O Globo – É uma rotina conhecida nas grandes cidades: perde-se um tempo precioso para ir e voltar de qualquer lugar. Os habitantes das dez maiores capitais brasileiras gastam em média 116,5 minutos diários em deslocamentos, revelou a nova rodada da pesquisa “Viver nas cidades: mobilidade urbana”, do Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos. Belém e Manaus lideram o ranking da lentidão nos transportes, com mais de duas horas por dia. Mesmo nas capitais com desempenho mais favorável, a marca se aproxima de uma hora e 40 minutos — no Rio são 118,9 minutos, e em São Paulo 118,5.
Comparações internacionais não servem de alento. No Relatório Global de Transporte Público 2024, elaborado com base em dados do aplicativo Moovit, o Rio de Janeiro aparece entre as dez cidades com maior tempo médio de deslocamento no mundo (58 minutos), com Brasília logo atrás (57). São Paulo e Curitiba aparecem em patamar semelhante a Madri e Toronto (55).
O custo econômico do tempo perdido é inestimável. Tomando o dado médio brasileiro de 116,5 minutos por dia, um trabalhador que se desloca cinco dias por semana gasta 9,7 horas semanais com locomoção ou, em 48 semanas úteis, cerca de 466 horas por ano. É o equivalente a 58 dias de trabalho de oito horas, quase dois meses. Parte do tempo gasto em deslocamento é decerto inevitável, mas parcela relevante decorre de escolhas urbanas e políticas públicas que podem ser corrigidas.
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O investimento consistente em transporte coletivo de alta capacidade reduz o tempo de viagem e amplia o acesso. Os corredores de BRT no Rio significaram ganho relevante de tempo, e o mesmo pode ser dito da malha de metrô em São Paulo. Embora mais controverso, outro recurso que funciona para diminuir o tráfego são pedágios urbanos — em Estocolmo, a queda no trânsito foi de 20%.
Nada, contudo, tem tanto efeito quanto o desenho urbano. É preciso incentivar a moradia em áreas centrais, perto de onde estão as oportunidades de trabalho. Por isso são tão importantes programas de revitalização como o Reviver Centro, no Rio. É fundamental atrair moradores e serviços de volta ao coração das metrópoles. Além disso, a pandemia mostrou que há espaço para trabalho remoto e modelos híbridos quando a atividade permite. Um único dia de home office por semana reduz consumo de energia e emissões ligadas ao deslocamento. Não vale, evidentemente, para todas as profissões, mas é necessário integrar esse recurso às políticas de mobilidade.
O poder público deveria estabelecer metas de tempo de viagem nos corredores urbanos e criar indicadores para monitorar as políticas destinadas a trazer moradias para perto do emprego. Do contrário, continuaremos a desperdiçar quase duas horas por dia no transporte. Não é apenas um problema de trânsito, mas de produtividade, saúde e qualidade de vida. Cidades que encurtam deslocamentos produzem mais, poluem menos e garantem mais tempo e liberdade a seus cidadãos.
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