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A década do setor ferroviário

Em expansão, o segmento ferroviário disparou este ano com números animadores e um mercado fervilhando ideias, tecnologia e produzindo a todo vapor. Mas nem sempre foi assim. Segundo Vicente Abate, presidente da Abifer, o setor viveu sua fase crítica na década de 1980 e o ápice da estagnação na década de 1990, sobretudo, no subsetor de cargas, com o auge da deterioração dos vagões neste mesmo período. Agora, o segmento volta ao topo das pautas no cenário brasileiro, movimentando o mercado e fazendo empresas redescobrirem o setor com uma retomada que promete ser um marco na história ferroviária do país.


Como era o cenário ferroviário há uma ou duas décadas atrás?


Vicente Abate – Podemos dizer que depois de um período de estagnação vivido entre as décadas de 80 e 90, o ano de 1997 foi o ponto médio da desestatização das duas únicas companhias de estradas de ferro existentes na época voltadas para o subsetor de cargas, seguido de um movimento de recuperação das vias permanentes que já apresentavam pontos de deterioração. A partir daí, é que conseguimos medir a evolução do setor em função da passagem para a iniciativa privada. Nesta época, muitas empresas fornecedoras fecharam e algumas subsistiram graças à diversificação, a exemplo, algumas fabricantes de vagões que passaram a abastecer o mercado agrícola, de construção civil e de mineração.


Como está o desenvolvimento do sistema ferroviário brasileiro hoje?

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VA – Coincidentemente ao movimento de desestatização o mercado voltou a crescer. Os anos seguintes foram marcados pela construção e ampliação da capacidade de algumas ferrovias a ponto de termos hoje algumas que competem internacionalmente com os sistemas de primeiro mundo, tanto em desempenho quanto em capacidade de carga e até redução de acidentes em 80%, um número bastante positivo. Temos hoje 29 mil quilômetros de ferrovias no Brasil, até 2015 a previsão é de construirmos mais seis mil e até 2020, mais nove mil.


Mesmo com esse movimento de recuperação e ampliação da malha ferroviária no Brasil, existem gargalos operacionais?


VA – Sim. Ainda hoje existem gargalos operacionais que precisam ser minimizados. É o caso da invasão de faixa de domínio, passagens em nível críticas e o próprio desenvolvimento das cidades em torno das ferrovias, enfim, fatores como falta de segurança para a população que vive nessas proximidades, vandalismo, redução de velocidade drástica dos vagões que prejudica o desempenho do nosso sistema ferroviário. Já foi equacionada a entrada pelo porto do Rio de Janeiro e agora é a vez do porto de Santos.


Quais os reflexos desse movimento na indústria do país?


VA – Houve uma melhoria na produtividade da indústria iniciada com a reforma e também com a compra de vagões e locomotivas para colocar novamente as ferrovias em funcionamento de 1997 a 2002, movimento que se repetiu há um ou dois anos atrás. Isso mexeu com a indústria, porque houve a necessidade de se comprar componentes tanto para reforma quanto para produção. No entanto, 2003 foi de fato o ano da retomada produtiva do setor com a contribuição do Plano de Revitalização das Ferrovias realizado pelo governo federal que permitiu que as concessionárias informassem sua demanda e as fábricas pudessem se programar e, mais tarde, com o PSI – que também contribuiu para que as fábricas pudessem se planejar.


Como tem sido a reação do setor rodoviário frente às mudanças do sistema ferroviário?


VA – Existe uma necessidade de se equilibrar as matrizes ferroviária e rodoviária, porque hoje o país não é caracterizado nem por uma e nem por outra, para isso foi criado o PNLT – Plano Nacional de Logística e Transportes. A primeira versão do plano previa R$ 291 bilhões de investimentos até 2025, em uma nova proposta esse número subiu para R$ 428 bilhões até 2035, aumentando a participação do setor ferroviário de 26% para 35%. Percebemos que o setor rodoviário está enxergando com bons olhos essa movimentação ferroviária, já que objetivo é direcionar cada transporte para o que é mais viável.


Quais as perspectivas de produção para o setor ferroviário?


VA – A década que está iniciando agora vai ser, sem dúvida, a melhor fase do setor. Se não fosse a crise de 2009, certamente ultrapassaríamos os números da década histórica para o mercado ferroviário que foi 1970. Para carros de passageiros a previsão é de quatro mil unidades e só para o subsetor de cargas a previsão é de 30 a 35 mil, uma média anual de 3500 vagões.


Qual tem sido o principal papel da Abifer no setor?


VA – A Abifer tem como papel fomentar o crescimento da indústria instalada no país e incentivar a produção dentro do Brasil. O metrô, por exemplo, tem hoje um alto índice de nacionalidade produtiva. Buscamos ainda contribuir com as concessionárias para desenvolver o seu trabalho e fazer crescer o transporte ferroviário, pleiteamos competição igual com concorrentes externos e apoiamos o PNLT e o TAV – Trem de Alta Velocidade.


O senhor considera que o desenvolvimento do sistema ferroviário brasileiro segue em ritmo acelerado ou ainda precisa ser mais rápido? E o que impede hoje isso acontecer?


VA – O desenvolvimento do setor já está bem mais rápido do que se previa, porém existem fatores que não contribuem para que esse ritmo seja maior como a competitividade externa, os impostos de importação baixos e os subsídios externos no local de origem, câmbio artificial também no local de origem como na China, além da nossa alta carga tributária.


A Tuzzi é uma das associadas da Abifer com ampla capacidade de desenvolvimento de novos projetos e entrou recentemente no mercado ferroviário fornecendo componentes. Qual é a importância de empresas com esse perfil para o setor?


VA – É fantástico contar com empresas com o perfil da Tuzzi. Geralmente, o caminho para se associar à Abifer é já estar no setor ferroviário. No caso da Tuzzi, foi o contrário, ela pretendia entrar no mercado e buscou antes estar perto de um órgão do segmento, justamente para conhecer o mercado, fazer parcerias e, agora, já está atuando e ganhando espaço no mercado ferroviário por conta desta postura e também da sua capacidade de desenvolver novos projetos para o segmento.

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Fonte: Tria Comunicação

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