Na maior operação financeira de um grupo envolvido na Lava-Jato depois do início das investigações, a Andrade Gutierrez Participações emitiu R$ 1,6 bilhão em debêntures simples e conseguiu uma folga no caixa, duramente castigado pela queda de dois dígitos nas receitas em 2016.
Com prazo de seis anos, as debêntures têm custo de 136,9% do CDI e foram compradas majoritariamente pelo Bradesco, que coordenou a emissão. O Banco do Brasil também participou. Ambos podem distribuir a terceiros.
Para viabilizar o negócio, a Andrade Gutierrez deu como garantia o dobro do valor em ações que detém na CCR, empresa de infraestrutura com ampla carteira de rodovias e aeroportos no Brasil e no exterior. Além disso, foi dado aval corporativo da AGSA à operação.
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A captação permite ao grupo reestruturar seus passivos, com o pagamento antecipado de dívidas com prazos mais curtos, incluindo um compromisso da holding que venceria em dezembro.
Essa engenharia financeira ocorre em um momento de incertezas para o futuro da Andrade Gutierrez, que fechou acordo leniência pelo qual se compromete a desembolsar R$ 1 bilhão em multas. A empreiteira não celebra um contrato para obras com o setor público desde 2014 e fechou o ano passado com queda no faturamento acima de 20%, segundo fontes do mercado – ela não confirma o número, que ainda não é público.
Para Gustavo Coutinho, diretor financeiro da AG Engenharia e um dos executivos responsáveis pela operação, as debêntures são um voto de confiança dos investidores. Ele nota que os bonds da subsidiária com vencimento em 2018 tiveram alta acumulada superior a 30% em 12 meses. “O mercado ainda acredita na gente”, afirma Coutinho. “Se você tiver as garantias adequadas, há espaço para emissões por empresas de infraestrutura e engenharia.”
Com o dinheiro, a Andrade Gutierrez pretende agir em três frentes. Uma é o resgate antecipado de debêntures com prazo de dez anos, lançadas em 2012. Boa parte dos papéis ficou com fundos de pensão – entre eles a Previ. Mas o vencimento dessas debêntures pode ser declarado antecipado, o que daria direito aos donos dos papéis de receber imediatamente o pagamento integral. Em 30 de setembro, a agência de risco de crédito Standard & Poor’s rebaixou a classificação da emissão de 2012 de “brA-” para “brBBB-“. O contrato previa pagamento imediato aos credores nesse cenário.
A Andrade Gutierrez tenta renegociar as condições dos papéis antigos. A proposta aos credores prevê a perspectiva de resgate (que será possível com a nova emissão) ou as ações da Cemig em penhor, ao fim de julho, caso aceitem não declarar o vencimento imediato.
O custo daquelas debêntures já havia subido de IPCA mais 6,20% para 9,80% ao ano, corria o risco de aumentar novamente e a Andrade Gutierrez decidiu usar parte dos recursos para liquidar a fatura de uma vez. Cerca de R$ 550 milhões terão essa destinação. Outros R$ 600 milhões permitirão, na prática, o alongamento da dívida da AGSA que venceria em dezembro.
Mais R$ 400 milhões, aproximadamente, resolverão compromissos da AG Concessões. O restante ajudará a reduzir a alavancagem nas demais empresas do grupo.
De acordo com Coutinho, o maior ganho com a captação não será tanto em termos de custo, mas de prazo. “Ficaremos sem nenhum passivo para liquidar neste ano”, ressalta. As novas debêntures vão ter 30% de amortização ao fim do quarto ano, 30% ao fim do quinto ano e os 40% restantes no sexto ano, em 2023.
Apesar das dificuldades com o setor público, a empreiteira tem conseguido engordar sua carteira com a iniciativa privada e fechou contratos em torno de R$ 4 bilhões no último trimestre de 2016. O maior deles é com a Equatorial, que arrematou uma série de linhas de transmissão de energia leiloadas em outubro.
Também foram assinados contratos para a execução de obras na SP-255, rodovia administrada pela CCR em São Paulo, e para a duplicação da pista do aeroporto de Dundo, em Angola. Não há financiamento do BNDES.
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