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O custo ambiental das rodovias no Brasil

Valor Econômico – Rodovias continuam sendo um dos pilares da política de infraestrutura no Brasil. Em um país marcado por grandes distâncias, gargalos logísticos e profundas desigualdades regionais, investir em estradas costuma ser visto como sinônimo de crescimento econômico e de integração territorial. Mas qual é o impacto ambiental dos investimentos em rodovias? Além disso, é possível mensurar o custo econômico da deterioração ambiental decorrente desses investimentos? Em um estudo recente, “Highways and greenhouse gas emissions” (Rodovias e emissões de gases de efeito estufa), publicado na revista Transportation Research Part D, avaliamos os custos ambientais associados à expansão rodoviária no Brasil.

O estudo estima o impacto dos investimentos rodoviários nas emissões de gases de efeito estufa nos municípios brasileiros. Os resultados sugerem que um aumento de 10% nos investimentos em rodovias eleva as emissões de CO2, em média, em 0,25%. Esse efeito não se restringe ao setor de transportes. As estimativas indicam impactos relevantes também dos investimentos em rodovias nas emissões de CO2 provenientes especificamente dos setores de energia e, sobretudo, de mudança do uso da terra; um resultado particularmente relevante em um país onde o desmatamento segue como um dos principais vetores das emissões.

O estudo também busca traduzir esse impacto ambiental em uma métrica comparável às taxas de retorno tradicionalmente utilizadas no planejamento de infraestrutura. Ao calcular uma Taxa de Desconto das Emissões (TDE), mostramos que as emissões induzidas pelas rodovias funcionam como um desconto ambiental sobre a taxa de retorno econômica. Em média, esse desconto é da ordem de 3%. A distribuição regional da TDE pode ser vista no gráfico abaixo.

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m termos simples, parte do ganho econômico gerado pelos investimentos rodoviários é neutralizada pelo custo social das emissões de carbono que esses investimentos provocam. Os ganhos econômicos puros para o Brasil, sem considerar os custos ambientais, são estimados em torno de 21%, em média. Grosso modo, os benefícios econômicos descritos aqui podem ser entendidos como o aumento da renda local causado por investimentos em infraestrutura rodoviária. Logo, quando se descontam os custos sociais do carbono, os ganhos econômicos dos investimentos em rodovias caem, em média, para 17%.

Essa forma de mensurar os custos ambientais altera o enquadramento do debate. O estudo não sugere que rodovias sejam, em geral, investimentos indesejáveis. Mesmo após incorporar o desconto ambiental, a “Taxa de Retorno Econômico Líquido” (TREL), ou seja, a taxa que desconta os custos ambientais dos investimentos rodoviários, permanece positiva e elevada em grande parte do território brasileiro, refletindo décadas de subinvestimento em infraestrutura. O ponto central é que quanto maior o desconto ambiental, isto é, quanto maiores os custos das emissões internalizados na análise, menor é o retorno econômico líquido do investimento. Ignorar esse desconto leva à superestimação dos benefícios e a decisões potencialmente ineficientes do ponto de vista social.

A distribuição espacial da TDE revela que os custos ambientais não são homogêneos no espaço: eles se concentram justamente em regiões menos populosas, mais pobres e ambientalmente sensíveis. Nos casos mais extremos, o elevado desconto ambiental pode levar o retorno econômico líquido a valores próximos de zero ou até negativos, especialmente em localidades com alta poluição e forte propensão ao desmatamento. Esse resultado sugere que avaliações baseadas exclusivamente em retornos econômicos médios podem mascarar perdas socioambientais relevantes em determinadas áreas do país.

Os resultados também reforçam a necessidade de uma abordagem mais integrada do planejamento de transportes, que vá além da avaliação isolada de projetos rodoviários. Em determinadas regiões do país, especialmente aquelas com elevada sensibilidade ambiental ou vocação logística específica, a priorização de modos alternativos, como o transporte ferroviário e aquaviário, pode reduzir significativamente os custos ambientais associados à expansão da infraestrutura, ao mesmo tempo em que preserva, ou até amplia, os ganhos econômicos. A comparação entre projetos e modos, à luz de métricas que internalizam os custos das emissões, permite uma alocação mais eficiente dos recursos públicos, evitando investimentos rodoviários com baixo retorno socioambiental líquido e favorecendo soluções de transporte mais compatíveis com as características territoriais e produtivas de cada região.

Além disso, quando os investimentos rodoviários se mostram economicamente justificáveis, os resultados reforçam a importância de incorporar boas práticas ambientais ao longo de todo o ciclo de vida dos projetos, do planejamento à operação. Isso envolve o uso de materiais de baixo carbono e maior incorporação de insumos reciclados, reduzindo as emissões associadas à construção e à manutenção. Soma-se a isso a necessidade de fortalecer a resiliência climática e a adaptação da infraestrutura, com soluções de engenharia capazes de responder ao aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos, como chuvas intensas e ondas de calor, por meio de materiais mais duráveis, sistemas adequados de drenagem e estratégias de manutenção preventiva. Em conjunto, essas práticas podem contribuir para reduzir o desconto ambiental associado às rodovias, elevar o retorno econômico líquido dos investimentos e alinhar a política de infraestrutura a uma estratégia de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Fonte: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-custo-ambiental-das-rodovias-no-brasil.ghtml

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