O investidor voltou com tudo para as
ações do setor de commodities. Com a alta dos preços das commodities e do
dólar, que representa ganho para empresas com receitas na moeda, gigantes como
a Vale e a Petrobra s sustentaram novos ganhos ontem – e levaram o Ibovespa
mais uma vez ao nível dos 86 mil pontos.
Juntas, Petrobras e Vale responderam por
35% do giro do índice no dia, de R$ 9,75 bilhões. A ação ordinária da estatal
encerrou em alta de 2,33%, enquanto a preferencial avançou 2,24%; a Vale subiu
2,29%. O movimento impulsionou o Ibovespa, que avançou 1,65%, aos 86.537
pontos. A oscilação foi destaque inclusive ante o exterior, onde as bolsas
americanas em alta forneceram alívio aos negócios, mas com variações bem mais
modestas do que o mercado local.
Apesar da trégua, a pressão cambial não
acabou e, num momento em que o dólar já se aproxima dos R$ 3,70, os riscos
persistem, em uma análise mais ampla. Isso porque, embora a bolsa fique mais
barata para o estrangeiro, há limites para esse bom humor: a alta do dólar
representa riscos para a inflação e para a retomada da atividade brasileira.
“Aparentemente, por ora, é um patamar de câmbio que dá para suportar, mas
há limites para a leitura de que o BC [Banco Central] não terá que atuar no
mercado”, afirma Vladimir Caramaschi, estrategista-chefe da Indosuez
Wealth Management.
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Entretanto, se de um lado os riscos
cambiais inspiram cautela, de outro os investidores se veem mais estimulados a
negociar commodities e empresa exportadoras do que companhias expostas ao
ambiente doméstico – e isso concentra o interesse justamente nas gigantes da
bolsa. Internamente, a falta de catalisadores e notícias desfavorece o aumento
da exposição em ações voltadas para a economia brasileira, que vem se
recuperando a passos lentos. Ontem, o Índice de Atividade Econômica do Banco
Central (IBC-Br) confirmou o cenário incerto: fechou o primeiro trimestre em
queda de 0,13%; em março, a retração foi de 0,74%, acima da expectativa média
do mercado, de recuo de 0,2%.
No caso de Petrobras, além das
commodities e do dólar, o investidor continua altamente pautado pela
perspectiva de revisão do contrato de cessão onerosa junto à União, que pode
destravar valor à estatal. Ao Valor, o ministro do Planejamento, Esteves
Colnago, afirmou que as discussões sobre o tema avançaram e já há um grau de
maturidade suficiente para discutir um acordo.
O setor de commodities já tem
valorização bastante superior à do próprio índice no ano, nota o Credit Suisse.
Em 2018, o segmento de mineração acumula ganho de 21,9% e o de siderurgia
avança 34,9%; já companhias de óleo e gás têm valorização de 66,5%, enquanto
papel e celulose, na liderança, sobe 68,7% no ano. Até ontem, o Ibovespa
acumulava alta de 13,27%. Do outro lado, construtoras estão entre os piores
desempenhos do ano, com baixa de 12,8% em 2018, além do setor de consumo, com
recuo de 7,1%.
Gestores e operadores reafirmam que isso
não significa que o investidor está saindo de ações ligadas aos cíclicos
domésticos, mas buscando as opções mais rentáveis e, ao mesmo tempo, com certo
grau de proteção. O tombo recente de setores ligados à economia doméstica, caso
de varejistas e companhias do setor de educação, permitiu até uma recuperação
forte ontem de Estácio (10%), Via Varejo (7,07%) e Magazine Luiza (5,39%).
“Até agora, a preocupação com o
efeito sobre a inflação é menor porque os preços estão comportados, ao menos no
curto prazo”, diz Caramaschi. “Mas a alta mais forte do dólar
representa um quadro hostil aos emergentes, especialmente latino-americanos,
porque aumenta o risco para quem quer entrar nesses mercados e não tem clareza
até onde a cotação vai”.
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