Estadão – Uma referência ao passado dos antigos bondes elétricos pode ser em breve materializada no centro de São Paulo. A Prefeitura pretende lançar um edital no próximo mês que incluirá a instalação de um modelo original do antigo meio de transporte na calçada do Viaduto do Chá, em frente ao Shopping Light.
A ideia é que o bondinho funcione como uma Central de Informação Turística, instalado onde hoje há uma banca de jornal. O exemplar ainda está em prospecção, mas a gestão Ricardo Nunes (MDB) relata que não conseguiu encontrar um veículo hábil que realmente tenha trafegado no centro há décadas.
A proposta remeterá a uma das principais linhas de bonde elétrico da cidade. Esse trajeto passava pelo antigo Viaduto do Chá e funcionou por décadas, na primeira metade do século 20.
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Além disso, a localização é uma referência à história dos bondes de outra forma: o Shopping Light fica no Edifício Alexandre Mackenzie, inaugurado em 1929 e antigo endereço da The São Paulo Tramway, Light and Power (mais conhecida apenas como Light). A companhia é responsável pela implantação dos bondes elétricos na cidade, em 1900.
A iniciativa integra um projeto de remodelação e recuperação estrutural do Viaduto do Chá e seu entorno, cuja licitação deve ser publicada em outubro. A estimativa da gestão Nunes é de início das obras entre fevereiro e março do ano que vem, com entrega completa em 18 meses e custo de R$ 70 milhões.
“A gente está buscando um bonde, para que a gente (a vencedora da licitação) possa pegar, fazer a recuperação, para ser um ponto de informações turísticas”, resumiu ao Estadão o secretário municipal de Infraestrutura e Obras, Marcos Monteiro.
A Prefeitura ainda não definiu, contudo, a nova localização da banca de jornal que será transferida para a colocação do bonde. À reportagem, a Associação dos Donos e Permissionários de Bancas de Jornal e Revistas da Cidade de São Paulo (Asbajore SP) disse desconhecer o projeto.
Já o Shopping Light apoia a iniciativa. Ao Estadão, confirmou ter tratado do tema com a Prefeitura e que se colocou “à disposição para ajudar como o necessário”.
Em frente ao bondinho, também será feito um recuo na calçada, para o embarque e desembarque de passageiros de táxi, transporte por aplicativo e afins, a exemplo do que já existe na entrada da sede da Prefeitura. O calçamento daquele entorno passará por uma alteração, do mosaico português para o granito, com as mesmas cores atuais.
A proposta foi apresentada ao conselho gestor da Área de Intervenção Urbana (AIU) do Setor Central. O grupo é ligado à Prefeitura e com representação da sociedade civil.
Na reunião, alguns integrantes manifestaram preocupação se o bonde funcionaria como um “falso histórico” (porque não será um exemplar que trafegava por lá e, tampouco, estaria sobre o trajeto original). Também foi questionado se teria impacto no fluxo de pedestres, além de outros pontos.
A principal polêmica da licitação é outra, contudo: a instalação de guarda-corpos de vidro na marquise da Praça do Patriarca — projetada pelo renomado Paulo Mendes da Rocha, um dos dois únicos brasileiros vencedores do Prêmio Pritzker, o “Nobel” da arquitetura.
A justificativa da gestão Nunes é de evitar descarte de lixo e dejetos em geral na Galeria Prestes Maia, localizada abaixo da construção. Organizações e a família do arquiteto defendem, contudo, que a intervenção irá descaracterizar a construção, dentre outros pontos.
Modelo do bonde não está definido
Gerente de Projetos de Engenharia da empresa municipal SPObras, responsável pelo projeto, o arquiteto Marcelo Bruçó contou à reportagem ter “vasculhado a cidade” em busca de bondes. “Fomos até em Santos procurar (mas, lá, não foi encontrada uma opção)”, disse.
O arquiteto apontou que a ideia é encontrar uma solução doméstica, em vez de importar um exemplar da Europa, como foi feito em algumas cidades. Há três opções principais hoje cogitadas, segundo Bruçó. A compra e restauro será de responsabilidade da empresa contratada na licitação.
O transporte por bondes foi implementado na capital paulista a partir de 1900, pela Light. O funcionamento de uma parte das linhas se estendeu até 1968.
Hoje, as únicas referências nas ruas da cidade são alguns remanescentes de trilhos preservados, como no Largo da Batata, na zona oeste. Além disso, outros testemunhos foram recentemente encontrados em obras públicas, como durante a remodelação dos calçadões do centro velho e na implantação da Linha 6-Laranja de metrô.
No Estado de São Paulo, uma das principais referências hoje é Santos. O município litorâneo mantém uma linha turística de bonde em operação no centro histórico, implantada há 25 anos.
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