Valor Econômico – Apesar do cenário global turbulento e da incerteza em torno das eleições no Brasil neste ano, o setor de infraestrutura deverá seguir atraindo interesse do mercado neste primeiro semestre, em meio à uma onda de leilões bilionária no segmento, segundo especialistas da área.
“O sentimento geral é que setores de infraestrutura, óleo e gás e energia são defensivos, vão continuar tendo demanda, investimentos”, afirmou Daniel O’Czerny, diretor de financiamento de infraestrutura global para o Citi na América Latina.
Um sinal disso foi a participação forte de grandes grupos no leilão de reserva de capacidade de energia, realizado na semana retrasada, com cem empreendimentos contratados e R$ 64,5 bilhões em investimentos previstos, destacou o executivo do Citi.
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O’Czerny também não vê, no geral, uma piora na qualidade dos projetos recentes, dado que a maioria começou a ser estruturada há anos. “O que faz diferença é ter um projeto bem feito de estudo de demanda, de viabilidade econômica. Os seis meses finais [da licitação] são de ritos burocráticos, não tem como antecipar tanto.”
Até julho, a expectativa é que os leilões continuem movimentados, afirmou também Saulo Puttini, sócio do Levy & Salomão Advogados. “Depois do primeiro semestre, o mercado para de comprometer recursos.”
Diante do cenário eleitoral, o maior interesse nos próximos meses deverá se concentrar em setores mais consolidados, como energia e estradas, segundo ele. Os projetos de saneamento também seguem atrativos, pela percepção de haver uma janela de oportunidade que talvez se feche nos próximos anos, avalia.
Apesar do interesse do mercado, os analistas avaliam que no atual cenário não há perspectiva de novos investidores internacionais entrando no país no curto prazo. Para O’Czerny, um dos principais entraves é a exposição à moeda local nos projetos.
Segundo Gustavo Albuquerque, consultor do escritório Pinheiro Neto, existe uma demanda crescente de empresas, especialmente as europeias, para uma mudança no processo, trazendo para o Brasil o chamado diálogo competitivo, que é quando o governo chama os operadores para a mesa antes de definir os parâmetros do leilão.
Hoje, o governo de São Paulo se prepara para implementar essa modalidade de concorrência, principalmente para concessões complexas e de grande porte, como as de mobilidade urbana. A decisão de testar o formato, inédito no Brasil, foi fruto, em grande parte, da demanda de investidores estrangeiros.
Albuquerque aponta que hoje, dentre os principais problemas das modelagens, estão a superestimação de demanda, de um lado, e subestimação de riscos, de outro. “A renegociação de contratos pesa contra [a competição] e aumenta o custo Brasil”, comenta.
Ricardo Lee, responsável pelas área de transporte e logística do Santander Brasil, aponta que nesses segmentos a leitura é de que os leilões de ativos dados como “premium”, ou seja, de ativos com maior histórico de tráfego, menor contribuição pública e em Estados e regiões mais óbvias, já vai se encerrar com o leilão da Régis Bittencourt. Os próximos leilões, diz ele, devem trazer nomes de “players” regionais ou financeiros. Nesses ativos, aponta, os competidores tradicionais devem ficar de fora.
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