A gigante alemã da engenharia Siemens AG e o conglomerado japonês Mitsubishi Heavy Industries Ltd. apresentaram uma oferta pela divisão de energia da Alstom SA, numa tentativa de superar a proposta anterior de US$ 17 bilhões da americana General Electric Co. tanto no aspecto financeiro como político. Segundo a oferta conjunta, a Siemens compraria o negócio de fabricação e serviços de turbinas a vapor do grupo industrial francês por cerca de 3,9 bilhões de euros (US$ 5,3 bilhões). Uma vez fechado o acordo, a Siemens propôs a negociação de outro pacto que combinaria sua divisão ferroviária com a da Alstom, que é maior, para criar o que a Siemens chamou de “um campeão europeu no mercado mundial”. A oferta combinada avalia a divisão de equipamentos de energia da Alstom em mais de 13,35 bilhões de euros, segundo um executivo da Siemens. A Mitsubishi ofereceu 3,1 bilhões de euros em dinheiro por participações minoritárias nas divisões da Alstom que fabricam equipamentos para usinas de energia que usam combustível nuclear e fóssil e sistemas hidrelétricos e eólicos, além das divisões que fazem equipamentos para redes elétricas. A Alstom manteria o controle dessas divisões.
A Mitsubishi também fez uma oferta por uma fatia de 10% das ações da Alstom que hoje estão em poder do conglomerado francês Bouygues SA. A Bouygues, que detém 29,3% da Alstom, afirmou que ainda não tinha sido procurada pela Mitsubishi e que pretende continuar sendo um acionista da companhia. O conselho de administração da Alstom, incluindo o diretorpresidente, Patrick Kron, vai rever a oferta nos “próximos dias”, afirmou a Alstom num comunicado. Ontem, os diretores-presidentes da Siemens e da Mitsubishi se reuniram com Kron e um grupo de membros do conselho em Paris para apresentar a proposta. “O conselho foi bastante exigente. Fizeram um monte de perguntas”, diz o executivo da Siemens. Kron – um executivo combativo que há muito vê a Siemens como um adversário – encheu os colegas alemães e japoneses com perguntas “vivazes”, diz a fonte. Kron declinou comentar sobre a reunião.
A batalha pela divisão da Alstom vem provocando polêmica na França. Quando a Alstom revelou, em abril, que estava fechando a venda da maior parte da empresa para a americana GE, o governo francês reagiu com irritação, temendo perder um ícone industrial do país num momento em que a economia francesa enfrenta problemas graves. O governo da França pediu à Siemens para intervir e lançar uma contraoferta, mas a empresa alemã levou várias semanas para preparar uma. Agora, com uma oferta conjunta formal da Siemens e da Mitsubishi em mãos, o governo pode continuar intercedendo em favor delas. O presidente da França, Fraçois Hollande, deve se reunir hoje com Joe Kaeser, diretor-presidente da Siemens, e Shunichi Miyanaga, líder da Mitsubishi Heavy Industries, para discutir a oferta. Ontem, o gabinete de Hollande não quis comentar sobre as minúcias da oferta da Siemens e da Mitsubishi, reiterando que “não tem preferência” por um candidato.
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O governo, afirma o gabinete, continua comprometido com a preservação dos empregos na França e da tecnologia própria que considera estratégica. A oferta das duas empresas foi concebida para aliviar os temores da França quanto à perda de empregos e tecnologia para uma poderosa rival americana. A oferta ressalta que uma aliança entre a Mitsubishi e a Alstom criaria 1.000 empregos na França. Além disso, a ação da Alstom continuaria sendo negociada na bolsa francesa e ela manteria o controle sobre a maior parte do negócio. “A Alstom permaneceria um participante independente [nos setores] de energia e transporte, com uma marca forte”, diz Kaeser. “Nossa oferta é mais atraente financeiramente e em termos do seu impacto na política industrial” que a da GE. A Siemens afirmou que sua oferta com a Mitsubishi vale cerca de 1 bilhão de euros a mais que a proposta da GE, mas ainda não está inteiramente claro como a empresa alemã chegou a essa conclusão. Uma pessoa a par do assunto diz que a diferença é que, pela oferta conjunta, os ativos da Alstom permanecem em poder dos acionistas da empresa francesa.
A GE os compraria de forma definitiva e os integraria ao seu conglomerado. Embora a oferta da Siemens e da Mitsubishi tente aliviar os temores franceses, não está claro se ela chega a resolver as preocupações do governo da França e dos sindicatos do país. Alguns líderes sindicais dizem que, na prática, a proposta desmembra a Alstom em unidades diferentes controladas por donos diferentes. “Somos contra desmembrar a Alstom e o que vemos aqui é exatamente um desmembramento”, diz Miguel Torvisco, representante do sindicato CGT.
O executivo da Siemens a par do assunto negou que a oferta abra caminho para um desmembramento da Alstom e insistiu que a empresa francesa permaneceria intacta. Pelo acordo proposto, algumas das operações da Alstom poderiam ser formatadas em subsidiárias controladas pela empresa francesa, diz um executivo da Mitsubishi. A Mitsubishi planeja adquirir uma fatia de 40% da unidade nuclear e de turbinas a vapor para atenuar as preocupações do governo sobre o uso futuro desse tipo de tecnologia, considerada estratégica, deixando a unidade sob o controle francês. Os gestores da Alstom já manifestaram o seu apoio à oferta da GE e têm evitado o cortejo de Kaeser, que tem uma relação fria com o diretor-presidente da Alstom, dizem pessoas que conhecem bem as empresas. A Alstom não quis comentar imediatamente sobre a proposta da Siemens e da Mitsubishi. Ela tem até segunda-feira para aceitar ou recusar formalmente a oferta da GE, a menos que a empresa americana amplie sua proposta.
O ministro da Fazenda francês, Arnaud Montebourg, tem dito que a oferta da GE é inaceitável e ameaça a soberania econômica da França. Além de equipamentos para o setor de energia, a Alstom fabrica trens de alta velocidade. A GE, no entanto, continua discutindo sua proposta em encontros com autoridades francesas. A companhia deslocou para Paris alguns dos seus principais executivos e planeja dar continuidade às conversas com essas autoridades nos próximos dias. Desde que apresentou pela primeira vez sua oferta, a GE acrescentou a garantia de criar 1.000 vagas e ofereceu desenvolver parcerias que possibilitariam investimentos franceses em alguns dos negócios de energia da Alstom. A GE também discute a criação de uma unidade que preservaria o controle francês na divisão da Alstom de turbinas a vapor para usinas nucleares, uma das grandes preocupações de Montebourg.
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