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Do caos à floresta, rumo ao Cristo Redendor no trem do Corcovado

O Rio de Janeiro visto do alto do Corcovado jamais cansa. A 710 metros de altitude, a cidade esconde sua feição caótica, descompassada e moderna. E posa, elegante, para fotografias incontáveis, de uma repetição angular irresistível e inspiradora.

Dali, o cenário, já com seus bem vividos 450 anos oficiais, parece não envelhecer. Resultado, talvez, da predisposição ao sagrado de um monte que, já no século 16, recebeu de cartógrafos como Américo Vespúcio a alcunha de “Pico da Tentação”, uma referência à passagem bíblica da tentação de Cristo.

Olhar para cima, aliás, também desperta desejo. Dos pés à cabeça, nosso pescoço quase não dá conta da inclinação necessária para acompanhar os 38 metros do Cristo Redentor que se ergue no topo do Corcovado.

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E se engana quem pensa que os minutos de contemplação são reservados apenas ao monumento, uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo desde 2007. Todo caminho até lá parece prender a atenção e a respiração – de surpresa grata para alguns, misturada a um certo medo da altura para outros. De trem, vamos subindo pouco a pouco o monte, confortavelmente sentados de frente e de costas para o maquinista.

A história da estrada de ferro que liga o bairro de Cosme Velho, na zona sul do Rio, ao topo do Corcovado se confunde com a da própria cidade ou, melhor dizendo, do País.

Entre 1824, quando D. Pedro I organizou a primeira expedição por trilha ao cume do monte, e 1884, data de inauguração da linha férrea, o Rio viu crescer a demanda turística pelo ponto de onde se vê o Pão de Açúcar, as praias, os bairros que foram invadindo o miolo do município – na época, ainda sem o Cristo, inaugurado apenas em 1922.

A construção da Estrada de Ferro do Corcovado se beneficiou da popularização dos trens a vapor no fim do século 19. Projetada pelos engenheiros Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares, foi ela quem permitiu a montagem do Cristo Redentor alguns anos depois – difícil imaginar como teriam sido transportadas as 50 partes da cabeça e as oito das mãos do monumento, feitas em Paris, não fosse o fôlego vaporizado do trem.

Das peças, fazendeiros e trabalhadores que se espalhavam pela região no início do século 20 aos turistas de hoje em dia, o leva e traz do popular Trem do Corcovado carrega anualmente quase 1 milhão de pessoas, com uma média de 2.500 visitas por dia. Inclua nessa lista ilustres de todos os tipos, como o Papa João Paulo II, Beyoncé, Dalai Lama, John Travolta, Barack Obama e até alguns assíduos, como Santos Dumont, que, segundo os administradores da linha, gostava mesmo de pilotar a locomotiva.

Pioneiro. A subida aos pés do Cristo, feita em trens suíços da década de 1980, dura cerca de 20 minutos, circulando a uma velocidade média de 15 quilômetros por hora. É tempo curto para quem se perde na mudança de paisagem do outro lado das janelas laterais. A cada arrancada, o espaço urbano, com suas casas simples e coloridas, vai ficando para trás, em uma linha divisória marcada por uma imagem de São Sebastião – e tantos outros santos – fincado na terra. São os primeiros sinais de reza e devoção a que o monte remete.

A partir daí o verde quase monocromático da Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, se sobrepõe. Com sorte e olhar ligeiro, é possível observar macaquinhos e outros animais. Fique esperto e dê preferência para o lado direito do trem: sem aviso, as árvores deixam um espaço para as incríveis vistas da cidade.

O orgulho dos administradores, já que o direito à manutenção da linha é uma concessão federal, está diretamente ligado à preservação ambiental. E não é de hoje. Além de parte da arrecadação da bilheteria ser destinada ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), a Estrada de Ferro do Corcovado foi a primeira ferrovia eletrificada do Brasil – uma transformação de 1910, realizada pela atual Light.

Não há a obrigação de ir de trem. O trajeto a pé (feito pelo Parque Lage) continua lá, com uma infraestrutura melhor, claro. E, mal imaginava D. Pedro II, mas os tempos modernos já permitem subir e descer do Cristo com vans que saem de Paineiras, Largo do Machado e Copacabana – os valores são os mesmos do passeio de trem, R$ 51 na baixa temporada e R$ 62 na alta.

Minha opinião? Escolha as vans apenas se estiver de passagem pela cidade e os ingressos para embarcar no charmoso trem vermelho estiverem esgotados – o que não é raro, mesmo fora da alta temporada, entre dezembro e fevereiro, julho, fins de semana e feriados.
O ideal, para viver uma experiência que atravessa os séculos e evitar a corriqueira confusão de bilheterias de lugares cheios, é comprar os ingressos com antecedência pelo site: oesta.do/tremcorcovado.

ONDE FICAMOS

Quem atravessa a passos rápidos a Rua Riachuelo, na Lapa, pode passar despercebido por um charmoso palacete cor-de-rosa na altura do número 124. Mas basta um olhar mais atento para notar a diferença que o prédio tombado imprime ao caos cinza do centro carioca. Construído em 1884, já abrigou o Hotel Magnífico entre os anos 1930 e 1940 e o Colégio Mabe. Em 2014, porém, voltou à função hoteleira ao ser comprado e restaurado pela rede de hotéis portuguesa Vila Galé.

Aos seus três prédios históricos somam-se outros dois mais recentes, onde se concentra boa parte dos 292 quartos. A temática é a Bossa Nova e a cultura luso-brasileira – entre no clima imperial na entrada, ao se deparar com um retrato de D. Pedro I. Há uma piscina no jardim interno que garante um sossego quase inimaginável. O restaurante, cujo serviço ainda precisa melhorar, é aberto a não hóspedes. Diárias a partir de R$ 390 em quarto duplo, a 20 minutos do Trem do Corcovado. Mais: oesta.do/vilagalerio.

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