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O vírus nos trilhos

Pode parecer um acontecimento sem importância. Mas uma das alegrias da minha vida foi ter andado de metrô no Rio de Janeiro no primeiro dia de seu funcionamento. O metrô era um sonho dos cariocas. Anunciado e projetado por muitas décadas, nunca ia adiante. Quando as obras começaram, o metrô virou um pesadelo. Ruas interditadas, prédios históricos demolidos, comércio falindo, tapumes… Quando o pesadelo acabou, quis conhecer o metrô logo no primeiro dia.

Foi em março de 1979. Trabalhava na Rua do Passeio. Aproveitei a hora do almoço e desci as escadas da Estação Cinelândia. Todo aquele mármore, aquela limpeza, pouca gente nas plataformas, o trem chegando silencioso… nem parecia Rio de Janeiro. A civilização, enfim, chegava aqui. No subsolo. No metrô, a gente ficava longe da desordem urbana carioca. Fui até à Estação Presidente Vargas. O percurso completo não era muito maior que esse: ia da Estação Glória à Estação Presidente Vargas.

Desci na Presidente Vargas e fui até uma loja que fazia promoção de máquinas Polaroid. Compra realizada, fiz o caminho de volta. Tenho quase certeza de que bati um recorde. Fui o primeiro passageiro a andar duas vezes no metrô carioca. Apesar do entusiasmo desta primeira viagem, nunca me tornei um usuário frequente. O metrô cresceu. Mas nunca seguiu os caminhos que me interessam. Só pego o metrô nas poucas vezes que preciso ir ao Centro.

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Na semana passada, tive um compromisso na Rua São José, pertinho da Estação Carioca. Por que não voltar de metrô? Foi o que fiz, sem me dar conta de que o relógio marcava seis da tarde. Hora do rush. Qualquer metrô do mundo estaria cheio, mas, na hora do rush, a decadência do metrô carioca fica mais evidente.

Os quiosques, as caixas de banco, o corrimão sujo, o excesso de anúncios, a poluição visual… Onde foi parar a civilização? E os trens abarrotados. Deixei passar o primeiro que chegou. Quem sabe o próximo estivesse mais vazio. Entrei no segundo. Ou melhor, fui entrado. Um vagão de metrô do Rio na hora do rush renova o conceito de superlotação. Em pé, torci para que, na estação seguinte, o trem esvaziasse um pouco. Encheu mais. O metrô do Rio desmoraliza o princípio da Física que atesta que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço.

Mais uma estação. Ninguém desceu. A porta abriu e… não fechou. O trem não sai do lugar. Aparece um segurança, dá uns socos na porta, e ela se fecha. O trem vai em frente. Mais algumas estações e tive um súbito desejo de espirrar. Nessas ocasiões, tenho seguido os ensinamentos dos infectologistas que não saem mais da TV: levanto o braço dobrado num ângulo de 90 graus, aproximo o nariz da parte interna do cotovelo e solto o espirro. Mas como levantar o braço, mesmo dobrado, naquele vagão em que todos viajam grudados? Prendi o espirro. Começo a desconfiar que estou numa colônia de coronavírus. Quando cheguei a meu destino, pensei que bem que o metrô, no meio daquele mafuá, poderia oferecer doses gratuitas de álcool gel para seus usuários.

Na última sexta-feira, o Metrô Rio anunciou que o preço da passagem vai subir de R$ 4,60 para R$ 5.

*Artur Xexéo, é jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro.

Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/o-virus-nos-trilhos-24307448

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