupção

O Globo – Anáfora, Zargun, Unha e Carne, Ouroboros… Esses são nomes de apenas algumas das 22 operações realizadas no estado do Rio entre 9 de junho de 2025 e 9 de julho de 2026. Levantamento feito pelo GLOBO mostra que as investigações apuram R$ 71,8 bilhões em contratos e recursos públicos sob suspeita de irregularidades em esquemas de corrupção. O montante é suficiente — e com sobra — para executar os 15 projetos prioritários de mobilidade da Região Metropolitana do Rio, estimados em R$ 68 bilhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Ministério das Cidades. Entre eles está uma promessa de décadas: a Linha 3 do metrô, que ligaria a capital a Niterói e São Gonçalo por um trecho sob a Baía de Guanabara. Ao longo dessas operações, a Justiça também bloqueou R$ 122 milhões em bens e valores.

A cifra bilionária também choca ao ser comparada com as despesas estimadas do estado para 2026 (R$ 126,7 bilhões). Representa mais da metade do que, pela lei orçamentária, pode ser gasto com pagamento de todos os servidores, custeio, obras e compras de equipamentos. Além disso, o montante sob suspeita daria para quitar quatro vezes o déficit previsto no orçamento do ano (R$ 18,93 bilhões).

As investigações foram conduzidas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público do Rio, pela Polícia Civil, pelo Ministério Público Federal, pela Controladoria-Geral da União e pelo Tribunal de Contas do Estado. Os alvos incluem políticos, ex-gestores públicos, servidores estaduais e municipais, policiais civis, empresários, organizações sociais da saúde e instituições públicas.

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Sem refino

O maior valor sob apuração aparece na Operação Sem Refino, da PF, que analisa fraudes envolvendo cerca de R$ 50 bilhões e tem como alvos o ex-governador Cláudio Castro (PL) e o empresário Ricardo Magro, dono do grupo Refit.

Na sequência, aparece a sexta fase da Operação Unha e Carne, que apura um esquema estimado em R$ 7,6 bilhões de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis da Região Metropolitana e tem como alvos o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União) e o ex-secretário de Polícia Civil Marcos Amim. Também de grande impacto financeiro está uma fiscalização do TCE-RJ, que apontou irregularidades em aplicações de R$ 6,5 bilhões do governo do estado em empresas privadas.

Também estão na lista a primeira fase da Compliance, que investiga suspeitas de fraudes de R$ 3 bilhões no Rioprevidência; a Operação Antracito, que apura contratos da organização social Prima Qualitá Saúde com recursos do SUS, estimados em R$ 1,6 bilhão; e a quarta fase da Operação Unha e Carne, que teve como alvo o deputado afastado e preso Thiago Rangel (Avante) em um esquema de R$ 1 bilhão envolvendo verbas da Secretaria estadual de Educação (Seeduc).

Em 3 de dezembro de 2025, o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), foi preso ao chegar à sede da PF. Em seu carro oficial, os agentes encontraram R$ 90 mil em espécie. Ele era investigado por suspeita de vazar informações sigilosas da Operação Zargun, que levou à prisão do então deputado TH Jóias, suspeito de ligação com o Comando Vermelho.

A professora de Ciência Política da UFRJ e coordenadora do LAPPCOM, Mayra Goulart, afirma que é preciso diferenciar a troca legítima de apoio político do uso da máquina pública para favorecer grupos no poder.

— É natural que o eleitor recompense com o voto um político cujas políticas públicas melhoraram sua vida. O problema surge quando a máquina pública deixa de servir ao cidadão e passa a fortalecer um projeto político. Isso caracteriza aparelhamento do Estado.

Já o antropólogo Roberto DaMatta explica que a complexidade do setor público dificulta que a população entenda os caminhos que o dinheiro do governo percorre:

— As pessoas têm dificuldade de entender que esse dinheiro (71,8 bilhões) é público. O sistema é muito complexo. Por isso, os cidadãos não entendem onde o dinheiro está sendo aplicado.

Outras operações atingiram diferentes áreas da administração estadual. A Barco de Papel apura irregularidades na relação entre o Rioprevidência e o Banco Master, em um montante de R$ 970 milhões. Já a Anáfora investiga a participação do ex-governador Cláudio Castro (PL) e do ex-prefeito Washington Reis (MDB) em um esquema estimado em R$ 563 milhões de desvio de recursos da Saúde e lavagem de dinheiro para uma organização criminosa — valor suficiente para custear mais de quatro vezes as obras de saneamento no Complexo da Maré, orçadas em R$ 120 milhões.

A lista inclui ainda a Operação Ouroboros, do MPRJ, que apura suspeitas de irregularidades em contratos do Instituto Rio Metrópole (IRM), com prejuízo estimado em R$ 86 milhões. A investigação foi deflagrada após auditorias determinadas pelo governador em exercício, Ricardo Couto; a Apócrifo, da PF e da Polícia Civil, sobre fraudes de R$ 15 milhões em alvarás judiciais; a terceira fase da Operação Fake Agents, em que ex-funcionários da Caixa Econômica Federal são acusados de desvio de R$ 7 milhões; e a Capgras, que apura fraudes de R$ 22 milhões em pensões da UFRJ.

O levantamento também reúne operações contra servidores da Secretaria estadual de Fazenda, com fraudes de R$ 311 milhões; a Oásis, sobre golpes estimados em R$ 110 milhões; a Pague a Conta, que apura prejuízo de R$ 1 milhão em uma lotérica; a terceira fase da Operação Anomalia, contra policiais civis; e uma investigação da Polícia Civil sobre uma vereadora do Rio envolvendo R$ 1,7 milhão.

Procurados, o ex-governador Cláudio Castro, a defesa do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar e o ex-secretário Washington Reis negaram irregularidades. Castro afirmou que não favoreceu a Refit nem recebeu vantagem indevida na Operação Sem Refino e que, na Anáfora, as citações a seu nome dizem respeito a fatos atribuídos a terceiros. A defesa de Bacellar negou obstrução de investigações e qualquer relação do parlamentar com os fatos. Washington Reis afirmou que nunca foi condenado por ato ilícito e que a acusação se refere à doação de um tanque-rede para um projeto da Prefeitura de Caxias. A Refit não se manifestou.

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