Diante das cinco altas seguidas na produção de bens de capital e da retomada da confiança empresarial, economistas avaliam que o investimento é outro componente da atividade que pode ter atingido seu fundo do poço. Algumas instituições preveem leve alta para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas, construção civil e pesquisa) já no segundo trimestre, trajetória que interromperia as dez quedas trimestrais consecutivas do indicador.
O tombo acumulado pela FBCF supera 26% desde o último trimestre de 2013, retração que, para especialistas, aponta que empresas deixaram até mesmo de substituir máquinas e equipamentos já obsoletos. Por isso, o aumento de 9% na fabricação de bens de capital nos últimos cinco meses seria um sinal que, finalmente, projetos inadiáveis estão começando a sair da gaveta, motivados pelo ganho de confiança.
Em junho, o Índice de Confiança da Indústria (ICI) subiu para 83,4 pontos, maior nível da série da Fundação Getúlio Vargas (FGV) desde fevereiro do ano passado.
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Apesar disso, 2016 deve se encerrar com outra redução forte da formação de capital fixo, entre 7% e 10%, segundo as estimativas dos analistas ouvidos. Em 2015, a FCBF diminuiu 14,1%, depois de encolher 4,5% em 2014.
Para o Bradesco, a formação bruta subiu 0,5% entre o primeiro e o segundo trimestres, movimento que ainda equivale a recuo de 10% sobre o segundo trimestre de 2015. “Caso a retomada da confiança persista até o fim de 2016, acreditamos que os investimentos deverão mostrar estabilização na comparação anual já no quarto trimestre”, afirma a economista Ariana Stephanie Zerbinatti.
Segundo Ariana, várias informações indicam alguma reação da FBCF nos próximos trimestres, como a rápida elevação da confiança do empresário industrial desde o início do ano, a expansão da produção de bens de capital e alguma retomada do volume importado de bens intermediários. “Somam-se a esses sinais positivos a expectativa de redução da taxa básica de juros no próximo semestre, que também deverá impulsionar o aumento dos investimentos à frente, bem como a apreciação real da taxa de câmbio”, afirma ela.
Nos cálculos da Tendências Consultoria, o consumo aparente de bens de capital, que funciona como um termômetro para o comportamento do investimento dentro do PIB, aumentou 8,4% em março e 1,9% em abril, ante o mês anterior, feitos os ajustes sazonais. Esse indicador soma a produção nacional e a importação de bens de capital, excluindo a exportação desses itens.
O avanço da demanda doméstica por máquinas e equipamentos é uma surpresa positiva que indica resultado um pouco melhor que o esperado para o investimento no segundo trimestre, diz a economista Alessandra Ribeiro. A previsão atual da consultoria, de recuo de cerca de 3% para a FBCF entre abril e junho, será revista para cima, e a economista não descarta expansão no período, ainda que próxima de zero.
Em sua avaliação, a estabilização está relacionada principalmente à confiança empresarial mais elevada, que, por sua vez, foi influenciada pela mudança de governo. Com a indefinição no cenário político, afirma Alessandra, as empresas não estavam fazendo nem o mínimo de investimento necessário para repor máquinas e equipamentos velhos. Após a redução das incertezas, são esses projetos que não podiam mais ser adiados que estão começando a sair da gaveta.
Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da JGP Gestão de Recursos, tem a mesma percepção sobre o efeito da alteração do governo na confiança e, consequentemente, no investimento. “Podemos questionar se vai dar certo ou não, mas hoje temos um plano exposto do governo que inclui ajuste de despesas”, diz Rocha, para quem a FBCF avançou 2% no segundo trimestre.
O economista pondera, no entanto, que a alta prevista para os próximos meses e mesmo a expansão de 2,5% da FBCF projetada para 2017 não serão suficientes para elevar o estoque de capital da economia brasileira. Os investimentos nesse período, em sua visão, serão mais destinados a repor a depreciação de bens de capital do que a expandir a capacidade produtiva. “Um aumento na taxa de investimento só deve ocorrer a partir de 2018.”
Com a forte contração dos investimentos nos últimos dois anos, houve redução da capacidade produtiva no país, afirma Rodrigo Miyamoto, do Itaú Unibanco. Por isso, é natural que a formação bruta seja um dos primeiros componentes do PIB a sinalizar estabilização, o que deve ocorrer já neste segundo trimestre, devido à retomada cíclica que ocorre na indústria.
No cenário do Itaú, o desempenho da FCBF deve ficar entre ligeira queda e estabilidade nos três meses encerrados em junho. Os sinais de alta da formação bruta são ainda incipientes, observa Miyamoto, e uma recuperação mais consistente está condicionada à aprovação das medidas fiscais. Somente com melhora da situação fiscal o Banco Central terá condições de começar a reduzir os juros no segundo semestre, diz o economista.
A capacidade ociosa nas fábricas é outro fator que impede avanço expressivo dos investimentos na economia ainda em 2016, afirma André Muller, economista da AZ Quest. Segundo medição da FGV, o nível de utilização da capacidade instalada subiu 0,1 ponto entre maio e junho, para 73,9%, patamar ainda bastante baixo.
Para Muller, as chances de expansão da FBCF já no segundo trimestre são pequenas, mas esse indicador está se aproximando de seu ponto mínimo.A retração do investimento a ser observada de abril a junho será mais fraca do que a ocorrida no primeiro trimestre, de 2,7%, estima ele. Se o aumento da confiança persistir no segundo semestre, o investimento pode voltar a crescer, diz.
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