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Ajuste fiscal cobra seu preço nos investimentos do PAC

Ficaram para trás as solenes cerimônias que marcavam os anúncios dos balanços do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no passado, quando até meia dúzia de ministros e muitas vezes a própria presidente da República, Dilma Rousseff, se perfilavam para anunciar novos investimentos, em meio a uma profusão de filmes e fotos de canteiros em obras. Muitas vezes, projetos claramente atrasados eram contabilizados como se estivessem dentro do prazo e foram usados como propaganda na reeleição do ex-presidente Lula e nas eleições de Dilma.

A crise fiscal trouxe a realidade para o PAC e reduziu seu ritmo, contribuindo para a forte queda de 14% dos investimentos e de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado. O fraco desempenho e a previsão de dias ainda piores provavelmente aconselharam a discrição ao Ministério do Planejamento, que marcou o balanço do programa em 2015 com simples nota oficial.

Investimentos do PAC somaram R$ 251,7 bilhões no ano passado, 14% a menos do que os R$ 292,7 bilhões de 2014, que já haviam ficado 6% abaixo dos R$ 301 bilhões registrados em 2013. A parcela desembolsada pelo Tesouro diminuiu ainda mais, 22%, passando de R$ 57,7 bilhões em 2014 para R$ 47,3 bilhões em 2015. O total chega aos R$ 251,7 bilhões com os R$ 55,8 bilhões que foram investidos pelas estatais, R$ 45,4 bilhões aplicados pelo setor privado, R$ 3,3 bilhões de Estados e municípios e com a inclusão de R$ 99,9 bilhões em financiamento habitacional do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) e subsídios do programa Minha Casa Minha Vida. A inclusão do financiamento imobiliário tomado em banco e pago pelos cidadãos no total investido pelo PAC representa em média 40% e sempre foi um ponto discutível.

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Várias obras prometidas para 2015 tiveram a conclusão adiada. O maior atraso é o da Refinaria de Abreu e Lima (PE), um projeto de R$ 44 bilhões, que deveria estar pronto em março, mas teve a conclusão adiada para dezembro de 2018 e pode até ficar para 2019 por causa das dificuldades da Petrobras. A conclusão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), tocada pela Valec, era esperada para outubro, mas foi transferida para meados de 2018. E ficou para 2017 o término de um dos canais da transposição do Rio São Francisco. Se esse prazo for cumprido, o atraso em relação ao inicialmente prometido chegará a 10 anos. Outro percalço no PAC é a conclusão do trecho final da BR-163 (PA), com atraso de um ano em relação à data prometida. A rodovia é fundamental para o escoamento da produção agropecuária pelos portos do Norte do país, que poderia trazer economia anual de US$ 4 bilhões ao setor.

Atrasos não são novidade para o PAC. Das dez maiores obras prometidas em 2007 pelo PAC 1, ainda no governo do ex-presidente Lula, apenas duas estão concluídas (“O Estado de S. Paulo 24/1) e ambas são do setor de petróleo, a conversão da refinaria Presidente Getulio Vargas e o piloto da produção do Campo de Lula do pré-sal. Outras seis estão em operação parcial e são a Refinaria Abreu e Lima, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), as hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antonio e Jirau e a Ferrovia Norte-Sul.

As restrições fiscais vão apertar mais o PAC neste ano, com reflexos na economia e produtividade do país. Os desembolsos do Tesouro para o programa, estimados inicialmente em R$ 65,6 bilhões, foram cortados pela metade, para R$ 30,7 bilhões e atingidos pelo último contingenciamento com mais uma redução, desta vez de R$ 4,2 bilhões, para um total de R$ 26,5 bilhões, volume bem distante do pico de R$ 73,9 bilhões de 2012.

Com pouco dinheiro na mão, o novo ministro do Planejamento, Valdir Simão, definiu que vai priorizar a conclusão de investimentos já feitos e a cobertura dos restos a pagar, deixando de lado o início de novos projetos. Estão incluídos entre as prioridades a terceira etapa do Minha Casa Minha Vida, a transposição do São Francisco e obras para a Olimpíada do Rio. A esperança para a infraestrutura se deslocou para as concessões. O governo voltou atrás e ampliou a fatia do BNDES em seu financiamento, assim como a parcela dos investimentos que pagarão a TJLP, de 7,5%. Ainda que seja um recuo em relação ao bom plano de abrir espaço para o financiamento via mercado de capitais, parece ser o único jeito de estimular o investimento em meio à enorme crise atual.

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