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A realidade das ferrovias

O jornal O Estado de São Paulo publicou, no dia 12 de novembro, um editorial sobre as ferrovias brasileiras no que se refere ao transporte de carga. Após fazer uma introdução geral sobre o desenvolvimento da malha ferroviária do País, o artigo explicita que ainda há muito que fazer.


As ferrovias tiveram papel primordial quando a dinâmica da economia brasileira baseava-se na exportação de produtos primários. A decadência veio em meados do século XX, com a industrialização e a necessidade de consolidação do mercado interno. A opção pelos caminhões para o transporte das cargas industriais deveu-se à incompatibilidade das malhas ferroviárias com a nova função delas exigida. A maior diversidade de pontos de origem e destino, o rápido deslocamento das fronteiras agrícolas e o fracionamento das cargas resultante da industrialização (ainda não existiam os contêineres), tornaram as rodovias mais céleres em responder aos desafios da nova configuração econômica do país.


O grande volume de recursos destinados às ferrovias entre 1950 e 1980 não impediu a decadência, agravada pela drástica redução dos investimentos, em decorrência da crise fiscal dos anos 80. A partir de 1996, as ferrovias – estatizadas nos anos 50 – foram objeto de concessões, por meio do arrendamento dos ativos operacionais. As linhas, locomotivas e vagões encontravam-se – em sua maioria – em estado precário. Antes do arrendamento, as ferrovias geravam perdas diárias de US$ 1 milhão e a transferência da operação para o setor privado foi fundamental para estancar tal sangria.


Foram significativos os avanços decorrentes das concessões, podendo-se destacar aumentos importantes na produtividade média; nas toneladas-quilômetro úteis movimentadas (TKU´s); nas encomendas de locomotivas e vagões para a indústria; na capacitação de ferroviários frente às tecnologias mais avançadas; e no número de terminais intermodais. Cabe destacar, também, a redução do índice de acidentes, a reestruturação malha paulista, o lançamento de ações na Bolsa de Valores e os contratos de longo prazo com clientes e operadores logísticos.

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Embora sem a agilidade e capilaridade do modal rodoviário, as ferrovias provêm um transporte muito mais barato, notadamente para grandes volumes de carga em percursos longos. Sua vantagem competitiva é maior quando operam em corredores especializados, com trens unitários e carga homogênea. Trata-se, portanto, do modal mais indicado para cargas a granel, como grãos e minérios, bem como para quantidades expressivas de contêineres. No atual estágio de desenvolvimento do país, seria lógica a sua utilização mais intensiva.


No entanto, excetuando o transporte de minérios, estamos bem longe disso.


A extensão da malha ferroviária é de 29 mil km (a 10ª do mundo) e operada por 11 concessionárias. É responsável, todavia, por apenas 20% das cargas movimentadas no país, transportando, em 2008, 257 bilhões de TKU´s. Destas, 66% corresponderam ao transporte do minério de ferro, seguido da soja e derivados (10%), cimento, produtos siderúrgicos e carvão. As duas ferrovias da Vale (Vitória-Minas e Carajás) e a MRS – que operam com níveis muito elevados de produtividade – transportaram 83% da carga ferroviária. Mas sem elas, os indicadores comparativos de produtividade das ferrovias brasileiras são ainda muito baixos, frente a países com grande extensão territorial e/ou forte tradição ferroviária.


Os fatores que contribuem para os baixos níveis de produtividade, restringindo a competitividade no mercado, são, entre outros: corredores com capacidade limitada para o transporte intensivo de cargas; descontinuidades das velocidades médias; limitações graves nos acessos aos portos; invasões e construções irregulares às margens das ferrovias nas periferias urbanas; excesso de passagens em nível, ausência de contornos ferroviários metropolitanos e deficiências nos mecanismos de regulação do trafego entre concessionárias.


As concessionárias herdaram pesadas deficiências estruturais e persiste, até hoje, a dificuldade de conciliar o arrendamento de ativos operacionais com as necessidades de modernização e expansão. Os traçados obsoletos e as condições físicas e operacionais superadas dificultaram a conciliação do fluxo de caixa com vultosos investimentos para tornar as ferrovias competitivas. A exceção dos créditos do BNDES, o país não dispõe de mecanismos para financiar no longo prazo investimentos do porte dos ferroviários. Por outro lado, há ainda dificuldade em formar consórcios dirigidos à formação de uma liderança das ferrovias no multimodal e na movimentação de contêineres.


Em tempos de fantasias que correm em alta velocidade, é importante voltar-se para a realidade de colocar mais cargas nos trilhos…

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Fonte: O Estado de São Paulo

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