Valor Econômico – Uma boa estruturação inicial de projeto, além de mapeamento de rentabilidade econômica, ao futuro investidor, são desafios para atrair a iniciativa privada para empreendimentos de infraestrutura urbana sustentáveis. A análise partiu do diretor de Planejamento e Relações Institucionais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), Nelson Barbosa.
Após participar do “Fórum Internacional Inovação Financeira para as Cidades: estruturação de projetos para desenvolvimento urbano resiliente e sustentável”, promovido pelo BNDES em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), na sede do BNDES, na capital fluminense, nesta terça-feira (26), Barbosa foi questionado sobre o que seria necessário para maior interesse privado, em iniciativas sustentáveis de infraestrutura, nas cidades.
“Isso tem dois grandes desafios. Um é preparar os projetos, no que se chama de ‘bankable projects’, projetos bancáveis, financiáveis. Porque várias vezes o projeto tem tantas esferas que um agente privado sozinho nem começa o projeto”, comentou.
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Ele usou como exemplo um projeto de infraestrutura que dependa de um imóvel com disputa judicial, que possa envolver questões de patrimônio histórico, meio ambiente, questões sociais. “Então você precisa do poder público para resolver questão jurídica e política do imóvel. Essa fase da preparação dos projetos, esse é um gargalo”, admitiu, embora tenha destacado que a estruturação de projetos, no momento, está bem melhor do que no passado.
“Mas, feita a preparação[do projeto] para a iniciativa privada vir, esse projeto tem que ser estável. Iniciativa privada busca lucro. E aí você tem que ter um financiamento, uma estrutura de contrato que dê a segurança jurídica e financeira para vir a iniciativa privada”, ponderou.
O executivo informou que o BNDES participa ativamente em programas e iniciativas para a resiliência de cidades, como o Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR), em colaboração com ministérios e Estados. Lançado ano passado, o programa é uma iniciativa do governo federal, coordenada pelos Ministérios do Meio Ambiente, das Cidades e da Ciência, Tecnologia e Inovação para aumentar a qualidade ambiental e a resiliência das cidades brasileiras frente aos impactos da mudança climática.
Além disso, continuou ele, o banco financia e apoia projetos urbanos focados em infraestrutura verde, mobilidade sustentável, além de ter linhas de financiamento voltadas para a infraestrutura de municípios, disse o diretor.
No entanto, durante o evento, Patricia Ellen, sócia da Sistemiq Ltd, consultoria internacional focada em trazer soluções que ajudem empresas a entrar na economia de baixo carbono, comentou que atualmente, no mundo, grande parte de projetos de infraestrutura sustentáveis, nas cidades, ainda são mais tocados por gestores públicos, e não por iniciativa privada.
No caso do Brasil, ela pontuou alguns desafios para adaptação climática no país, que são originadas de características brasileiras, específicas do território. Entre elas o ainda elevado grau de desigualdade social do país, que dificulta capacidade de adaptação de população mais vulneráveis, economicamente, além de incidência elevada de doenças tropicais e infectocontagiosas, com maior risco de exposição após eventos climáticos extremos. A especialista lembrou crise de leptospirose observada no pós-crise da tragédia no Rio Grande do Sul, no ano passado, quando o Estado gaúcho foi assolado por enchentes, impulsionadas por infraestrutura urbana inadequada, principalmente na capital Porto Alegre.
“O que temos hoje é uma realidade que o investimento e financiamento climático estão avançando, mas não está na velocidade necessária”, disse.
No entanto, Ellen considerou que, casos investimentos à adaptação climática sejam feitos no Brasil, na velocidade necessária, o país poderia gerar mais empregos, com obras de grande porte em infraestrutura urbana, por exemplo, e assim movimentar mais a economia, com maior ritmo de inclusão produtiva da população brasileira.
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