O Brasil tem necessidade de investir cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura de transportes nos próximos cinco anos, calcula Paulo Fleury, CEO do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), especializado em projetos de consultoria, pesquisas e soluções relacionados à inteligência do sistema de logística das empresas. Esses recursos são necessários para eliminar o déficit de obras e manutenções que se acumulou no passado, além de expandir diversos modais (rodoviário, aeroviário, hidroviário e dutoviário), acompanhando o desenvolvimento da economia nacional.
“O País está com um problema sério. Como ficamos vinte anos sem os investimentos necessários em infraestrutura, há um gap a ser coberto e, além disso, precisamos criar condições para assegurar o crescimento econômico. É muito importante investir de 4% a 5% do PIB por ano, por ao menos cinco anos, sendo que, atualmente, os recursos destinados a essa área representam 0,5% do PIB, podendo atingir 0,7% com o Programa de Aceleração do Crescimento 2 (PAC II)”, destacou Fleury nesta terça-feira (21/09), durante a Rodada de Tendências & Negócios de Logística promovida pela Amcham-São Paulo.
De acordo com o especialista, o setor privado está preocupado com os investimentos insuficientes no segmento e com o cumprimento das metas do PAC I e II, já que mais de R$ 200 bilhões dos recursos prometidos ainda precisam ser aplicados em obras cujas conclusões estão previstas para além de 2014.
Baixa avaliação
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Fleury ressaltou que, no bloco de países emergentes Bric (Brasil, Índia, China e Rússia), o Brasil aparece na última posição em infraestrutura de transportes, considerando todos os modais – rodoviário, ferroviário, dutoviário e hidroviário. A estatística está baseada em levantamentos recentes do Banco Mundial e do World Factbook, publicação da agência do governo americano CIA (Central Intelligence Agency).
Respondendo por 60% da movimentação de cargas, a malha rodoviária brasileira, além de reduzida, é problemática, uma vez que, do 1,76 milhão de quilômetros de estradas, apenas 212 mil são pavimentados.
O Instituto Ilos realizou em 2010 uma pesquisa com 300 empresas clientes de operadores logísticos que atuam no País, que consideraram a infraestrutura do País regular, avaliando com a nota de 5,2, numa escala de 0 a 10. O modal aéreo conquistou a melhor nota (6,6) e o ferroviário foi o que teve a pior avaliação (4,2).
O mesmo estudo elencou os mais importantes projetos do PAC para o País, com destaque para: Rodoanel (para 78% das companhias); duplicação da BR 101 (76%); Ferrovia Norte-Sul (72%); dragagens portuárias (57%) e; Ferrovia Oeste-Leste (48%). Obras de ampliação do aeroporto internacional de Guarulhos e o Trem de Alta Velocidade (TAV Rio-SP-Campinas) também foram considerados prioritários por 42% dos entrevistados.
Intermodalidade
No evento da Amcham, executivos de grandes companhias participaram de um painel de debates e analisaram o cenário da logística nacional, apontando caminhos para minimizar os gargalos e ampliar a competitividade. Avanços na intermodalidade foram considerados fundamentais, o que envolve a utilização estratégica dos modais de acordo com as necessidades dos negócios, e a realização de obras para conexão entre os diferentes tipos de transportes.
“Precisam ser formadas parcerias entre empresas, operadores logísticos e governos para instalar e alavancar uma operação que permita utilizar a capacidade de outros modais”, destacou Ricardo Ubiratan, gerente de Desenvolvimento de Negócios da operadora logística DHL.
“A intermodalidade é o futuro. O transporte rodoviário se tornou uma necessidade para se distribuir dentro dos grandes centros, como uma forma prática e rápida para se deslocar. Porém, também há muitas oportunidades nas transferências de longa distância para se trabalhar com os modais aquaviários e ferroviários”, concordou Luiz Rodrigo Fernandes, gerente de Transportes da Procter & Gamble, companhia do segmento de saúde e higiene.
“Para a indústria hidroviária, os desafios são a ampliação de linhas de crédito e a correção de deficiências na exploração e performance do meio. Já nas ferrovias, é preciso melhorar o modelo de concessão para atrair mais investimentos”, opinou Michel Facuri, gerente de Logística da Cosan, do ramo de combustíveis.
“Temos uma visão positiva sobre mercado brasileiro de movimentação de cargas aéreas. Apesar das deficiências atuais nos aeroportos, vemos oportunidades com a aproximação da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016). Hoje o modal é o menos utilizado, mas há grande potencial de crescimento. É preciso mudar o paradigma de que o frete aéreo é o mais oneroso, analisando as chances que as empresas têm de vencer a concorrência e atingir o cliente final de forma rápida e segura”, ressaltou Mauro Ribeiro, gerente da Divisão de Air Cargo da UPS, operadora logística.
“Vivemos um momento de ascensão da classe C e crescimento do varejo, e temos que nos preparar logisticamente. Estávamos muito focados em centros logísticos em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e em grandes capitais, mas agora vemos a necessidade de trabalhar com outros polos logísticos no interior do País”, informou Ricardo Fógus, chefe do Departamento de Comercial de Encomendas dos Correios.
“Precisamos reunir todos os players para discutir soluções e abrir o caminho para fazer coisas diferentes em logística. Temos uma experiência positiva no Porto de Suape, por exemplo, para levar veículos da Argentina ao Norte e Nordeste do País”, disse Frederico Roldan, diretor de logística da General Motors, do setor automotivo.
“Temos de aumentar a participação de outros modais, que não o rodoviário. No País, faltam terminais para que haja mais conectividade entre os transportes. A questão fiscal é um item que resulta em desenhos logísticos que estão fora do propósito, fazendo com que os empreendimentos se instalem, na maior parte, onde existam benefícios”, salientou Eduardo Leonel, diretor presidente da Libra Logística, operadora do segmento logístico.
“É preciso implementar terminais intermodais assim como postos de distribuição no interior às portas dos grandes centros. Cada vez mais, haverá restrição de carretas nas grandes cidades”, considerou Fábio Velloso, diretor de Operações Logísticas da Júlio Simões Logística.
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