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Minério cai 8,5% e atinge pior valor em cinco meses



O período de bonança do minério de ferro no primeiro trimestre definitivamente acabou. Os preços da commodity desabaram ontem na China e ficaram abaixo de US$ 70 por tonelada pela primeira vez em cinco meses. O movimento de correção já era esperado, mas a rapidez com que ele ocorreu nos últimos dias, não. Daqui para frente, os analistas preveem que a queda se acentue até o fim do ano, mas as previsões ainda apontam para nível próximo a US$ 60 em dezembro.


Ontem, a cotação da matéria-prima com teor de 62% de ferro recuou 8,5% no porto chinês de Qingdao, para US$ 68,04, segundo a “Metal Bulletin”, menor patamar desde 7 de novembro. Essa é a referência do mercado transoceânico, tanto em qualidade quanto em importância geográfica – a China é o país que mais demanda minério no mundo. Assim, no ano a commodity agora cai 13,7% e em abril, acumula recuo de 15,4%.


Esse preço foi atingido após cinco dias consecutivos de queda. A performance contrasta com o observado nos três primeiros meses do ano, quando em 21 de fevereiro o minério marcou seu maior valor desde agosto de 2014 e fechou com uma média de US$85,63. Agora, em relação a essa máxima recente, o insumo cai 28,3% e registra média de US$ 76,73 neste que é o primeiro mês do segundo trimestre.


No ano, a commodity registra preço médio de US$ 84,62. Levantamento do Valor com 18 instituições financeiras mostra previsão de US$ 64,40 para 2017. A perspectiva é que em dezembro, porém, esse nível já se encontre entre US$ 55 e US$ 60.


Pelo lado dos fundamentos econômicos, o motivo para o tropeço do minério é o excesso de oferta, que é regra geral pelo menos desde 2015. Mas nos últimos meses, apesar da entrada de operação do S11D, da Vale, de uma expansão de capacidade em Pilbara, na Austrália, e do avanço na curva de aprendizagem da também australiana Roy Hill, que contribuem para o fornecimento mais agudo da commodity, a demanda chinesa compensava a saturação do mercado.

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Com abundância de crédito, especialmente para infraestrutura e construção de residências, o governo da China elevou a preocupação quanto à existência de uma bolha imobiliária e decidiu tomar medidas para cortar o fluxo de capital oferecido ao setor, reduzindo o ritmo da atividade. No primeiro trimestre, a construção foi o principal fator de sustentação ao crescimento do gigante asiático.


“Em geral, o governo chinês pesa dois lados dos estímulos: o quanto a economia pode crescer com investimento em infraestrutura e, do outro lado, o alto endividamento e a inflação de preços de imóveis”, explica Felipe Beraldi, da Tendências Consultoria. O analista diz que esperava esse patamar de preços ainda mais cedo, mas o movimento especulativo ajudou a sustentar a matéria-prima acima dos US$ 90. Até o fim do trimestre, ele acredita que a cotação se retraia para perto de US$ 60.


Segundo Daniel Briesemann, analista do banco alemão Commerzbank que acompanha commodities metálicas, a virada de comportamento das autoridades chinesas quanto ao crédito foi determinante para a reversão do minério. O momento acumulou a elevação da oferta e o potencial arrefecimento da procura na China, que é quem mais compra minério no mundo, porque a perspectiva de necessidade de aço diminuiu.


“Estávamos dizendo há muito tempo que os preços do minério de ferro eram altos demais e o potencial de correção era enorme”, afirma o analista. “Em dezembro, alertamos que nível de US$ 50 a US$ 60 parecia muito mais justificável do que o que se desenhava na época, de US$ 80 a US$ 90.”


Nesse sentido, a desvalorização do insumo diz respeito às perdas registradas nos últimos dias nos preços do aço. Com a necessidade de reduzir custos para compensar a diminuição, as siderúrgicas estão menos dispostas a pagar muito pelo minério. Só em abril, a bobina a quente, por exemplo, negociada na Bolsa de Futuros de Xangai, já recua 8%.


Para a equipe econômica do Itaú, a baixa está mais relacionada aos altos estoques da matéria-prima nos portos chineses. O impacto da desaceleração na economia chinesa viria mais forte no segundo semestre, dizem em relatório. Mas na semana passada, a casa de análise australiana ANZ Research lembrou que o volume de aço armazenado está baixo atualmente, o que significa que ainda pode haver uma onda de compras mesmo com os altos estoques do minério.


Também em relatório, o BTG Pactual alertou que a instabilidade se intensificaria para o minério. Nesses cinco dias negativos, a queda foi estrondosa, de 14%. A desvalorização de ontem, de 8,5%, foi a segunda mais intensa em todo o ano. “Para complicar ainda mais, o mercado de derivativos em desenvolvimento tem inflado a formação do preço à vista”, disse o BTG.


Beraldi, da Tendências, ainda ressalta que o retorno da Samarco, da Vale e BHP Billiton, ao mercado, poderia elevar ainda mais a sobreoferta. “Mas juridicamente a situação é complicada, então ainda não consideramos essa possibilidade”, diz.

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