Valor Econômico – O Sul do Brasil tem economia diversificada e indicadores sociais acima da média nacional. No entanto, enfrenta problemas logísticos que dificultam o escoamento da produção agrícola e industrial e impedem um crescimento mais robusto. Mais da metade das ferrovias da região está fora de operação. Já as rodovias estão em condição pior do que a média brasileira, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT). Tudo isso eleva o custo de transporte dentro dos Estados e para fora deles. Acaba, assim, desincentivando investimentos que poderiam dinamizar ainda mais as economias do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina – quarta, quinta e sexta maiores do país.
Não é à toa que 81% dos empresários do Sul apontaram os gargalos no transporte como o principal problema de infraestrutura da região em pesquisa conduzida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) no ano passado. De acordo com Roberto Muniz, diretor de relações institucionais da entidade, os problemas rodoviários no Sul têm impacto no número de acidentes, nos danos ao meio ambiente e, por consequência, na competitividade regional. “A infraestrutura deficitária afeta a segurança viária, eleva a emissão de poluentes, gera engarrafamentos e pressiona os custos logísticos em virtude do aumento do consumo de combustível e da deterioração dos veículos”, resume.
Guilherme Bertani, presidente da Associação Empresarial de Joinville (SC), sexta maior cidade do Sul, disse que já há empresas adiando projetos por conta de problemas de infraestrutura. “Uma importante multinacional do setor siderúrgico fez investimento bilionário para se instalar em São Francisco do Sul (SC), e a infraestrutura logística foi um dos fatores preponderantes para a escolha da cidade, há 22 anos”, conta, sem revelar a companhia. “Hoje, o maior problema dela é justamente a infraestrutura logística. Isso faz com que a empresa não faça novos investimentos em sua unidade.”
As notícias estão em todo lugar. Reportagens e entrevistas exclusivas sobre o setor ferroviário, só na RF — desde 1940.
Por R$ 8,42/mês — parcele em 12x sem juros.
“Um frete que deveria custar R$ 1.000, no Sul custa R$ 1.370”
— Fernanda Rezende
A ArcelorMittal, siderúrgica que tem uma unidade em São Francisco do Sul, reconhece que a infraestrutura é um desafio para escoar sua produção. Mas ressalta que isso não é impeditivo para investimentos. “Entre 2021 e 2024, R$ 2 bilhões foram destinados para obras de expansão”, informa a empresa.
Segundo a Pesquisa CNT de Rodovias, em 2024, o estado de conservação das estradas aumentava em 37% o custo operacional de transporte para as empresas da região. No Rio Grande do Sul, o aumento chegou a 38,5%, contra 32,5% na média nacional. “Um frete que deveria custar R$ 1.000, no Sul acaba custando R$ 1.370”, diz Fernanda Rezende, diretora executiva interna da CNT. De acordo com ela, há menos rodovias em ótimo e bom estado na região do que na média do Brasil – 30,1% contra 33%, respectivamente -, e há até menos rodovias pavimentadas: 9,9% contra 12,6%.
Expansão
A sobrecarga da infraestrutura logística nos Estados do Sul, que acaba por limitar a expansão dos negócios – e, por consequência, da atividade econômica – de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é agravada pelo custo para o financiamento de eventuais melhorias e até mesmo pela falta de empresas capazes de tocar as obras necessárias, dizem consultores.
“Há muitos projetos, mas não existem tantas empresas assim para assumi-los, principalmente considerando o nível dos juros e a incerteza de hoje”, afirma Paulo Uebel, sócio da consultoria Ernst & Young especializado em relações de governo, sobre a dificuldade atual de realizar obras necessárias em tempo razoável para a região.
O governo do Paraná, por exemplo, tenta, desde 2021, relicitar seis lotes de concessão das principais rodovias que cortam o Estado, incluindo neles obras para duplicação de 1,8 mil km de estradas. Só em outubro deste ano é que o trabalho deve ser concluído, com o leilão dos últimos dois lotes. “Se você lança tudo de uma só vez, não tem empresa suficiente para disputar”, pondera Uebel.
Problema semelhante dificulta o avanço de projetos para melhorias na rede ferroviária, diz Vinicius Daher, sócio-diretor da consultoria Alvarez & Marsal responsável pela área de infraestrutura. Segundo Daher, há poucas empresas no Brasil atualmente com capacidade para gerir uma linha férrea. Isso atrapalha os planos para modernização da Malha Sul, projeto visto por ele como crucial para redução do custo logístico da região.
De acordo com a Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), o transporte ferroviário é, em média, 30% mais barato do que o rodoviário. Um trem com cem vagões carrega o mesmo que 150 caminhões, desafogando rodovias e emitindo 80% menos poluentes.
A Malha Sul tem 7.223 km de extensão e é administrada pela Rumo Logística. Contudo, cerca de 60% desses trilhos estão inativos, segundo os Estados. Em julho, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, junto com Mato Grosso do Sul, assumiram um compromisso público de trabalhar na reativação dos trilhos. O governo federal pretende relicitar aconcessão em 2027. “O porto de Paranaguá (PR) até funciona”, acrescenta Daher. “Mas é preciso fazer a carga chegar até lá”, complementa.
A Rumo informou que mantém diálogo com o Ministério dos Transportes e demais autoridades para contribuir, “de forma racional e efetiva, para o endereçamento da complexidade inerente à configuração atual da Malha Sul”.
Luiza Bublitz, presidente da Aliança Navegação e Logística, vê na integração entre portos, ferrovias e rodovias uma solução para os problemas de transporte no Sul. Segundo ela, a operação dos terminais marítimos da região tem crescido. No entanto, poderiam ser ainda maiores com melhorias em estradas e portos. “Em determinadas localidades, as vias de acesso aos portos apresentam congestionamentos frequentes. Há também portos com restrições de calado. Outro ponto é a infraestrutura rodoviária e ferroviária insuficiente em algumas regiões, que encarece e alonga o tempo de transporte até o porto”, lista.
O governo do Paraná informou ao Valor que tem um pacote de obras de R$ 6 bilhões em infraestrutura para se firmar como “o centro logístico da América do Sul”. Santa Catarina relata que está na terceira posição nacional na categoria Infraestrutura no Ranking de Competitividade dos Estados e que sua economia foi a que mais cresceu, entre todas as unidades da federação, nos últimos 12 meses, o que indica que não há desvantagem em relação a outros Estados. Já o Rio Grande do Sul reconhece que sua infraestrutura estava historicamente deficiente, mas hoje se encontra em processo consistente de recuperação e modernização.
O governo federal, por sua vez, informa que o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) contempla R$ 11 bilhões em investimentos em transporte rodoviário na região, em 50 projetos. Desses, 25 estão em andamento e três já foram concluídos.
VÁ ALÉM DA MANCHETE
O setor ferroviário é complexo e as notícias do dia a dia são apenas a ponta do iceberg. Para entender o cenário completo, é preciso de contexto e a visão de quem cobre o setor desde 1940.
A cada edição, a Revista Ferroviária traz reportagens aprofundadas, estudos de mercado e entrevistas exclusivas sobre os temas que realmente importam: de novos VLTs e projetos privados a desafios de manutenção, o futuro da tecnologia e muito mais.
Seja o primeiro a comentar