A qualidade do transporte público e o tempo gasto nos
deslocamentos diários incomodam o paulistano, que tem aprovado cada vez mais
medidas como a criação de corredores de ônibus e as ciclovias. No entanto,
deixar o carro na garagem ainda é mais uma aspiração do que realidade para a
maior parte das pessoas que utilizam o transporte individual como principal forma
de locomoção na cidade: 34% dos paulistanos afirmam utilizar o carro como meio
de transporte todos os dias, mesmo que de carona ou táxi. Há um ano, esse
percentual era de 32%, o que sugere que a adesão não se alterou de forma
significativa.
Os dados fazem parte da 10ª edição da pesquisa sobre
percepções do paulistano, realizada pelo Ibope Inteligência e a Rede Nossa São
Paulo. Foram entrevistados 602 moradores da cidade de São Paulo com 16 anos ou
mais, entre os dias 23 de agosto e 1 de setembro. O levantamento, apresentado
na semana passada em São Paulo, foi tema de dois debates na Conferência Ethos
360.
Entre os usuários de automóvel, 49% afirmaram que utilizaram
o carro com menor frequência nos últimos 12 meses, 27% afirmaram
que usam com frequência igual e 22% com maior
frequência. E ainda 51% dos entrevistados afirmaram que com
certeza deixariam de utilizar o carro se tivessem melhor
alternativa de transporte. No ano passado, esse percentual era de 52%.
Quando o paulistano diz que está deixando mais o carro em casa, na
verdade isso reflete mais um desejo de fazê-lo do que a realidade. Estamos
dopados por essa cultura, diz Carlos Aranha, consultor da Rede Nossa São
Paulo. Segundo a pesquisa, 60% dos moradores da cidade afirmam ter carro em
casa.
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Entre os moradores da cidade, romper com a cultura do
transporte individual motorizado ainda é uma barreira difícil de ser
transposta, embora o estudo mostre que aumenta a aprovação da população a
medidas como o aumento da malha cicloviária e dos corredores de ônibus. Se em
2015, 59% apoiavam a construção de mais ciclovias e ciclofaixas, em 2016 o
número subiu para 68% dos entrevistados. E 92% dos paulistanos (ante 90% em
2015) apoiam a construção de mais corredores ou faixas de ônibus. Entre os
usuários frequentes de carros, a aprovação é de 90%.
No entanto, o nível de satisfação do paulistano com os
aspectos ligados à locomoção na cidade é mediano. A satisfação com o transporte
público (ônibus, metrô, trem) de maneira geral é de 5,1 pontos, em uma escala
que vai de 1 a 10 – quanto menor o número, maior a insatisfação. O item de
maior pontuação na pesquisa foi a quantidade de faixas de pedestres, com 5,5
pontos, e os menores índices de contentamento foram com a situação geral do
trânsito (3,2 pontos) e controle da poluição do ar (3,5 pontos). A
qualidade do ar, aliás, é apontada como o tipo de problema mais grave na cidade
por 64% dos paulistanos, afirma Márcia Cavallari, CEO do Ibope
Inteligência. O mesmo percentual de pessoas, 64%, afirmou que já tiveram
problemas de saúde no domicílio relacionados a isso.
De carro ou transporte público, gasta-se muito tempo nos
deslocamentos diários em São Paulo, o que alimenta a insatisfação da população.
Segundo a pesquisa, 33% dos paulistanos gastam entre uma hora e duas horas no
trânsito para realizar suas atividades principais (trabalho ou estudo); e 17%
dos moradores da cidade gastam entre duas e três horas em seus deslocamentos.
Interconectar diferentes modais é um dos caminhos para reduzir o tempo médio
dos deslocamentos e para que um maior número de pessoas passe a utilizar o
transporte coletivo, na avaliação de Diego Conti, professor da Fundação
Instituto de Administração (FIA) e da Fundação Instituto de Pesquisas
Econômicas (Fipe).
Na prática, já existem opções conectando metrôs a trens,
ônibus e bicicletas, mas é preciso desenhar mais alternativas. O rio
Tietê, por exemplo, poderia ter balsas transportando pessoas, diz o
professor. Conti aponta soluções que podem ser viáveis: o adensamento dos bairros,
aproximando moradia dos locais de trabalho e o uso de carros compartilhados (o
Rio de Janeiro será a primeira cidade a ter um projeto do tipo).
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