Um dia após o anúncio de que o trem de alta velocidade (TAV) Rio-São Paulo terá um novo modelo de licitação, os investidores acumularam dúvidas sobre como ficará a divisão de riscos do investimento e como será fechada a equação financeira a partir da separação do processo em duas etapas. A avaliação geral, porém, é de que o formato tende a ser mais seguro, já que exigirá um projeto executivo antes da licitação da infraestrutura, o que acabará com a dúvida sobre qual é o real custo da obra.
Uma das questões obscuras para o setor privado é se as construtoras entrarão no empreendimento como investidoras ou como contratadas. “Considerando que as construtoras terão um investimento inicial, quem pagará a conta? Como ficará o financiamento a ser concedido pelo BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]?”, questiona Carlos Eduardo Jorge, diretor-executivo da Associação Paulista dos Empresários de Obras Públicas (Apeop).
Sem mais informações sobre como deve ser desenhada a equação financeira do projeto – quais investimentos ficarão a cargo de que empresas e como será realizada a remuneração -, não é possível saber se a nova modelagem de concessão será mais vantajosa para as construtoras, de acordo com o diretor da Apeop. “Por exemplo, em quanto tempo as empreiteiras serão remuneradas pelos seus investimentos? Durante os 40 anos de concessão, ou nos primeiros dez anos?”, questiona Jorge.
A reivindicação da Apeop de que as pequenas e médias construtoras tenham mais oportunidade de participar parece ter sido contemplada no novo modelo. Com a permissão de contratação da construção por trechos, mais empresas poderão entrar no negócio.
As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.
Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.
Para Guilherme Quintella, presidente da Agência de Desenvolvimento de Trens Rápidos entre Municípios (Adtrem), que reúne as principais empresas com tecnologia no setor, o governo ainda não possui o novo projeto detalhado. “Não está claro para a gente, e o governo ainda deve estar trabalhando em cima da sua ideia”, analisa.
Paulo Godoy, presidente da Abdib, associação que reúne empresas de infraestrutura, diz que a novo modelo sinalizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) aloca os riscos do investimento de forma mais adequada ao dividir a licitação em duas etapas. “O formato antigo não permitia uma relação de risco e oportunidade de investimento favorável”, afirma Godoy.
Para Paulo Benites, representante do consórcio coreano, no entanto, ainda não está claro quem assume quais riscos com essa divisão. “Parece-me óbvio que o risco de demanda fique com o operador, e o de obra fique com as construtoras, mas isso não está claro”, diz.
Segundo Paulo Passos, novo ministro dos Transportes, o projeto terá um formato mais consolidado, que exigirá a criação de um projeto executivo detalhado da obra antes que seja licitada a concessão de sua infraestrutura.
Essa decisão do governo deve pôr fim à grande questão sobre se o investimento ficaria em R$ 33 bilhões, conforme o estudo do governo, ou em R$ 60 bilhões, como apontaram construtoras. “Com um projeto executivo em mãos, a variação entre o orçado e o realizado deve ficar em no máximo 6%, o que reduziria muito o risco de investimento”, diz Quintella.
Segundo ele, a Adtrem pediu na semana passada a suspensão da licitação do trem-bala porque a modelagem oferecia um risco muito alto para uma garantia de retorno baixa. “Nossos associados já tinham exaurido seus recursos para viabilizar o investimento, ninguém deixou de participar porque não teve tempo”, diz ele.
Tendo como única fonte de informação as declarações públicas do diretor-geral da ANTT, Bernardo Figueiredo, as empresas se movimentam para agendar encontros com as autoridades. A primeira reunião entre governo e representantes das empresas de tecnologia será sexta de manhã, em Brasília. A Apeop deve ser recebida pela ANTT no começo da semana que vem, e no dia 20, se reune com Henrique Pinto, da área de desenvolvimento de projetos do BNDES.
Seja o primeiro a comentar