Quase sete anos após o acidente que
deixou seis mortos e mais de 50 feridos, o bonde de Santa Teresa não somente
não retomou completamente suas operações, como agora vê os planos de sua obra
de conclusão serem adiados. A informação foi passada pelo secretário de Estado
de Transportes, Rodrigo Vieira, durante audiência pública realizada na última
quarta-feira pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia
Legislativa do Estado do Rio (Alerj) que investiga as irregularidades da gestão
pública no setor de transportes. Motivo: falta de recursos para custear a obra,
estimada inicialmente em R$ 58,6 milhões (em junho de 2013), mas cujo
orçamento, três anos depois, já passava de R$ 125 milhões.
A notícia caiu como um balde de água
fria nos moradores e comerciantes, que passam por momentos melancólicos ao ver
o cartão-postal do bairro em compasso de espera. Além de viverem alarmados por
episódios recorrentes de violência.
— O bonde é o sal da terra de Santa
Teresa, o meio de transporte do povo e o referencial mais forte que temos aqui.
Ele traz aquela alegria intrínseca que foi se perdendo ao longo do tempo,
depois de tantas agruras vividas — analisa Edson Meirelles, morador de Santa
Teresa há 12 anos.
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Ele é chef e proprietário do restaurante
Ora Pro Nobis, localizado numa das curvas da Rua Almirante Alexandrino. O
endereço era parte do trajeto do bonde que fazia o sentido Dois Irmãos, extinto
desde o acidente, em agosto de 2011.
— Desde então, o movimento caiu
bastante. Hoje, a maioria dos meus clientes é formada por moradores. Vamos
combinar que ônibus não traz turistas. Eles vinham mesmo era de bonde —
acredita Meirelles.
Para Paulo Saad, presidente da
Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (Amast), o governo estadual
vem desprezando o funcionamento dos bondes. Ele acredita que não contemplar
recursos no orçamento para finalizar as obras de expansão é uma decisão
política.
— O bonde é patrimônio histórico
tombado, mas também é patrimônio cultural ativo e meio de transporte da
população. Isso é desconsiderado solenemente e reforça a inapetência do estado
para servir à população. Não houve um planejamento adequado para conduzir essa
obra — afirma Saad.
Atualmente, segundo dados apresentados
na CPI dos Bondes, a Secretaria de Estado de Transportes (Setrans) opera com
cinco veículos de domingo a domingo. Três circulam diariamente, um fica em
manutenção preventiva e outro na reserva. Os bondes percorrem o trecho que vai
do Largo da Carioca, passa pelos Arcos da Lapa e chega à Praça Odylo Costa
Neto, no Largo dos Guimarães. Os intervalos oscilam entre 20 minutos, pela
manhã, e 15 minutos, à tarde. A passagem de ida e volta custa R$ 20.
— Este trecho é uma piada, e o valor da
passagem é claramente turístico, afasta os cariocas. Uma família que mora em
Copacabana, por exemplo, com marido, mulher e dois filhos, tem que desembolsar
R$ 80 só de passagem para andar de bonde. É um absurdo — diz Saad.
Ele calcula que atualmente o sistema de
bondes atende menos de um quarto dos moradores. Para usá-los gratuitamente,
precisam fazer um cadastro na estação terminal do Largo da Carioca, e pegar uma
carteirinha. De acordo com Saad, apenas 2.776 moradores efetuaram o cadastro.
— Esse número demonstra claramente que o
bonde não atende às necessidades do bairro, que tem 40 mil domicílios no
asfalto e mais seis mil nas comunidades ao redor. No dia a dia, ninguém pode
esperar um intervalo de no mínimo 15 minutos para se deslocar. E o trecho de
operação do bonde ainda é muito curto — diz Saad, afirmando que a associação de
moradores vai continuar acompanhando de perto a CPI dos Bondes, assim como as
ações que já foram abertas no Ministério Público.
Pelas ruas do bairro, as referências ao
bonde estão por toda parte, em forma de pinturas pelas paredes, esculturas e
mosaicos no caminho e nos trilhos por onde um dia ele passava. Em alguns
trechos, ainda é possível ver placas de sinalização com os dizeres “Ponto de
parada” ou “Veículos e bondes dividindo a rua”, além de resquícios de uma obra
agora sem data para ter fim. A última data que havia sido divulgada pelo
governo estadual para o término das obras era dezembro de 2017. No entanto, em
julho de 2016 os operários deixaram os canteiros de obras. Trechos para
instalação de trilhos permanecem esburacados e desnivelados. Moradores e
comerciantes estão desesperançosos.
— Uso o bonde desde 1967, quando me
mudei para Santa Teresa. Sempre foi o meio mais rápido e barato para chegar ao
Centro da cidade. Não havia outro igual. Houve época em que tinha mais de 20
circulando — lembra a aposentada Maria Isabel Fazolo.
Procurado pela equipe de reportagem, o
secretário de Estado de Transportes alegou falta de tempo para dar entrevista.
Por meio de sua assessoria, informou apenas que continua aguardando os recursos
para a continuidade da obra. E que, atualmente, o custeio dos bondes é feito
com arrecadação da tarifa turística de R$ 20.
Em depoimento na CPI dos Transportes,
Vieira disse: “Esse valor cobre as despesas com conta de luz, troca de peças,
manutenção e carteirinha para garantir a gratuidade dos moradores do bairro”.
No primeiro trimestre de 2018, a receita com a utilização do bonde foi de R$
426.360, 42% superior ao mesmo período de 2017.
Vieira disse ainda que estuda a
ampliação do trajeto. “Há três trechos possíveis em direção à Vista Alegre e ao
Castelo Valentim, que estão sendo detalhados. E já solicitamos inclusive ao governo
federal recursos necessários para finalizar a implantação do sistema levando
até os Dois Irmãos”, afirmou o secretário à CPI.
‘Tive que recomeçar minha vida’
No melancólico noticiário de Santa
Teresa, não apenas os acontecimentos envolvendo o bonde são corriqueiros. Para
completar o desalento dos moradores, a violência também é assunto costumeiro.
No final de 2017, sete arrastões assolaram bares e restaurantes em apenas 21
dias. A insegurança obriga comerciantes a mudarem seus horários de atendimento,
e moradores precisam alterar hábitos para se adaptarem a uma nova e lamentável
ordem imposta pela violência. Quando não conseguem, a alternativa é se mudar de
vez do bairro em que, um dia, sonharam construir uma história. Pelas ruas,
muitas placas de “vende-se” e “aluga-se” estampam as fachadas de casas,
apartamentos e estabelecimentos comerciais. Não é possível afirmar, porém, se é
devido à violência na região.
O produtor Richardy Cesar foi criado no
Recreio e trabalhava no Centro da cidade. No entanto, subia as ladeiras de
Santa Teresa atraído pela vida cultural e noturna do local. Não demorou muito,
decidiu se mudar com a família para uma casa, cercado pela natureza e por
animais silvestres. Montou até um hostel, como sempre havia idealizado. No entanto,
a história de amor com o bairro acabou em apenas três anos.
— Os tiroteios eram cada vez mais
frequentes. Cansei de ficar acuado dentro de casa, de não levar meu filho na
escola, de me ver refém. Isso quando não havia o baile funk durante toda a
noite. Precisei fazer obra na casa para conseguirmos dormir. O ano passado foi
o pior de todos. Até que me dei conta de que não podia mais criar meu filho
ali. Todo o lado maravilhoso que eu idealizei, não consegui mostrar para ele.
Na verdade, nem consegui viver isso — relata.
Há três meses, Richardy Cesar voltou ao
lugar da infância, o Recreio. Ele diz que nesse período recuperou os três anos
de tensão vividos em Santa Teresa.
— Tive que recomeçar minha vida tudo de
novo. No fim do ano passado tive depressão, cheguei a pesar 130 quilos. Você
planeja toda a sua vida e, de repente, se vê obrigado a mudar. É duro, mas é
preciso levantar a cabeça e seguir em frente — diz ele, que também amargou
prejuízos no hostel, que agora está à venda. — No carnaval, deixei de ganhar de
R$ 8 mil a R$ 10 mil. O lugar é incrível, mas as pessoas não procuram mais
porque nos aplicativos de viagem aparece mensagem dizendo que é área de risco.
O mesmo aconteceu com o empresário
Christian Gripp Gibaja, que só conseguiu manter a Villa Leonor Suites por dez
meses e fechou em julho de 2017.
Márcia Neves tem 59 anos e há 30 mora em
Santa Teresa. Ela nunca havia considerado se mudar. Até agora. A Rua Almirante
Alexandrino, onde mora e tem uma barraca de doces, é a imagem da desilusão com
o bairro.
— Santa Teresa vive de nome. Não temos
comércio decente, mercado, nem banco. Para pagar uma conta é preciso pegar a
condução mais cara do mundo para ir e voltar. É lamentável, vivemos uma
situação de abandono — afirma ela, lembrando o período após a paralisação das
obras. — Depois que parou, isso aqui virou uma terra sem lei. Tudo quebrado
pelo caminho. Cansei de jogar água para diminuir a poeira que invadia a nossa
casa e acabava com a saúde. No fim, é isso. Quem sempre paga a conta somos nós.
Por outro lado, enquanto alguns pensam
em sair, outros não medem esforços para continuar morando em Santa Teresa. Adil
Tiscatti, administrador do Cine Santa, é um exemplo. Ele mora no bairro desde
1997 e vive pensando em ações para atrair o público de volta para os filmes de
arte exibidos no local.
— Agora estamos dando caipirinhas no Bar
do Hotel Santa Teresa para quem assistir às sessões no espaço. A galera gosta
de cinema tanto quanto de caipirinha, então tem dado supercerto — brinca ele. —
É uma forma de atrair público para o cinema, para o hotel e para o bairro em
geral — diz Tiscatti.
A insegurança obrigou o administrador a
tomar algumas medidas para não perder o público, como antecipar os horários das
exibições dos filmes, para que a última sessão não termine tão tarde. Antes,
era às 21h40m. Mas, desde o final de 2017, passou a ser às 20h30m.
— Dependendo da duração do filme,
antecipamos a sessão. Dentro dessa realidade caótica em que vivemos, eu diria
que a situação atualmente está estável. Às vezes, piora com alguns casos
pontuais — comenta Tiscatti.
Estatísticas do Instituto de Segurança
Pública (ISP) mostram o aumento da violência em Santa Teresa. Em seis anos, o
número de registros de roubos de rua subiu 174%. Passaram de 172 casos, entre
janeiro e outubro de 2012, para 472 no mesmo período de 2017. Também cresceu a
quantidade de veículos roubados. Nos primeiros dez meses de 2012, segundo o
ISP, o bairro registrou 36 casos contra 129 em 2017. Já as ocorrências de
assaltos em estabelecimentos comerciais aumentaram de seis para 21.
Segundo Paulo Saad, da Amast, a
associação de moradores faz denúncias permanentes à polícia e orienta os
moradores sobre formas de precaução. De acordo com a assessoria de imprensa da
Polícia Militar, o 5º BPM (Harmonia), responsável pela segurança no bairro,
realiza o policiamento ostensivo na região. Segundo eles, as ocorrências podem
ser denunciadas diretamente à unidade pelo telefone 2332-5639.
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