Um raio atinge um trem-bala, que descarrila, provocando a morte de 40 pessoas e deixando 191 feridas. Essa foi a versão apresentada rapidamente pelas autoridades chinesas para o acidente na província de Zhejiang, no dia 23 de julho: um fenômeno natural provocou a tragédia e caso encerrado. Ou melhor, enterrado. O primeiro vagão da composição, com todos os instrumentos que comandam e registram a operação do veículo (como o tacógrafo), foi enterrado imediatamente depois do desastre. Ali mesmo, ao lado do viaduto de onde caiu.
O repórter japonês Atsuki Okudera, correspondente do jornal Asahi, viu toda a cena e noticiou. Em um texto publicado na versão em inglês do Asahi.com na terça-feira (2), ele fala de como foi essa cobertura, do espanto que teve ao se dar conta de que a principal prova para uma investigação sobre as causas do acidente foi colocada dentro de um buraco de quatro a cinco metros de profundidade, seis a sete de comprimento e 20 de largura. O enterro aconteceu sem que nenhum policial, perito, técnico etc. tivesse trabalhado sobre os destroços.
Okudera não noticiou o acidente simplesmente. O enterro do vagão – o carro D301, produzido por uma empresa chinesa usando tecnologia japonesa comprada da Kawasaki Heavy Industries Ltd. – tomou as manchetes no Japão. O fato chegou à China pela internet. Usuários do Weibo (um Twitter chinês) compartilharam links do Asahi e outros veículos estrangeiros.
“Aparentemente impulsionados pelas críticas, as autoridades começaram a desenterrar os restos do vagão. O governo formou um grupo especial de investigação para o acidente.
Em geral, a liberdade de imprensa não existe na China, sob o regime de monopólio do Partido Comunista Chinês, e é difícil critica o governo.
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Contudo, em relação ao último acidente, a mídia chinesa noticiou criticamente as medidas do Ministro de Ferrovias, o que ajudou a espalhar enormemente a informação, alcançando muitas pessoas.
Isso levou o governo a instaurar a investigação, desenterrando a cabine do maquinista. E também levou as autoridades, que inicialmente enfatizaram o “desastre natural” como causa, a admitir a ocorrência de “falhas humanas”, como o defeito no sistema de sinalização e o erro de um funcionário, que não enviou um alerta.
Mais ainda, o primeiro-ministro Wen Jiabao visitou o local do acidente e prometeu ‘investigação justa e transparente’. Ele também afirmou que fará uma apuração totalmente aberta. Eu nunca havia visto algo assim na China.
Sinto que testemunhei um momento em que a opinião pública influenciou o poderoso governo”.
Okudera perguntou a policiais no local do acidente por que era necessário destruir (antes de enterrar o vagão, ele foi todo despedaçado) e enterrar apenas o primeiro carro do trem. Nenhum policial admitiu que a composição houvesse sido enterrada. O repórter questionou os trabalhadores da ferrovia. Eles, inicialmente, se recusaram a responder, mas um deles acabou dizendo: “É natural enterrar coisas que não dão para remover”. Desta vez, surpreendentemente, o que não é natural na China, resistiu: jornalismo e liberdade de expressão.
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