Os fundos de debêntures de infraestrutura vêm apresentando rendimentos superiores às carteiras de crédito, que também investem em títulos privados, aponta levantamento realizado pela Luz Soluções Financeiras. No período de 13 de novembro de 2015 a 5 de fevereiro deste ano, enquanto a rentabilidade média dos fundos de debêntures incentivadas ficou em 15,93% ao ano, a dos fundos de crédito privado foi de 13,86% ao ano. No entanto, essa comparação não é totalmente justa, já que os primeiros não pagam imposto. Para compará-los mais apropriadamente com os fundos de crédito privado, é necessário incluir o imposto e comparar os rendimentos brutos. Se a alíquota de IR for de 17,5% (para aplicações de 361 dias a 720 dias), a rentabilidade dos primeiros sobe para 19,3% ao ano.
Para o estudo, foram levados em conta seis fundos de debêntures incentivadas, que totalizavam patrimônio de R$ 248 milhões. A pequena amostra é fruto da vida ainda curta da maioria desses produtos. Já a amostra dos fundos de crédito privado é bem mais robusta, com patrimônio de R$ 89,9 bilhões e 81 produtos.
Os rendimentos mais polpudos, no entanto, vieram acompanhados de uma oscilação superior. Enquanto a volatilidade média dos fundos de crédito ficou em 0,57% no período analisado, a das carteiras de debêntures de infraestrutura foi de 2,69%.
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De acordo com a Lei 12.431/11, que criou as debêntures incentivadas, os papéis podem ser prefixados em juros nominais ou juros reais (que pagam a correção pela inflação, geralmente dada pelo IPCA, acrescida de uma taxa de juros). A última opção foi a escolhida pela maior parte dos emissores. O valor dos títulos oscila bastante em função de mudanças nas taxas de juros e dos índices de preços. Essa característica faz com que o produto atraia principalmente os investidores de maior patrimônio, que podem suportar perdas temporárias.
Fausto Silva Filho, gestor de renda fixa da XP Gestão de Recursos, diz que a volatilidade dos juros e a política monetária errática trouxeram muita volatilidade aos fundos do tipo, afastando alguns investidores. A casa tem dois fundos de debêntures de infraestrutura. O XP Debêntures Incentivadas recebe aportes a partir de R$ 10 mil. Lançado em abril de 2014, seu patrimônio está em R$ 58 milhões.
Para atrair os investidores acostumados a aplicar em Letras de Crédito Agrícola (LCAs) e Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) – cuja remuneração acompanha o CDI -, a gestora lançou outro fundo, o XP Debêntures Incentivadas Hedge, que utiliza derivativos (swap de taxas) para entregar o retorno em CDIs. Enquanto a volatilidade do primeiro ficou em 4,5% nos últimos 12 meses, a do segundo foi de 1,76%. Lançada em agosto do ano passado, a carteira alcança patrimônio de R$ 17 milhões. “Esperávamos que a captação desse produto fosse mais rápida”, diz Filho.
“A oscilação das cotas pode ser grande, pois os títulos são de longo prazo. Nas LCAs e LCIs, o investidor não percebe a volatilidade. No fundo, há a marcação a mercado das cotas”, diz Richard Ziliotto, sócio da gestora de patrimônio Taler. Para ele, as debêntures de infraestrutura são uma classe interessante de ativos, mas ainda precisam ser dadas mais condições para que o número de emissores aumente. Por isso, ele ainda não recomendou o produto para os investidores.
A oscilação nas cotas, em função das variações nos juros e índices de preços, é amplificada pela característica de longo prazo das debêntures de infraestrutura. Por conta disso, os fundos do tipo não contam com liquidez diária, como a maioria dos fundos de crédito. As carteiras da Brasil Plural e da Fator Administração de Recursos (FAR), por exemplo, optaram por resgates em 30 dias – o investidor pede o resgate e recebe o dinheiro 30 dias depois.
Apesar do retorno atrativo, conforme mostra a pesquisa da Luz, e da liquidez considerada boa das carteiras a categoria enfrenta ainda as limitações de ofertas e o crescimento do risco de crédito para as empresas, o que torna ainda mais restrita a lista de opções de títulos para investimento.
No ano passado, lembra Patrícia Pimenta, gestora responsável pelos fundos de crédito privado da Bradesco Asset Management (Bram), os títulos de grandes emissores não foram interessantes, pois os prêmios foram insuficientes para remunerar o investidor, que paga a taxa de administração dos fundos. “Faz mais sentido investir em debêntures com características de projeto, nas quais o gestor vai contribuir com sua expertise em análise de crédito e vai selecionar papéis que paguem rendimentos mais altos”, considera ela. No entanto, o mercado para os títulos e emissores mais arriscados esteve mais arisco no ano passado. Os gestores são unânimes em afirmar que, para que mais emissões cheguem a mercado, é necessário que o país tenha um cenário de longo prazo mais estável.
Vale lembrar que o governo voltou atrás no projeto de retirar a isenção do IR de produtos como as debêntures incentivadas, LCAs e LCIs. No início da semana, anunciou medidas para facilitar a qualificação dos projetos de infraestrutura que podem emitir os papéis. As medidas foram bem recebidas no mercado, mas há um consenso de que a situação macroeconômica precisa ser encaminhada pelo governo para as emissões ganharem força.
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