A história
das grandes cidades passa pelos seus meios de transportes urbanos. No Rio de
Janeiro, os bondes e as barcas ajudaram a moldar a geografia carioca desde
meados do século XIX, mudando os limites da cidade e levando transporte de
qualidade à população. Hoje, esse legado continua com o VLT, novo sistema de
mobilidade sobre trilhos na Cidade Maravilhosa, e com as barcas que há quase
200 anos fazem o trajeto entre a capital e Niterói.
Na década de
1850, a mobilidade sobre trilhos revolucionava o cenário da então capital do
Império. As trepidantes e intermináveis viagens de charrete e carruagem estavam
sendo substituídas pela rapidez e o conforto dos trens, e a cidade expandia
seus limites para o norte e para o oeste, onde uma paisagem dominada por
chácaras e fazendas começava a se urbanizar aos poucos.
Foi nesse
contexto que surgiram os bondes. Eles foram adotados no início dos anos 1860 –
na época, a tração era animal, com os carros puxados por burros. “O modelo
da estrada de ferro influenciou as linhas de bondes, porque os trilhos
permitiam uma circulação mais simples e eficiente, com mais conforto, mesmo com
tração animal”, diz o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, professor
aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF).
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Com o tempo,
as linhas dos bondes – tanto as mais extensas, ligando o centro da cidade às
zonas norte e sul, quanto as mais curtas, fazendo pequenos trajetos – formaram
uma malha que se estendeu por todo o Rio. Elas também levaram à ocupação de
áreas que eram praticamente intocadas, como o Alto da Boa Vista e a Gávea, e
foram decisivas para o planejamento de novos bairros. Foi o caso de Vila
Isabel, inaugurada em 1872 e projetada com base no acesso dos bondes. “A
ideia do transporte coletivo fazendo a expansão da cidade teve no bonde o seu
elemento fundamental”, diz Cavalcanti.
No fim do
século XIX, chegavam os bondes elétricos, e aí a revolução sobre trilhos se
acelerava. A urbanização de bairros como Copacabana e Ipanema, por exemplo,
teve nos bondes elétricos um fator decisivo. Em Santa Teresa, o bondinho chegou
em 1896, dominando o imaginário dos moradores e dos turistas que visitam a
localidade até os dias de hoje.
Mudanças
culturais também surgiam com base nisso: as mulheres passaram a sair de casa e
andar com mais frequência entre as multidões, enquanto os usuários de
diferentes localidades compartilhavam os meios de transporte e desenvolviam
novas formas de convivência.
Grandes
autores brasileiros escreveram artigos, crônicas e poemas sobre os bondes e as
transformações que causavam. Um deles foi Machado de Assis, um dos maiores
nomes da literatura do país. Em um texto publicado em 1883, ele elaborou um
“manual de etiqueta”, cheio de ironia e bom humor, em que fazia
sugestões de bons modos às pessoas que usavam os serviços, desde dicas para
disposição das pernas até a maneira correta de tossir e pigarrear no coletivo.
Retomada de
uma tradição
Em 1924, o
Rio tinha 641 bondes elétricos e 93 de carga, convivendo ainda com os bondes
puxados a burro, que sobreviveram, em alguns pontos da cidade, até quase o fim
dessa década. Até 1963, quando a Light entregou ao Estado da Guanabara todo o
serviço de carris urbanos, a capital contava com uma malha eletrificada de 400
km, distribuídas ao longo de 67 linhas.
“O
bonde foi por muitas décadas considerado como um símbolo da cidade litorânea,
um espaço onde tudo podia acontecer”, afirma Djadjingu Quaresma Cardoso
Pimentel Neto, analista de patrimônio histórico da Light, empresa que
administrou os bondes do Rio. “Durante esse tempo, ele era o transporte
coletivo por excelência, que permitia a qualquer pessoa se locomover de qualquer
ponto da cidade.”
Na década de
1950, no entanto, os bondes começaram a cair em desuso. O Brasil começava a
implementar sua indústria automobilística, e o transporte sobre trilhos dava
lugar aos ônibus. Nesse contexto, com o congestionamento cada vez maior nos centros
urbanos, os bondes eram vistos como lentos, atravancando a mobilidade. Na
capital fluminense, os serviços foram extintos no fim da década de 1960.
Agora, com a
busca por uma mobilidade mais eficiente e sustentável, o transporte urbano
sobre trilhos volta a ter uma opção na região central do Rio. O VLT Carioca,
inaugurado em junho de 2016 – 120 anos depois da inauguração do bondinho de
Santa Teresa -, é um herdeiro dos antigos bondes, guardando semelhanças com
seus “antepassados”.
Pimentel
Neto, da Light, vê o VLT como uma retomada desse legado. Uma das principais
semelhanças entre os bondes antigos e o novo sistema, para ele, é o trajeto.
“Durante as obras do VLT, foram encontrados trilhos dos antigos bondes. Em
alguns pontos, ele vai fazer o mesmo caminho feito 160 anos atrás”,
afirma.
O diretor de
Operações do VLT Carioca, Paulo Ferreira, concorda que o modelo atual é
“descendente” dos bondes, mas ele vê diferenças importantes em termos
de operação e tecnologia. O VLT é controlado eletronicamente, possui sistemas
modernos de segurança e não conta com catenárias (fiação aérea). “Hoje em
dia há também uma quantidade maior de pessoas, veículos e interferências em
geral nas ruas”, afirma.
Ferreira
sabe que, até chegar ao alcance que os bondes tiveram em seu auge, há um
caminho longo a percorrer. “Mas acreditamos que a entrega e a percepção de um
bom serviço são fundamentais para a consolidação a longo prazo. Hoje, temos uma
resposta positiva do usuário, com índice de aprovação de 92%”, diz o diretor do
VLT Carioca.
Barcas: 180
anos de mobilidade
Outro
sistema de transporte de massa que se mantém vivo no Rio são as barcas que
fazem há quase 200 anos o transporte entre a capital e Niterói. O primeiro
serviço regular de navegação entre a antiga Corte Imperial e a cidade vizinha
foi inaugurado em 14 de outubro de 1835, se tornando o mais importante meio de
transporte do Rio no século XIX. Ele teve papel fundamental na expansão de
Niterói, São Gonçalo e outras localidades, e foi a única opção viável de deslocamento
para muitos trabalhadores até a inauguração da Ponte Rio-Niterói, em 1974.
Nesses mais
de 180 anos, diversas embarcações foram utilizadas, cada uma sendo um exemplo
das novidades tecnológicas de sua época. Os primeiros barcos, movidos a vapor e
com rodas laterais externas, deram lugar a embarcações com hélices. Mais tarde,
elas foram substituídas por lanchas de motores a gasolina, no lugar das
fornalhas de carvão. Outros modelos fizeram parte dessa evolução, até a entrada
em operação, em 2015, do catamarã US 2.000 e da barca Inace 500.
Desde 2012,
o serviço conta com melhorias implementadas pela CCR Barcas, empresa que
adquiriu a concessão do transporte. Entre elas, estão o reforço da frota com
quatro embarcações modernas, obras de manutenção e reforma de infraestrutura, a
inauguração de novas estações – como a Praça Arariboia, em outubro de 2013 – e
a adoção de novos sistemas, como o Headway, que gerencia os intervalos entre
viagens e dá informações mais precisas sobre os tempos de partidas aos passageiros.
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