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GPA, Raízen e Intercement: Por que tantas empresas têm entrado com pedidos de recuperação?

Estadão Juros elevados por um período prolongado, somados a problemas de gestão em alguns casos e de governança em outros, estão por trás das crises que atingem grandes empresas brasileiras com dívidas bilionárias. Além da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar – que pediram recuperação extrajudicial na terça-feira, 10 –, companhias como AmbiparCSNIntercement e Braskem também estão enfrentando uma fase turbulenta, o que tem exigido medidas adicionais para contornar a situação, como venda de ativos, negociação com novos sócios e reestruturação de débitos.

“Do segundo semestre do ano passado para cá, não tem sido fácil para as empresas, por uma combinação de fatores. Mas o juro é o principal deles. Só que juro não machuca quem não está endividado”, diz Renato Donatti, diretor de rating de empresas da agência de classificação de risco Fitch.

Na visão de Donatti, a taxa de juro é o denominador comum desses casos. Desde junho do ano passado, a taxa básica de juros (a Selic) está em 15% – no maior patamar em quase duas décadas. Para trazer a inflação para a meta de 3%, o Comitê de Política Monetária (Copom) endureceu a condução da política monetária, o que impactou diretamente o custo de financiamento das companhias. Isso afetou, principalmente, empresas que fizeram grandes investimentos quando o juro estava baixo com premissas que não incluíam uma Selic de 15%.

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Donatti destaca que a trajetória da Selic não só a partir de junho, mas desde 2022 tem afetado as empresas. Nos últimos quatro anos, a média da Selic ficou em 13%, e as projeções indicam que ela não cairá para menos de 10% até o fim de 2027. “É muito difícil para uma empresa aguentar a pressão de uma taxa de juro dessa por seis ou sete anos.”

Segundo cálculos da Fitch, empresas brasileiras que hoje têm uma dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa operacional anual gastam 50% de sua geração de caixa pagando juros de dívida. Com os 50% restantes, ainda é preciso arcar com custos como impostos e capital de giro.

A diretora da agência de classificação de risco Moodys Patricia Maniero também destaca o juro como principal explicação para as crises. Ela pondera, entretanto, que há um grupo de companhias mais cautelosas – como as do setor de locação de veículos – que estão avançando apesar do juro elevado. “Tem empresas que reavaliaram sua estratégia financeira, ajustaram custos, repensaram a alocação de capital, e estão conseguindo navegar.”

Para o sócio-gestor do escritório de advocacia Pinheiro Neto, Fernando Alves Meira, crises no setor corporativo brasileiro não são uma novidade, mas, desta vez, o volume das dívidas chamam atenção. “Quando você vê o tamanho dessas empresas, é muito impactante”, diz. “O que frustra é que empresas não aprendem que têm de ser prudentes. Grupos que deveriam ser os mais fortes, com mais condições de se defender em um cenário adverso, estão com muita dificuldade.”

O tamanho do problema

Um levantamento realizado pela NEOT – uma plataforma que consolida os casos de recuperação judicial e insolvência – ajuda a dimensionar o tamanho da dificuldade das companhias brasileiras. No ano passado, foram 1.987 pedidos de recuperação judicial e 112 de recuperação extrajudicial.

Em 2024, foram 2.146 pedidos de recuperação judicial e 95 de extrajudicial.

“O aumento da taxa de juros dificulta o acesso ao crédito no mercado bancário habitual”, afirma Júlio Moretti, CEO da NEOT. “E, para as grandes empresas, esse não é o maior dos problemas, mas torna muito mais cara a captação própria por meio de debêntures.”

Segundo Max Mustrangi, CEO da Excellance e especialista em recuperação judicial, a situação financeira das empresas foi corroída por dentro, após anos de juros elevados, crédito seletivo e margens comprimidas, em meio a um ambiente econômico “aparentemente estável”. “Se em 2016 a crise chegou de fora para dentro, agora ela vem de dentro para fora.”

Em 2016, destaca Mustrangi, a crise das companhias resultou de uma recessão profunda que paralisou a economia e desmontou cadeias inteiras de investimento.

O alívio virá?

A grande dúvida é se o alívio dos juros vai mesmo acontecer.

No encontro de janeiro, o Copom manteve a Selic em 15%, mas indicou que o ciclo de corte poderia começar no encontro de março, que ocorre na semana que vem.

A ampla expectativa era de um corte de 0,50 ponto porcentual, mas a guerra no Irã e a consequente alta do preço do petróleo trouxeram dúvidas em relação aos próximos passos do Banco Central.

“A gente acha que começa (o corte de juros) em março, e o Banco Central tem espaço para conduzir um ciclo de queda”, afirma Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office. “Na nossa cabeça, o ciclo de corte é algo entre 2,5 pontos porcentuais e 3 pontos porcentuais, obviamente, se o cenário continuar conforme esperado, com inflação convergindo para a meta e o mercado de trabalho desacelerando um pouco.”

No último relatório Focus, do Banco Central, os analistas consultados estimam que a taxa de juros deve encerrar o ano ao redor de 12%. Para 2027, a expectativa é a de que os juros recuem para 10,50%. 

Fonte: https://www.estadao.com.br/economia/gpa-raizen-e-intercement-por-que-tantas-empresas-tem-entrado-com-pedidos-de-recuperacao/

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