‘Meu legado vai ser de excelência operacional’

Bartolomeo, presidente da Vale: “Empresa tem os melhores ativos do mundo. Custo é uma dimensão da excelência, mas o preço para nós é mais importante” — Foto: Leo Pinheiro/Valor
Bartolomeo, presidente da Vale: “Empresa tem os melhores ativos do mundo. Custo é uma dimensão da excelência, mas o preço para nós é mais importante” — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Valor Econômico – A Vale se diz pronta para a mineração do futuro. Essa atividade será baseada em produtos de qualidade do portfólio da empresa que vão ter papel relevante para reduzir as emissões de gases poluentes. O níquel produzido no Canadá pode, por exemplo, atender a crescente produção de carros elétricos, enquanto o minério de ferro de Carajás, no Pará, será importante para descarbonizar a siderurgia, cliente da mineradora. “Somos dotados dos melhores recursos naturais do mundo”, diz o presidente, Eduardo Bartolomeo.

O executivo tem como um de seus gurus o ex-presidente da Vale Eliezer Batista (1924-2018), responsável pelo início da operação da empresa em Carajás, em plena Amazônia paraense. No momento em que volta a se falar no desenvolvimento das reservas de ferro de Simandou, na Guiné, que a Vale tentou explorar no passado, Bartolomeo descarta qualquer novo interesse da empresa no projeto, e diz: “Temos nosso Simandou em Carajás.” Simandou, tido como um dos maiores depósitos de minério de ferro do mundo, deve ter parte da exploração feita pela australiana Rio Tinto junto com chineses.

“Não sou contra Simandou. Somos a favor de um preço longo, justo, que traduza o valor do nosso negócio”, diz. Bartolomeo afirma que todas as projeções sobre preços do minério de ferro, feitas pela empresa, mercado e setor se mostraram erradas nos últimos anos. Segue a acreditar na China como motor da produção siderúrgica, e diz que o sonho seria ver o Brasil transformar-se, no futuro, em um “cisne negro”, capaz de ter maior impacto econômico. Ele assumiu a empresa logo depois da tragédia de Brumadinho (MG), em 2019, e trabalha para implantar um sistema de produção que leve a Vale à excelência operacional: “Esse é o legado que quero deixar”, afirma.

Ele voltou, semana passada, de Davos, na Suíça, onde se realiza todo ano o encontro da elite econômica mundial. Na reunião, ouviu e falou sobre Amazônia, que pode chegar ao ponto de “não retorno”. Mostra-se ainda preocupado com a ordem global, marcada pela guerra. A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor.

Valor: Como vê a Vale hoje, quando completa 80 anos?

Eduardo Bartolomeo: A Vale está, aos 80 anos, preparada para a mineração do futuro. Somos dotados, por razões históricas, dos melhores recursos naturais do mundo. Parte se deve ao dr. Eliezer [Batista, ex-presidente da empresa], que foi o gênio da Vale. E tivemos também o dr. Roger [Agnelli], que foi quem mais gerou valor para a companhia, nos deu os recursos de níquel e de cobre. Toda uma diversificação que, às vezes, foi longe demais. Brumadinho é uma força motriz disso tudo, de ser uma mineradora preparada para tomar ações consistentes, o ‘walk the talk’ [agir de acordo com as palavras], para ser operadora segura, confiável e preparada para o carbono zero.

Valor: Que mineração do futuro é essa que o senhor menciona?

Bartolomeo: Se voltar em 2002, alguém sabia que a China viria como veio? A China produzia 100 milhões de toneladas de aço [por ano]. Hoje faz 1 bilhão de toneladas. Tinha terminado de ter o 11 de setembro. Tem que olhar através desses 20 anos. Quando o faz, percebe que estamos no berço esplêndido da mineração. Estamos trabalhando juntos: ICMM [Conselho Internacional de Mineração e Metais], Ibram [Instituto Brasileiro de Mineração] e a Vale para fazer a mineração desejada. Sabia que tem 14 metais no seu iPhone? Não existe uma coisa na vida que você toque e não tenha minerais. Quando se fala em eletrificar [fazer a transição energética], significa que a mineração hoje é o óleo [petróleo] do século XX. Somos a força motriz da sociedade ‘limpa’. Essa transição energética vai ser movida pela mineração. Vivi o superciclo e vejo um ciclo longo [no aço]. E provo que todos os preços de longo prazo estão errados. Tem seis anos que as previsões para o preço do minério de ferro estão erradas. Nós, analistas e o setor [erramos].

Valor: Quais são os principais ciclos pelos quais a empresa passou?

Bartolomeo: O primeiro grande salto da Vale [depois da fundação, em 1942] foi na década de 1960. Foi quando o dr. Eliezer construiu Tubarão [porto em Vitória, no Espírito Santo]. Se construiu considerando o conceito de Capesize [grandes navios]. Eu tenho dois ídolos: Marcel Telles, da Brahma, e dr. Eliezer, da Vale. Dois gênios. Eliezer constrói Tubarão e cria o Capesize porque ele queria encurtar a rota para o Japão. E depois vem Carajás…

Valor: E na sequência vêm Mariana e Brumadinho…

Bartolomeo: Antes vamos retroceder um pouco. Roger [Agnelli] consolida o minério de ferro em 2001, internacionaliza a Vale em 2007 com a compra da Inco [hoje Vale Canadá]. Criamos os Valemax [supercargueiros], os portos na China [a Vale tem 17 portos na China], o BRBF [Brazilian Blend Fines, produto ferroso premium]. Com essa internacionalização e esse excesso de vontade de crescer, vieram aquisições que não faziam talvez sentido, mas naquela época faziam. Quando falo em de-risking [redução de risco] e reshaping [reestruturação], tem coisas acontecendo. Vendemos Moçambique [carvão], Nova Caledônia [níquel], CSI [California Steel Industries], estamos vendendo CSP [Companhia Siderúrgica do Pecém]. Não estamos destruindo patrimônio, mas preservando o que foi bom naquela época. A Vale depende do minério de ferro? Claro. Depende da China? Claro. Vai se desfazer dos base metals? Claro que não. Porque senão vamos ficar presos num cliente [a China]. Tivemos um choque de alerta por fator importantíssimo que é a segurança, a sustentabilidade. Não começamos a fazer isso agora. O Roger [Agnelli] era envolvido com sustentabilidade, a Fundação Vale, o Fundo Vale.

Valor: Mas e Brumadinho?

Bartolomeo: Brumadinho foi fato trágico e importante na história da Vale. O mínimo que temos que fazer é honrar as pessoas [que morreram] e fazer uma empresa excepcional. E é isso que temos feito.

Valor: Uma crítica que se faz à Vale é que a empresa não tem uma cultura forte como a Petrobras. E precisa trabalhar mais nos custos.

Bartolomeo: A Vale deu pouca atenção à excelência operacional. O custo é uma dimensão. Trabalhei dez anos na Brahma. Comecei na [siderúrgica] Cosipa, mas minha escola de gestão é a Brahma. A Vale não precisa cortar custos. É uma empresa que tem por dádiva, por dotação, os melhores ativos do mundo. Não é que não tenha que se preocupar com o custo, mas o preço é 30 vezes mais importante. Mas tem a questão da qualidade, da segurança. O legado que quero deixar é uma empresa de excelência operacional: confiável, segura.

Valor: Mas pelo lado da excelência operacional a Vale tem esbarrado em questões que levam o mercado a duvidar sobre a real capacidade da empresa de entregar metas.

Bartolomeo: Concordo. Qual é o nosso mantra? Um operador mais seguro, mais confiável e preparado para o carbono zero. Hoje estamos mais seguros. 1,09 é a nossa TRIF acumulada deste ano. Se pegar a do ano passado, é 1,41. A melhor referência da indústria é 1,98.

Valor: O que significa TRIF?

Bartolomeo: Total Recordable Injury Frequency [frequência total de lesões registráveis]. É um indicador internacional de acidentes, a taxa de todos os acidentes que acontecem na operação. Hoje a taxa é 52% melhor do que era em 2018, quando TRIF [da Vale] era de 2,25. Estamos muito seguros e segurança significa estabilidade. A jornada de excelência operacional nos metais básicos começou em 2018. Quando olha para o minério de ferro, temos operações excepcionais, mas temos também aquelas em que estamos aprendendo. O Sistema Sudeste [da Vale, em Minas Gerais] está com excesso de capacidade. Temos [as minas de] Brucutu e Itabira restritas por questão de barragem, um efeito colateral de Brumadinho. É uma exigência razoável e correta e que vamos resolver tanto com filtragem quanto com [a operação] das barragens de Torto e Itabiruçu [em MG]. Se olha para a Serra Sul [em Carajás, no Pará], o projeto é um sucesso. Está ‘rampando’ há quatro anos, com tecnologia nova, em corpo mineral novo e estamos fazendo quase 100% [da capacidade] nominal. Tem desafios operacionais, geológicos, geotécnicos, o jaspilito [um contaminante do minério de ferro]. Vejo coisas distintas [no portfólio]: metais básicos como ‘baby’, começando; e o minério de ferro misto [com aspectos positivos e negativos]. Conhecimento a Vale tem. São 120 anos no Canadá, 80 anos no Brasil, 40 na Amazônia, 50 na Indonésia. Queremos colocar [mais] gestão e isso vai dar resultados. E batemos sim os ‘guidances’ [metas]. Desde que estou aqui [como CEO], temos feito os ‘guidances’ de minério de ferro no ‘bottom’ [piso da meta].

Valor: Mas por que a Vale não tem uma cultura corporativa como a Petrobras tem?

Bartolomeo: Porque a Petrobras investiu por muito tempo na capacitação, na excelência operacional. Nós temos feito [esforços], mas nunca se adotou um método. Fiz o VPS global [sistema de produção da Vale], nos inspiramos na Exxon. É questão de foco e assim fizemos até porque [depois de] Brumadinho precisava. A Petrobras está avançada em relação a nós, tem base técnica sólida. Nós temos que dar mais ênfase. Estamos falando de excelência operacional, não de sermos bons operacionalmente.

Valor: Onde estão os problemas a serem resolvidos nos metais?

Bartolomeo: Temos um único problema, nas minas subterrâneas de Sudbury [Canadá], onde houve greve. As plantas de Sudbury são de classe mundial. Temos refinaria no País de Gales que tem certificação de qualidade total, planta no Japão que é um relógio. E nossa planta na Indonésia opera muito bem. Long Harbour [no Canadá] conseguiu atingir capacidade nominal. Temos uma mina em Voisey’s Bay [Canadá] que opera bem.

Valor: Qual é o problema nas operações de níquel de Sudbury?

Bartolomeo: ’Engagement’ [engajamento], método, gestão. Não é falta de conhecimento. Não pode se achar que empresa com 120 anos perfurando terra a 2,5 km [de profundidade] não sabe o que faz. Nossos resultados em níquel vieram bons no primeiro trimestre e virão ainda melhores. No Brasil, temos problemas de desempenho em Salobo e Sossego, neste caso algo específico em razão da pandemia. Problema sistêmico a ser resolvido operacionalmente nos metais básicos é Sudbury.

Valor: O senhor esteve em Davos recentemente. Como foi?

Bartolomeo: Encontrei muita gente, falei com WWF [World Wide Fund for Nature], Conservation International, com [o ministro] Paulo Guedes. Almocei em mesa com o prefeito de Kiev [Vitali Klitschko]. Acabou a ordem mundial. A Rússia tem assento permanente no conselho de segurança da ONU, isso foi desenhado para não ter guerra. É a primeira vez que um país invade outro país soberano, isso vai mudar a ordem mundial.

Valor: Há notícias sobre investidores deixando a China. Preocupa?

Bartolomeo: Três temas foram falados em Davos: o slowdown [retração] na China devido ao lockdown [de covid-19], Rússia e geopolítica. Falou-se também de nações amigas. O Brasil tem muito potencial. Meu sonho é que o Brasil fosse um ‘cisne negro’ [algo imprevisível, com grandes consequências econômicas]. Que em 20 anos o Brasil estivesse produzindo 60 milhões de toneladas de aço [por ano]. Quando me formei, há 34 anos, o Brasil fazia 24 milhões de toneladas de aço. Hoje faz 30 milhões de toneladas de aço.

Valor: A Vale é cobrada por não ajudar a avançar na cadeia de valor, investindo na produção de aço.

Bartolomeo: A Vale não pode fazer a cadeia de valor se não tiver mercado. Eu não faço o mercado, não sou consumidor de aço. A Vale não tem poder nem de governo nem de mercado. [a siderurgia] não é nosso negócio, não adianta.

Valor: Mas voltando à China…

Bartolomeo: China, Rússia e [uma possível] recessão americana são temas na agenda global. Em Davos, se discutiu biodiversidade. Estamos perdendo biodiversidade no mar, na floresta. A Amazônia pode chegar em um ponto de não retorno. O Brasil, o Estado do Pará e a Vale estão posicionados no epicentro da solução. Temos metas ambiciosas de reflorestamento. Vamos fazer um parque biotecnológico, no Pará, reflorestar a Amazônia. Temos programas agroflorestais. Por que isso é importante para a Vale? Quer ser boazinha? Não. A Vale é uma empresa baseada na natureza. Foi Brumadinho que nos acordou para isso? Não. Mas Brumadinho acelerou esse entendimento. É claro que temos que preservar e gerar riqueza local. E a pessoa que está lá [na floresta] tem que ser impactada positivamente. Eu estive em Thompson, Sudbury [no Canadá], tem hospital regional, é cidade de primeiro mundo.

Valor: O Pará é um dos Estados que mais desmataram a Amazônia.

Bartolomeo: O Pará tem um tesouro [a preservação da floresta], mas a ameaça [de desmatamento] existe. A Vale protege. Você sobrevoa de helicóptero [a região de Carajás, no Sudeste do Pará] e só vê floresta. Mas aquilo é um pedacinho da Amazônia. Se não tivesse a Vale lá, não teria nada.

Valor: O licenciamento ambiental é uma preocupação da Vale?

Bartolomeo: O licenciamento é prioridade maior a médio prazo. A curto prazo tem dificuldades operacionais. Trabalhamos para voltar com [operações de] barragens e filtragens que adicionam 30 milhões de toneladas [de minério de ferro]. Tem que ‘rampar’ o S11D [em Carajás]. Ali tem mais 10 milhões de toneladas e há algumas dificuldades no sistema norte [de Carajás]. Queremos transformar o ITV [Instituto Tecnológico Vale, em Belém, PA] em âncora e fazer um grande ‘hub’ de biotecnologia [no Pará]. O ITV ajuda o ICMBio [Instituto Chico Mendes], pode ajudar a Secretaria do Ambiente do Pará. O licenciamento ambiental legitima nosso processo. O Ibama e ICMBio estão alinhados conosco.

Valor: A Vale está bem posicionada frente aos concorrentes?

Bartolomeo: Está todo mundo enganado com a demanda de aço no mundo no futuro. Se acredita que [a demanda] se limita à China, mas se esquece que o sudeste asiático vai crescer. Tem [o desenvolvimento da] África, do Brasil, além da necessidade de refazer a infraestrutura [no mundo]. O aço vai continuar forte e a descarbonização do aço passa pela qualidade. A Vale está bem posicionada para a transição energética. Ninguém tem melhores reservas. Temos qualidade no níquel e no minério de ferro. Há uma ideia de que o minério de ferro é abundante. Onde?

Valor: Em Simandou.

Bartolomeo: A Austrália faz 900 milhões de toneladas [de minério de ferro por ano] e precisa repor 270 milhões de toneladas em dez anos. Nós estamos ganhando prêmios de US$ 5 por tonelada no BRBF porque os australianos têm problemas [em repor capacidade]. Simandou [na Guiné] vai sair, não tenho dúvida, mas precisa deslocar 20 mil pessoas, construir 169 pontes, 650 quilômetros de ferrovia.

Valor: A Vale não tem mais interesse nesse projeto?

Bartolomeo: Temos nosso Simandou em Carajás. Simandou era interessante antes de Serra Sul. Agora não faz sentido. A Vale tem as melhores reservas e a maior capacidade de crescer do mundo. Não sou contra Simandou. Quero que o preço seja estável, não o superciclo. Preço de US$ 70 mil por tonelada no níquel leva o chinês a fazer o ‘pig iron’, o que é ruim para a indústria de níquel. Somos a favor de um preço longo, justo, que traduza o valor do negócio. A Apple valia menos que a Vale em 2007. Hoje vale mais de US$ 2 trilhões. Se pegar todo o valor de mercado das mineradoras, não soma US$ 1 trilhão.

Valor: Apesar das vantagens, a diferença de valor da Vale para as australianas permanece.

Bartolomeo: É um ‘gap’ de percepção de risco que vamos eliminar. Por isso estamos recomprando ações da companhia. A lógica da recompra está baseada na ideia de que existe distorção de valor. A Vale confia no seu negócio, sabe que os preços de longo prazo dos minérios serão outros; sabe que existe uma distorção de percepção de risco, estou tranquilo.

Valor: E as barragens?

Bartolomeo: Com Brumadinho, a indústria aprendeu. A Vale vai valer mais quando os números de segurança se traduzirem no ‘guidance’. Falamos que íamos fazer 195 mil toneladas de níquel e fizemos. E isso só é possível se as operações foram estáveis, seguras. O que fez a Vale diferenciada foram pessoas que pensaram grande. O que ambiciono para daqui a 20 anos? Ser empresa segura, confiável, carbono zero. E que minha filha, de 11 anos, queira vir trabalhar na Vale por ser empresa não só segura, mas ‘limpa’ [ambientalmente], harmoniosa com sociedade e com a natureza, que contribui para o desenvolvimento. Não se trata de voo de galinha, mas do ganso canadense [que cruza longas distâncias]. A Vale era empresa arrogante, falava demais e fazia de menos. Hoje conhecemos nossos ‘gaps’ e nosso propósito é melhorar a vida e transformar o futuro juntos.

Fonte: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/06/01/meu-legado-vai-ser-de-excelencia-operacional.ghtml

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