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Obra parada do Metrô degrada áreas e cria quarteirões fantasmas em SP

A paralisação de obras do metrô espalhou quarteirões
fantasmas pela capital paulista. Parte dos quase 600 imóveis esvaziados para a
construção de futuras estações está tomada por lixo, pichação e usuários de
drogas.

Tanto o governo Geraldo Alckmin (PSDB) como o consórcio
responsável por uma das linhas alega falta de verba para as obras.

Por exemplo, há alguns anos, quem passasse pela área onde
será construída a estação Água Rasa (zona leste), da linha 2-verde, veria
pessoas nas calçadas e um comércio movimentado. Agora, o cenário é de casas
abandonadas, pichadas e mato nas calçadas.

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A parte dos imóveis que foi demolida virou um terreno
baldio. O muro que cercava o local foi destruído e, do lado de dentro, é
possível ver um sofá e restos de fogueira em meio a toneladas de entulho.

Nos estudos sobre segurança pública, a famosa teoria das
“janelas quebradas” prega que a degradação urbana e os índices de
criminalidade aumentam em áreas com aparência de abandono.

Moradores da Água Rasa já sentem os efeitos dessa mudança. À
noite, dizem, o pedaço é tomado por usuários de drogas e criminosos.

“Não dá mais para passar aí a pé quando escurece, é um
breu, um deserto”, diz o dono de uma loja de óleo para veículos, Francisco
Ramos, 69, há mais de 20 anos no local. “Vários clientes deixaram de vir
aqui”, afirma.

Sem verba, governo estadual e empresas paralisaram a
construção de parte importante das novas linhas da cidade. O prolongamento da
linha 2-verde até Guarulhos foi suspenso no início do ano até dezembro.

Atualmente, a linha liga a Vila Madalena à Vila Prudente.

Também as obras da futura linha 6-laranja, que ligará a
Brasilândia (zona norte) à Liberdade (centro), foram prejudicadas. Em setembro,
o consórcio Move SP – composto pelas empresas Odebrecht Transport, Queiroz
Galvão, UTC Engenharia e pelo fundo Eco Realty, contratado pelo governo para
construir e operar a linha em regime de PPP- anunciou congelamento dos
trabalhos.

Inicialmente prevista para 2020, não há mais data para
início da operação da linha.

Para as obras nas duas linhas, já foram esvaziados 598
imóveis. A reportagem esteve nas áreas de futuras estações nas zonas leste,
oeste e norte e constatou que o descompasso entre o esvaziamento das
construções e o início das obras gerou efeitos colaterais.

Nos quarteirões desapropriados, além da falta de segurança,
a vizinhança diz que os imóveis são invadidos por pessoas em busca de materiais
para ferros-velhos e também são usados para o despejo irregular de entulho.

DESPEJADOS

Na Brasilândia (zona norte), onde será construída uma
estação da linha 6-laranja, os tapumes se estendem por quatro quarteirões ao
longo da estrada do Sabão. O terreno cercado sem operários causa indignação em
moradores que tiveram suas casas demolidas e hoje vivem de aluguel.

Nascida em Mossoró (RN), a dona de casa Antonia Zuza, 49,
chegou na década de 1990 ao bairro com a família. Ela e o marido juntaram
dinheiro e ergueram uma casa nos fundos do terreno do cunhado.

“Achei que nunca mais iria voltar ao aluguel. Hoje,
estou pagando R$ 800 para morar com a minha família”. Como o terreno não
era dela, não receberá pela desapropriação.

Os proprietários dos terrenos que conversaram com a
reportagem afirmam que, mesmo tendo entregue as casas, o dinheiro da
desapropriação continua barrado por pendências judiciais.

“Morávamos há 50 anos naquela casa. Eles deram uma data
e tivemos que sair sem nada”, diz a dona de casa Claudete Souza, 66, que
hoje paga R$ 1.000 de aluguel numa casa perto da antiga. “Ficamos sem casa
e não vamos ver esse metrô pronto.”

SAQUES E DENGUE

As centenas de casas e terrenos desapropriados para a
expansão do metrô viraram cenário de garimpo urbano, depósito de entulho e
também possível criadouro de mosquitos da dengue.

Os moradores dos arredores da futura estação Sesc Pompeia,
da linha 6-laranja, contam que já presenciaram vários casos invasões de imóveis
vazios em busca de materiais recicláveis.

“Eles entram para pegar qualquer coisa que possam
vender: fios, móveis, ferro”, diz o o comerciante Luís Antonio Cardoso,
59.

Ele mora bem ao lado de uma das casas desapropriadas.
“Um cara deu três passos e subiu no muro da casa vizinha à minha. Bem na
minha frente. Depois passou pelo meio da grade.”

De madrugada, diz ele, o barulho dos catadores de
recicláveis era tamanho que era difícil dormir. Cardoso diz que reclamações ao
consórcio responsável causaram o reforço da vigilância no local, com rondas
mais frequentes.

“Mas a situação continua ruim, porque ficamos
vulneráveis e sem prazo para isso se resolver. Os tapumes pichados chamam a
atenção, o mato cresce”, diz.

Nos lugares em que as casas já foram demolidas, o principal
problema relatado é o depósito de entulho.

O muro que cercava um grande terreno da futura estação Água
Rasa da linha 2-verde, na zona leste, foi destruído. “Jogam de tudo
aí”, diz Rafael Felipe, 30, proprietário de uma loja de tintas nos
arredores do canteiro de obras.

Ele diz que a situação gera preocupação com questões de
saúde. “Isso aí é um perigo para dengue.”

Característica comum entre os locais visitados pela Folha é
a proliferação de pichações nos locais desapropriados.

“Mudou muito aqui. Isso aí que você está vendo na
frente era um açougue, tudo bonitinho. E olha agora como está”, diz a
comerciante Margarida de Almeida, 72, apontando para um imóvel pichado. O local
está reservado para as obras da estação Nova Manchester, da linha 2-verde.

Preocupado com a perda da identidade da Brasilândia (zona
norte), onde será construída uma estação da linha 6-laranja, o professor James
Pereira, 55, diz que resolveu registrar o antes e depois das obras por meio de
fotos. “Fica como documento histórico.”

OUTRO LADO

O Metrô de SP afirma fazer vigilância dos imóveis
desapropriados e promete limpar os locais com entulho.

A companhia ligada ao governo de SP afirma ter tomado posse
de 227 imóveis para as obras de prolongamento da linha 2-verde, dos quais 50
foram demolidos. Uma empresa terminará a demolição dos imóveis nas áreas
reservadas para as estações da linha.

Segundo o Metrô, está em análise um edital para contratação
de empresa para “a manutenção e limpeza dos terrenos, como a retirada dos
entulhos, sanificação das áreas e fechamento com grades, além da reconstrução
de suas respectivas calçadas”.

A companhia diz manter vigilância “ostensiva motorizada
em toda a extensão da linha durante 24 horas por dia”. Segundo nota
enviada à Folha, quatro vigilantes se revezam em dois turnos. Em caso de
ocorrência nos terrenos, diz, a PM é chamada.

Os contratos das obras da linha 2-verde estão suspensos até
dezembro “em decorrência da não liberação de limite pela União de um
financiamento de R$ 2,5 bilhões via BNDES”. Por isso, não há previsão de
início dos trabalhos.

No caso da linha 6-laranja, a concessionária Move São Paulo
paralisou as obras por não conseguir financiamento de longo prazo.

O governo notificou a empresa para que volte às obras, sob
risco de penalidade, e tenta financiamento federal.

A linha prevê desapropriação de 371 imóveis privados, dos
quais 344 já estão em posse da concessionária. Segundo o Metrô, as áreas são
fiscalizadas pelo governo e, em caso de irregularidade, a Move SP pode ser
multada.

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